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25/07/2014 20:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Banco Central estimula crédito em até R$45 bi para conter desaceleração econômica

João Bourbon/Flickr
As novas notas de R$ 50 e R$ 100 já começam a fazer parte do dia a dia dos brasileiros quando vão aos bancos e caixas eletrônicos e fazem compras. Segundo dados do Banco Central (BC), referentes ao último dia 26, estão em circulação 41,024 milhões dessas cédulas com valor de face de R$ 50 e 15,291 milhões, de R$ 100. As novas notas de R$ 100 e R$ 50 começaram a circular no dia 13 dezembro do ano passado. No total, são 56,315 milhões de notas da segunda família do real (R$ 50 e R$ 100) em circulação no país. Como a substituição das cédulas é feita gradualmente, de acordo com o desgaste das da primeira família, as notas antigas ainda vão predominar por algum tempo: circulam no país 1,292 bilhão de notas da primeira família, com valor de face de R$ 50 e 356,107 milhões de R$ 100. As notas de R$ 50, tanto as antigas como as novas, duram em média três anos e oito meses. No caso das de R$ 100, a durabilidade média é cinco anos. Nos caixas eletrônicos, as novas notas também estarão acessíveis aos poucos. Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a adaptação dos caixas eletrônicos para liberar as notas depende da estratégia de cada instituição. A adaptação é necessária, porque as novas cédulas têm tamanhos maiores: as de R$ 100 têm 15,6 centímetros (cm) por 7 cm e as de R$ 50,14,9 cm por 7 cm. A Caixa, por exemplo, informou que está seguindo o cronograma estabelecido pelo BC para adaptação de 60% dos equipamentos de autoatendimento até outubro deste ano. O Banco do Brasil (BB) espera adaptar 3,643 mil terminais até o final de junho. Até setembro deste ano, a adaptação estará feita em 9 mil terminais do BB. A secretária Gisele Ramos, de 27 anos, diz que, até agora, recebeu poucas informações sobre as novas notas. "Não vi muita notícia sobre isso. Quando recebi a primeira [cédula], até estranhei, pois não sabia que havia mudado." Já o motorista de táxi Antonio Araújo, de 44 anos, conta que recebe constantemente as novas notas de R$ 50, mas prefere guardar, em vez de repassar como troco para os clientes. "Eu tenho todas as novas notas que recebi guardadas. Não gosto de usá-las no dia a dia por causa do tamanho, que acaba atrapalhando." A estudante Joana Macedo, de 22 anos, gostou da aparência das novas notas: “estão mais bonitas, e o material me pareceu mais resistente que o das demais. Elas não amassam tão facilmente.”

Com o objetivo de estimular o mercado de crédito, num momento em que a atividade mostra fraqueza, o Banco Central anunciou nesta sexta-feira redução no recolhimento de parte dos compulsórios e no requerimento de capital para risco de crédito ao varejo, medidas com potencial para injetar 45 bilhões de reais na economia.

Especialistas avaliam, no entanto, que as medidas não devem ter grande efeito na oferta de empréstimos.

"(As medidas) devem ter um impacto limitado no crescimento do crédito, uma vez que a recente desaceleração do crédito é alimentada pela pior percepção de risco de crédito, dada a visível desaceleração econômica e o risco de desemprego crescente", afirmou o diretor de pesquisa econômica do Goldman Sachs para América Latina, Alberto Ramos.

No caso do compulsório (parte dos recursos dos bancos que fica depositada no BC, ou seja, fora de circulação), a autoridade monetária "decidiu adotar medidas com vistas a melhorar a distribuição da liquidez na economia", um dia após ter deixado claro que não pretende baixar a taxa básica de juro diante da inflação ainda pressionada.

O BC disse ainda, em nota, que a medida foi tomada levando em consideração a recente moderação na concessão do crédito, inadimplência relativamente baixa e menor nível de risco no sistema financeiro nacional.

Entre as medidas de compulsório, com potencial de liberar 30 bilhões de reais para uso no mercado de crédito, o BC permitiu que até 50% do recolhimento compulsório sobre depósito a prazo sejam cumpridos com novas operações de crédito e na compra de carteiras diversificadas (pessoas jurídicas e físicas).

Em um segundo comunicado, o BC divulgou ajustes em critérios sobre o requerimento mínimo de capital para risco de crédito das operações de varejo, permitindo "alocação de capital mais compatível com o histórico de pagamentos da operação". O capital adicional requerido nas operações de crédito em função do prazo original de contratação passa a ser pelo prazo remanescente, isto é, até o vencimento.

