COMPORTAMENTO
15/07/2014 11:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Arthur Tress transforma pesadelos de crianças em fotografias assustadoras

Divulgação/The Getty Museum/Arthur Tress

Hoje em dia, seus pesadelos possivelmente são preenchidos com ansiedades adultas, tais como esquecer o prazo de um trabalho ou ir a uma reunião sem roupa. Mas se você voltasse no tempo, mais especificamente à hora de dormir quando você era mais jovem, veríamos que sua mente o levou a um terreno muito mais macabro, de cemitérios devastados a parques de diversões abandonados.

Não hesitamos em dizer que, no reino dos pesadelos, as crianças reinam supremas. Sua imaginação desenfreada e, muitas vezes, bastante perturbadora evoca imagens mais insanas que cenas de filmes de terror. Bastaver o trabalho do fotógrafo Arthur Tress, que, no fim dos anos 1960 e começo dos anos 1970, pediu a crianças que descrevessem seus pesadelos e, depois, imortalizou-os em fotografias.

A série de imagens em preto e branco, chamada Daymares (em tradução e referência livres, "Pesadelos diurnos"), permanece tão assustadora hoje quanto era quarenta anos atrás (talvez até mais), pois a profundeza sombria da psiquê inocente é arrancada da mente adormecida e salta para a vida real.

Daymares, de Arthur Tress

Tress iniciou a série depois de fotografar crianças brincando ao longo da orla de Manhattan, como parte de uma série de fotografias ambientais. Depois, foi recrutado para fazer um workshop com educador infantil Richard Lewis. "Todo ano ele tem um tema diferente," Tress afirmou ao Gothamist, "e, certo ano, ele trabalhou com os sonhos infantis, fez com que as crianças fizessem poemas e pintassem os seus sonhos. Ele me convidou para fotografar sua aula. Eu disse: 'É uma excelente ideia, e vou continuar o trabalho perguntando a crianças e a amigos que sonhos eles lembram da infância'."

"Eu estava procurando por imagens mitológicas, arquetípicas, no estilo de pesadelos", disse. "Esse estilo, então, se tornou minha marca pelos vinte anos seguintes; esse estilo de fotografia perturbadora e surreal." Numa época em que a fotografia de rua governou supremo, Tress foi um dos primeiros fotógrafos a experimentar com fotos encenadas. Séries como esta são as primeira a destruir a crença de que a fotografia é uma ferramenta exclusiva para documentar a realidade; é, também um meio de imaginar e criar novas realidades.

Nesse sentido, a visão de sonho da criança não é tão diferente da visão de um artista, pois ambas dão forma aos nossos medos e desejos furtivos. Como o artista expressou em 1972, quando as imagens foram exibidas em primeiro lugar: "O propósito dessas fotografias de sonhos é mostrar como a imaginação criativa da criança constantemente transforma sua existência em símbolos mágicos para estados de sentir e de ser. Na verdade, todos nós somos sempre trafegando ou traduzindo nossas percepções diárias da realidade uma esfera encantada do mundo dos sonhos."

No livro The Fantastic Voyage ("A viagem fantástica", em tradução livre), Richard Lorenz explora a obsessão de Tress com os sonhos como um impulso para a arte. "Tress sugere que muito da fotografia atual (...) deixa de abordar a vida oculta da imaginação e fantasia, faminta de estímulos. O fotógrafo documental nos fornece fatos ou se afoga na humanidade, enquanto o pictorialista, avant-garde ou conservador, nos agrada com meras composições esteticamente corretas. Mas onde estão as fotografias para as quais podemos rezar, ou que nos farão bem novamente, ou que nos assustarão?"

The Getty Museum adquiriu 66 fotografias de Tress no começo deste ano, incluindo "Criança enterrada na areia de Coney Island/ Garoto com chapéu do Mickey Mouse", um trabalho de 1968.

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