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24/07/2014 20:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Luiz Eduardo Soares critica Bope e prisões de ativistas no Rio: "Vivemos um momento muito difícil" (VÍDEO)

“Nós estamos vivendo um momento muito difícil, muito triste”. A frase é do ex-secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, e está direcionada às prisões de ativistas envolvidos com os protestos no Rio de Janeiro. Na visão do cientista política, que já coordenou a área de segurança no governo de Anthony Garotinho no Estado, há nuances que remetem a atual situação aos tempos da ditadura militar.

“Essa conjuntura em particular é muito delicada porque ela aponta para o retrocesso, sobretudo para quem da minha geração, que viveu a luta contra a ditadura. Nós pensávamos que tivéssemos de fato virado a página, pelo menos nas questões fundamentais como liberdade de manifestação, de organização política, etc., e estamos vendo que não é assim”, disse Soares ao canal PosTV.

O ex-secretário ainda bateu pesado na denúncia contra 23 ativistas do Rio, feita pelo Ministério Público (MP-RJ) e aceita pela Justiça fluminense. Na opinião dele, a condução “dirigida” do processo todo deveria até mesmo levar a uma paralisação da ação penal, pelas muitas “contaminações” que já teriam ocorrido, segundo Soares.

“Em relação a essas prisões arbitrárias completamente, com provas forjadas, com conexões que são todas elas, obviamente, construídas de uma maneira dirigida, com divulgação pela mídia antes dos advogados terem sido informados... ou seja, aberrações que deveriam levar que esse processo inteiro fosse sustado, mas temos o contrário. Temos uma avalanche na mídia tradicional pra constranger os movimentos sociais, os sindicatos, os partidos comprometidos com as lutas sociais”, comentou.

A posição apresentada por Soares não é muito diferente daquela apontada por diversos movimentos sociais, incluindo o Grupo Tortura Nunca Mais do Rio.


A título de comparação, Soares questionou a acusação de formação de quadrilha feita pelo MP-RJ contra os ativistas, algo que nunca foi feito por exemplo contra policiais do Bope, batalhão especial da Polícia Militar do Rio, que são “incitadores da violência”, de acordo com ele.

“Pelas ruas do Rio, policiais militares em treinamento cantam o seguinte: ‘homens de preto, qual é sua missão? Invadir favela e deixar corpo no chão’. Eles cantam uniformizados, conduzidos por um oficial, e esse refrão nunca foi tomado como formação de quadrilha armada com a intenção de perpetrar crime (...). Nós temos milhares de autos de resistência nas comunidades e nas favelas, centenas desses casos perpetrados pela tropa do Bope. Bope que treina prometendo, ameaçando, incitando a violência. Nunca o MP, nunca uma autoridade judicial (...) nunca aqueles setores que se mostram unidos contra as manifestações nunca perceberam nessa ameaça, nessa promessa depois cumprida a trama, a articulação de uma quadrilha armada com patrocínio e a benção do Estado”, afirmou.

“Eu acho que, se a troca de palavras e conversa informal de dois adolescentes, brincando no telefone, se referindo a situações imprecisas, se isso pode ser tomado como qualquer prova... e o canto que ameaça o povo que vive nas comunidades e nas favelas cotidianamente?”, emendou.

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