Segundo o chefe do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro do BC, Sérgio Odilon dos Anjos, a medida relacionada ao crédito ao varejo tem potencial para liberar cerca de 15 bilhões de reais.

Os bancos têm mostrado mais cautela na oferta de empréstimos, diante do baixo crescimento do país e menor oferta de emprego. Para este ano, o BC prevê que o estoque total de crédito no Brasil crescerá 12%, menos do que os 14,7% em 2013.

Contradição?

As medidas de estímulo ao crédito foram divulgadas no dia seguinte ao BC ter deixado claro que não vai reduzir a Selic, atualmente em 11% ao ano, porque vê que o cenário inflacionário ainda está pressionado.

Na ata do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada na quinta-feira, o BC acabou lembrando as medidas macroprudenciais de 2010 o que, para alguns analistas, já era indicação de que alguma mudança poderia vir.

Com as alterações no compulsório e no requerimento de capital para risco de crédito no varejo, o BC estimula o mercado de financiamentos de forma mais pontual, evitando que uma ação mais ampla de política monetária acabe tendo impacto maior na economia.

"O BC não deve mexer na taxa de juros tão cedo... Está recorrendo às medidas macroprudenciais para prover algum alento ao mercado de crédito. As medidas ocorrem em boa hora, mas, dada a conjuntura adversa para o consumo, devem ter impactos limitados", afirmou em nota a equipe da Rosenberg Associados.

Ramos, do Goldman Sachs, avalia que a tentativa de estimular o crédito com as medidas desta sexta-feira "em um ambiente ainda de inflação elevada pode minar a efetividade da política monetária e a busca contínua para desinflacionar a economia e realinhar a inflação para a meta".

Questionado se as medidas para crédito são contraditórias com a política monetária, o chefe do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro do BC não respondeu.

A assessoria de imprensa do BC comunicou que as novas medidas "em nada alteram" as projeções de inflação da autoridade monetária. "(O BC) acabou de divulgar a ata (do Copom) onde consta a descrição do cenário para inflação. Além disso, cabe destacar, como está claro na ata, nesse cenário leva-se em conta a evolução esperada para o mercado de crédito", informou.

O BC estima que a inflação medida pelo IPCA fechará este ano a 6,4%, muito perto do teto da meta oficial --de 4,5%, com margem de dois pontos percentuais para mais ou menos. Para 2015, o BC vê o índice em 5,7%.

Bancos aprovam

A redução em exigências em depósitos compulsórios e os menores requerimentos de capital para certas operações de financiamento anunciadas nesta sexta-feira pelo Banco Central foram recebidos com unânime aprovação pelos presidentes dos maiores bancos privados do país

"As medidas são muito positivas", disse à Reuters o presidente-executivo do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco. "Terão efeito sobre a percepção dos bancos."

Em comunicado, o presidente-executivo do Santander Brasil, Jesús Zabalza, afirmou que as mudanças devem estimular a ampliação do crédito. "Avaliamos que devem ter reflexos positivos sobre a atividade econômica", disse.

Bradesco e Santander Brasil abrem na próxima quarta-feira a temporada de divulgação de resultados do setor bancário brasileiro no segundo trimestre. Previsões preliminares de analistas apontam que os bancos privados devem mostrar nova rodada de crescimento fraco dos financiamentos.

Entre as medidas anunciadas pelo BC está a permissão para que até 50% do recolhimento compulsório sobre depósito a prazo seja cumprido com novas operações de crédito e na compra de carteiras diversificadas (pessoas jurídicas e físicas).

Trabuco calcula que só para o Bradesco essa medida vai liberar cerca de 6 bilhões de reais de recursos extras, que poderão ser empregados na oferta de empréstimos.

Noutra frente, o BC ajustou critérios de requerimento mínimo de capital para risco de crédito das operações de varejo, permitindo "alocação de capital mais compatível com o histórico de pagamentos da operação". O capital adicional requerido nas operações de crédito em função do prazo original de contratação passa a ser pelo prazo remanescente, isto é, até o vencimento.

"Para nós, essa flexibilização pode aumentar em pouco mais de 10 bilhões o crédito sem necessidade adicional de capital", disse Trabuco.

A desaceleração é liderada pelos bancos privados, que vêm avançando em ritmo equivalente a cerca de metade da média de Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil.

"Vejo de forma positiva as iniciativas, pois criam condições de aumentar o crédito em alguns segmentos do mercado onde a liquidez estava menos folgada", afirmou o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, em comunicado à imprensa.

Consultados, a Caixa e o Banco do Brasil não se pronunciaram. Reservadamente, uma fonte afirmou que as medidas são positivas, mas que o impacto ainda está sendo analisado.