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23/07/2014 17:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Morte de Ariano Suassuna: legado do "cangaceiro manso" mistura o popular e o erudito

Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Morreu na tarde desta quarta-feira (23) o escritor, dramaturgo e poeta paraibano Ariano Suassuna, aos 87 anos.

Anteontem (21), Ariano sofreu um acidente vascular cerebral do tipo hemorrágico e, por volta das 20 horas, foi internado na UTI neurológica do Real Hospital Português em Recife (PE) para a colocação de drenos para controlar a pressão intracraniana.

O escritor passou a terça-feira (22) em coma, respirando com ajuda de aparelhos. Mais cedo, boletim médico assinado pela neurocirurgiã Feliciana Castelo Branco informava que a situação era "grave, mas estável":

"O paciente Ariano Suassuna permanece internado na UTI Neurológica do Real Hospital Português. Está em coma, respirando com ajuda de aparelhos. O quadro clínico é considerado grave, mas estável. Ariano foi submetido, na noite desta última segunda-feira (21/07), a um procedimento cirúrgico com colocação de dois drenos para controlar a pressão intracraniana, provocada por um AVC hemorrágico. Não há previsão de alta da UTI".

Por volta das 20 horas, foi divulgado um segundo boletim médico que apontava agravamento no quadro. A situação era instável, com queda da pressão arterial e pressão intracraniana muito elevada.

Hoje, por volta das 17:15, ele não resistiu.

Em 21 de agosto do ano passado, Ariano sofreu um infarto agudo do miocárdio e foi submetido ao procedimento de cateterismo na Unidade Coronária do Real Hospital Português. Depois de seis dias internado, Ariano recebeu alta e continuou o tratamento em casa por dois dias, quando retornou ao hospital devido a um aneurisma cerebral.

Vida e obra de Ariano Suassuna

"Um cangaceiro manso, um palhaço frustrado, um frade, um mentiroso, um professor, um cantador sem repente e um profeta." Assim se descrevia Ariano Suassuna, conforme a abertura do Roda Viva com o escritor, em 2012.

Nascido em João Pessoa, em 16 de junho de 1927, o dramaturgo, romancista e poeta paraibano sempre foi um intelectual engajado: a política corria nas veias. O pai, João Suassuna, exerceu o posto de presidente da Paraíba entre 1924 e 1928 pelo Partido Republicano da Paraíba (PRP). Quando Ariano contava 3 anos, no clima da Revolução de 1930, o pai foi assassinado no Rio de Janeiro, então capital da República – levou um tiro no cruzamento das ruas Riachuelo e Inválidos.

Com a morte do pai, Ariano e a família se mudaram para Taperoá (PB) e, em 1942, para Recife (PE). Na capital pernambucana, Ariano terminou os estudos secundários e entrou para a Faculdade de Direito do Recife (atual faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco). Enquanto estava na faculdade, Ariano Suassuna estreou na literatura ao publicar o poema "Noturno" no Jornal do Commercio do Recife, em 7 de outubro de 1945. Também na faculdade conheceu Hermilo Borba Filho; juntos, fundaram o Teatro do Estudante de Pernambuco.

Formou-se em 1950 e, no ano seguinte, retornou a Taperoá para se curar de uma doença pulmonar. Retornou à capital pernambucana em 1952, onde exerceu a advocacia por cinco anos, em paralelo à dramaturgia. Escreveu as peças O Castigo da Soberba (1953), O Rico Avarento (1954) e o Auto da Compadecida (1955) — sobre este último trabalho, o crítico Sábato Magaldi escreveu, no jornal O Estado de S.Paulo de 9 de março de 1957:

"Ariano Suassuna aproxima o Nordeste de Florença e Roma renascentistas, (...) funde, em seus trabalhos, duas tendencias que se desenvolvem quase sempre isoladas em outros autores, e consegue assim um enriquecimento maior da sua materia-prima. Alia o espontaneo ao elaborado, o popular ao erudito, a linguagem comum ao estilo terso, o regional ao universal."

Em 1956, deixou de lado a carreira como advogado e se tornou professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco. Fundou o Teatro Popular do Nordeste três anos depois, também em companhia de Hermilo Borba Filho.

Ariano foi o idealizador do Movimento Armorial, cujo objetivo era criar arte erudita a partir de elementos da cultura popular, mais especificamente do nordeste brasileiro. Lançou a proposta em 18 de outubro de 1970, com o concerto “Três Séculos de Música Nordestina – do Barroco ao Armorial” e uma exposição de gravura, pintura e escultura.

Em 1990, foi eleito imortal da Academia Brasileira de Letras e passou a ocupar a cadeira 32. No discurso de posse, relembrou seu passado:

Foi de meu pai, João Suassuna, que herdei, entre outras coisas, o amor pelo sertão, principalmente o da Paraíba, e a admiração por Euclides da Cunha. Posso dizer que, como escritor, eu sou, de certa forma, aquele mesmo menino que, perdendo o pai assassinado no dia 9 de outubro de 1930, passou o resto da vida tentando protestar contra sua morte através do que faço e do que escrevo, oferecendo-lhe esta precária compensação e, ao mesmo tempo, buscando recuperar sua imagem, através da lembrança, dos depoimentos dos outros, das palavras que o pai deixou.

Aposentou-se como professor em 1994, mesmo ano em que assumiu o cargo de secretário de Cultura do Estado de Pernambuco, no governo Miguel Arraes.

Em 2002, foi tema de enredo carnavalesco na escola de samba Império Serrano, do Rio de Janeiro. Seis anos depois, a Mancha Verde, de São Paulo, homenageou o escritor. No ano passado, a paulista Pérola Negra teve O Auto da Compadecida como enredo.

Vida e obra de Ariano Suassuna