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01/08/2014 15:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Sininho fala em ‘tortura' durante prisão de ativistas no RJ, enquanto MP aguarda decisão sobre habeas corpus (VÍDEO)

A ativista Eliza Quadros, a Sininho, de 28 anos, se emocionou ao falar dos dias em que ficou presa no Complexo Penitenciário de Gericinó, no Rio de Janeiro. A entrevista reuniu outros ativistas que se dizem perseguidos pelo Estado por conta dos mais recentes protestos na capital fluminense. Enquanto isso, o Ministério Público do Rio (MP-RJ) aguarda a possibilidade de reverter a decisão que deu a liberdade a 21 dos 23 ativistas denunciados no mês passado.

“Valeu a pena todas as ameaças, torturas, valeu a pena ficar forte, sabia que tinha gente lutando muito pela nossa liberdade. É a segunda vez que fui presa, mandada pra Bangu. Já estou sofrendo uma perseguição política desde o Ocupa Câmara, tive que sair do Estado, fui ameaçada por milicianos. A minha vida está se tornando um inferno a cada dia”, disse Sininho, em vídeo divulgado pela Mídia Independente Coletiva.

A ativista falou na mesma entrevista, ao lado de outros colegas que se consideram ‘perseguidos políticos’ que sofreu com torturas durante a prisão. “Fui demonizada, estou com medo de sair na rua e ser hostilizada, mas os meus heróis da ditadura me fazem seguir em frente”, afirmou, segurando as lágrimas e recebendo a solidariedade dos demais ativistas presentes.

O tom de Sininho é semelhante ao que foi dito por ela ao IG nesta semana. Nesta entrevista, concedida no escritório do advogado Marino D'Icarahy, ela comentou que chegou a ter de sair do Rio para não ser morta. Ela ainda voltou a criticar a cobertura que vem sendo dada pela mídia. “A imprensa, quando faz isso, está me colocando em risco e pode colocar meus amigos em risco também. Nunca sei se estou sendo seguida, por exemplo. Pra me matar ou matar algum companheiro não é difícil, eles não têm escrúpulos, fazem isso todos os dias. Tem essa tensão de alguma coisa acontecer comigo”, desabafou.

MP-RJ quer que desembargador reveja decisão

O procurador Riscalla Abdenur, do MP-RJ, entrou na última terça-feira (29) com um agravo regimental, pedindo reconsideração da concessão de habeas corpus a 23 ativistas acusados de atos violentos. O desembargador Siro Darlan, da 7ª Câmara Criminal, foi quem concedeu o habeas corpus que libertou os ativistas, mas ele ainda aguardava a chegada do pedido para então analisá-lo.

Abdenur ainda pediu que Darlan submeta, em 48 horas, à apreciação do colegiado da 7ª Câmara Criminal, conforme determina o regimento interno do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ). À Agência Brasil, o desembargador voltou a defender a sua decisão de conceder liberdade aos que estavam presos, o que gerou uma série de críticas contra ele de diversos setores da sociedade.

“Se alguém tiver que ser punido porque é a favor da democracia, tem que fechar este país. Não sei porque esse medo danado de me tirar do processo. A quem interessa? Mas tudo bem. Estou aqui para o que der e vier. Não sou o dono da verdade”, comentou o magistrado. Do lado dos ativistas, a advogada Eloisa Santiago – a mesma que teve negado o pedido de asilo pelo Uruguai – já adiantou que “não irá fugir”.


A questão dos ativistas não é discutida somente no Rio. Durante o debate “Teve Copa e Teve Protesto – A Repressão Policial e o Futuro dos Movimentos Sociais”, organizado pela revista Carta Capital, como parte da série “Diálogos Capitais, o professor de políticas públicas da Universidade de São Paulo (USP), Pablo Ortellado, fez um alerta.

“Hoje temos suspensão de direitos civis, a consolidação de um estado de exceção e uma sistematicidade na aplicação dessas ilegalidades em território nacional. Se não houver uma reação da sociedade, podemos terminar o ano com mais de 300 presos políticos. O que isso significa para uma democracia?”, questionou, em declarações reproduzidas pela UOL.

Cinegrafista pede autógrafo a PM que quebrou o seu braço

Integrante do Coletivo Mariachi, o cinegrafista Loloano Silva teve o seu braço quebrado por um policial militar durante um dos atos contra a Copa do Mundo no Rio. Nesta semana, ele reencontrou o PM que o teria agredido semanas antes e teve a ideia de “pedir um autógrafo” em seu gesso a ele. O momento foi registrado em vídeo e gerou alguns instantes de tensão.

A única certeza é que toda a história dos ativistas do Rio ainda está longe do fim.

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