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04/07/2014 01:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Servidores da USP repudiam prisão de Fábio Hideki: 'ato maior de violência praticado pelo Estado'

Reprodução/Liberdadeparahideki.org

A corrente de indignados com a prisão do servidor público Fábio Hideki Harano, na capital paulista, vem crescendo nas ruas e nas redes sociais. Nesta quinta-feira (3), funcionários da Universidade de São Paulo (USP) que são colegas de Hideki divulgaram uma carta aberta à sociedade, em que manifestam "assombro" e "repúdio" pelas acusações que pesam contra o rapaz de 27 anos.

"[As suspeitas de associação criminosa e incitação à violência] nos causaram verdadeira indignação pois não condizem, em absoluto, com o Fábio Hideki Harano, militante, comprometido e não-violento, que conhecemos", diz a carta assinada pelos trabalhadores do Centro de Saúde Escola Butantã Samuel Barnsley Pessoa, unidade da Faculdade de Medicina da USP.

Hideki trabalha na farmácia do centro de saúde, onde a conduta dele é de "inquestionável retidão", de acordo com os colegas. "Fábio é reconhecido por sua gentileza e atenção dispendida a cada pessoa e pela consciência de seu papel de educação em saúde nos seus atendimentos", assinala o documento.

É mais um extenso depoimento que mostra um Fábio Hideki Harano muito diferente do retrato feito pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.

Segundo o secretário Fernando Grella, Hideki é líder de black blocs e estimula quebra-quebra e violência contra os policiais. Ele foi preso em flagrante no dia 23 de junho por associação criminosa, posse ilegal de explosivo, incitação ao crime, desobediência e resistência a prisão.

Leia a carta na íntegra:

Nós, trabalhadores do Centro de Saúde Escola Butantã Samuel Barnsley Pessoa da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, decidimos hoje em Assembleia, por unanimidade, vir a público manifestar nosso repúdio à prisão arbitrária de nosso colega Fábio Hideki Harano, preso em 23 de junho de 2014 após participar da manifestação “Se não tiver direitos, não vai ter Copa”.

O envolvimento de Fábio com as causas que ele acredita é visível para todos nós. Ele não poupa energia para defender direitos da população, mesmo que ele não seja diretamente beneficiado, e é comum vê-lo ir, ao término de seu expediente, apoiar presencialmente atos em defesa do bem comum.

Sua militância se expressa também por meio de seu compromisso com seu trabalho como servidor público, realizado com inquestionável retidão. Em seu trabalho na farmácia, Fábio é reconhecido por sua gentileza e atenção dispendida a cada pessoa e pela consciência de seu papel de educação em saúde nos seus atendimentos. Sua atuação política no serviço é também marcada pelo diálogo transparente e construção democrática, sempre se posicionando com convicção e respeito ao outro e às decisões coletivas.

Portanto, foi com assombro que recebemos a notícia de sua prisão e das cinco acusações que lhe estavam sendo imputadas. Não precisamos nos deter sobre três delas (porte de material explosivo, desacato à autoridade e resistência à prisão): há vários vídeos e testemunhos do momento de sua prisão que desmentem essas acusações.

Quanto às outras duas (associação criminosa e incitação à violência), estas nos causaram verdadeira indignação pois não condizem, em absoluto, com o Fábio Hideki Harano, militante, comprometido e não-violento, que conhecemos. Para nós, a conversão em prisão preventiva e a negação do pedido de habeas corpus sob a justificativa de oferecer “perigo à ordem pública” são ultrajantes e consistem em um ato maior de violência perpetrada pelo estado, que merece nosso mais veemente repúdio.

Ao colega Fábio, oferecemos nosso apoio e solidariedade e desejamos-lhe força diante dessa injustiça. Seguimos juntos!

Denúncia de provas forjadas

Vídeos compartilhados na web mostram que, durante a revista de Fábio Hideki, não foram encontrados explosivos. Ele grita para ser filmado e pede para exercer sua liberdade de expressão, mas em nenhum momento insta outros manifestantes a atacar os policiais civis que o abordaram.

Testemunhas acreditam que provas foram forjadas para efetuar a prisão em flagrante. Em entrevista ao Brasil Post, o padre Julio Lancellotti, da Arquidiocese de São Paulo, chamou de "delirantes" as acusações da Polícia Civil de São Paulo.

A ONG internacional Human Rights Watch já alertou o Brasil sobre a prisão de Hideki e de outro manifestante, Rafael Marques Lusvarghi, no mesmo protesto dia 23 do mês passado.

"A menos que as autoridades de São Paulo possam apresentar evidências críveis de que Harano e Lusvarghi cometeram crimes, deve ser concedida liberdade imediata e incondicional para esses dois homens", afirmou a diretora do Human Rights Watch no Brasil, Maria Laura Canineu.

O Brasil Post procurou a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo para tratar das denúncias das provas forjadas na manhã de quarta-feira (2). Até a publicação desta reportagem, a assessoria não enviou qualquer resposta sobre os casos de Fábio Hideki e Rafael Lusvarghi.

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Pedido de habeas corpus negado

Nesta quinta-feira (3), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou liminar para a liberdade de Rafael Lusvarghi e Fábio Hideki. A desembargadora Marilza Maynard entendeu que a decisão de juiz do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), que havia negado liminar para a soltura dos jovens, está "suficientemente motivada".

Como o mérito do habeas corpus ainda não foi julgado no TJ-SP, a magistrada considera que a análise do pedido pelo STJ não respeitaria o rito do processo por instâncias.

A Defensoria Pública do Estado de São Paulo recorreu ao STJ alegando que o juiz do TJ-SP ignorou depoimentos e provas favoráveis aos manifestantes presos.

Procurada pelo Brasil Post, a assessoria da Defensoria informa que agora vai esperar a análise do mérito do habeas corpus por turma do TJ-SP.

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