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23/07/2014 09:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Fábio Hideki Harano: prisão de ativista pacífico completa um mês, revolta paulistanos e mantém alerta internacional

Reprodução/liberdadeparahideki.org

A prisão de Fábio Hideki Harano, ativista pacífico classificado como "líder de black bloc" pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, completa um mês nesta quarta-feira (23).

São 30 dias de mobilização de milhares de amigos e colegas, que instituíram uma rede de solidariedade ao servidor e estudante da Universidade de São Paulo (USP).

E 30 dias de sofrimento para a família dele, que está convicta da inocência do jovem de 27 anos, mas que enfrenta uma série de derrotas na Justiça na tentativa de conseguir libertá-lo.

Na decisão mais recente ontem (22), o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) negou mais uma vez habeas corpus a Hideki.

Na segunda-feira (21), o juiz Marcelo Matias Pereira abriu ação penal contra Hideki, acolhendo quatro denúncias do Ministério Público contra ele: por associação criminosa, incitação ao crime, porte de explosivo e desobediência.

hideki

Comoção internacional

As denúncias de provas forjadas para justificar a prisão em flagrante provocaram um alerta da ONG internacional Human Rights Watch (HRW) no início deste mês.

Ontem (21), a diretora da HRW no Brasil, Maria Laura Canineu, ressaltou ao Brasil Post a repercussão internacional da prisão de Hideki e do ativista Rafael Lusvargh, detido no mesmo protesto há um mês. “[É] um caso emblemático em que as autoridades públicas brasileiras baseiam em evidências questionáveis a restrição preventiva da liberdade de indivíduos”, avalia.

Canineu destaca que todas as autoridades de São Paulo foram sensibilizadas pela HRW a investigar as denúncias de provas forjadas – não só a Polícia Civil e a Secretaria de Segurança Pública, mas a totalidade dos “integrantes do sistema de Justiça”, o que inclui o Ministério Público e o TJ-SP.

Ela também questiona os abusos nas atividades policiais na capital paulista. “Quando não são claras nem consistentes as evidências da acusação, [as prisões] representam um risco à liberdade de manifestação e reforçam um histórico em que abusos no exercício de poder de polícia não são casos isolados”, frisa.

Por diversos ângulos, vídeos gravados no momento do flagrante e postados no Youtube indicam que Hideki não portava explosivos, acusação feita pela Polícia Civil e levada a cabo pela Justiça.

Testemunha da prisão no dia 23 de junho, o padre Júlio Lancelloti, membro da Pastoral de Rua da Arquidiocese de São Paulo, declarou que nenhum artefato foi encontrado quando a mochila de Hideki foi revirada. “Havia máscara de gás e vinagre, para ele se proteger de gás lacrimogêneo, pacote de salgadinho, garrafinha de água”, contou ao Brasil Post, na semana seguinte ao flagrante.

presos

A Anistia Internacional também acompanha o caso de perto. A entidade que defende os direitos humanos revela preocupação com punições a manifestantes, como Hideki e Lusvargh.

“São prisões feitas de forma arbitrária muitas vezes; há muitos casos de manifestantes pacíficos detidos e investigados por crimes que nem sequer são adequados ao contexto dos protestos”, reflete Renata Neder, assessora de direitos humanos da Anistia Internacional no Brasil.

Para ela, não faz sentido um ativista como Hideki ser acusado de associação criminosa. “A forma como os manifestantes estão sendo enquadrados é intimidação e criminalização de movimentos pacíficos”, critica.

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'Ele não é líder de movimento'

A mobilização em prol da liberdade de Fábio Hideki Harano continua pela internet e nas ruas. Mais de seis mil pessoas curtiram a página da rede no Facebook (agora extinta).

Diversos eventos já foram organizados para clamar pela libertação do funcionário da USP. Em um ato promovido pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP no dia 15, a mãe de Hideki, Helena Harano, defendeu o filho.

“Meu filho não é líder de nenhum movimento; ele participa dos movimentos, de vários, mas não é líder”, argumentou. “Manifestar em passeatas em não é crime; ele tem participado de várias manifestações, mas sempre de maneira pacífica.”

A rede organizada em defesa da soltura de Hideki tenta desconstruir a tese da Secretaria de Segurança de SP de que ele adota a tática black bloc, de promover depredações de símbolos do capital, tais como bancos e lojas.

O servidor da USP Daniel Redondo conhece bem o temperamento e os princípios do amigo Hideki, a quem foi apresentado em 2011. “Ele sempre deixou explícito que a tática black bloc é ineficiente e acaba atrapalhando quem está na rua em manifestação; não é a linha de atuação dele”, conta ao Brasil Post.

Para Redondo, Hideki ficou marcado pela polícia pelos trajes característicos usados nos protestos. “Ele participou de quase todos os atos contra a Copa, sempre de capacete, blusa grossa, para o impacto de eventual bala de borracha ser menor; estava sempre preocupado em se proteger sem deixar de protestar.”

Quem é Fábio Hideki Harano, preso em SP


O lado oficial

O TJ-SP informa que o processo contra Fábio Hideki Harano e Rafael Lusvargh agora corre em segredo de Justiça.

O juiz Marcelo Matias Pereira cobrou da Polícia Civil o envio imediato dos laudos produzidos na investigação, com tipo de perícia.

Procurado pelo Brasil Post, o Ministério Público Estadual de São Paulo não informou até a publicação desta reportagem como o Grupo de Atuação Especial de Controle Externo das Atividades Policiais tem atuado nesse caso. Esse grupo visa a investigar irregularidades praticadas pela polícia.

Desde o início do mês, quando o Brasil Post enviou uma série de perguntas à Secretaria de Segurança Pública de SP, não houve respostas sobre as denúncias de provas forjadas.

Segundo o El Pais Brasil, o secretário Fernando Grella prefere não se pronunciar sobre as prisões de Hideki e Lusvargh.

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