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25/06/2014 09:32 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Professora Raquel Rolnik sobre Copa: 'É uma vitrine para movimentos retomarem o centro das discussões urbanas do país'

Ndecam/Flickr
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Quando se trata da relação da Copa do Mundo com as mudanças que aconteceram no país, especialmente em São Paulo, a urbanista e professora da USP Raquel Rolnik é enfática: o evento não criou novas demandas para os movimentos sociais, mas sim as amplificou. "Tudo coincidiu com o aumento da disponibilidade do crédito, exacerbou um boom imobiliário que já acontecia, a Copa apenas fortaleceu. Há um aumento do preço dos alugueis e dos imóveis. Itaquera, um dos cenários da Copa, é um dos locais onde isto está acontecendo".

Raquel, que já atuou como consultora da Onu para habitação, entende que o evento que fez com que o mundo prestasse uma atenção maior no Brasil nas últimas semanas foi uma excelente oportunidade que os movimentos sociais tiveram para ganhar força e conseguir trazer de volta para o centro da pauta política das cidades as suas reivindicações, como aconteceu na última terça (24), quando o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto protestou nas ruas de São Paulo para exigir alterações no Plano Diretor da cidade.

"Há questões que estão sendo discutidas pelos movimentos sociais desde 2002 e 2003 que voltaram à tona com a retomada do setor imobiliário em 2008 e 2009 e que com a Copa ganham um novo fôlego". Nesta entrevista, Raquel fala sobre a relação do evento da Fifa com a pauta dos principais movimentos sociais do país, especialmente dentro da cidade de São Paulo, na perspectiva do novo Plano Diretor.

De que maneira os movimentos sociais utilizaram a Copa ao seu favor?

A Copa é uma grande vitrine, é um grande estande de vendas, onde se vende tudo, inclusive a imagem da cidade. Há uma grande exposição do mercado imobiliário, com visibilidade internacional. Portanto, os movimentos sociais e de contestação à nossa política urbana aproveitaram também este momento para conseguir mais visibilidade às suas lutas. Esta é a real conexão: estas manifestações não foram provocadas pela Copa. Até porque, um momento muito importante para a discussão da questão urbana aconteceu em junho do ano passado, nas manifestações que tomaram as ruas de diversas cidades brasileiras. Na época, não havia ainda Copa do Mundo e nem uma conjuntura eleitoral. De lá pra cá, estes movimentos apenas continuaram, talvez não com tanta intensidade, mas permaneceram em pauta.

Brasil Post: A Copa do Mundo trouxe algumas mudanças para as nossas cidades. Baseado nisto, o que deve ser pauta para as eleições?

Raquel Rolnik: A principal questão que as cidades enfrentam não é algo que se põe este ano, por conta da Copa do Mundo e das eleições, mas é uma questão estrutural do modelo das cidades do Brasil. Em função do desenvolvimento econômico e da ligeira distribuição de renda que nós tivemos nos últimos anos, ficou mais claro e mais evidente este problema estrutural, que o problema do nosso desenvolvimento urbano. É um modelo que é incapaz de produzir urbanidade e cidade para todos. Esta é uma questão estrutural, não está relacionada à Copa ou às Eleições.

Os movimentos sociais, especialmente o Movimento Passe Livre (MPL) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) chamaram atenção para as suas causas. Para a senhora, isso fez com que houvesse uma maior adesão popular à discussão das cidades?

Quando o Movimento Passe Livre, por exemplo, levanta o tema da mobilidade urbana, o problema da circulação com o “Não são só R$ 0,20”, não é apenas a questão do preço do transporte, mas o que significa este transporte público para a cidade que está em discussão. Essas questões, ligadas ao direito para cidade a todos, já estavam sendo pautadas pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, que é um movimento já histórico, que promove ocupações desde os anos 1990 na área central da cidade. Essa relação entre o direito à moradia, o direito ao transporte e o direito à cidade já vinha sendo construída. O que o MTST faz nesta conjuntura é conseguir retomar uma grande mobilização popular, através das manifestações e ocupações e numa conjuntura com Copa, que é uma conjuntura importante e de extrema visibilidade.

Em se tratando de movimentos sociais e os questionamentos sobre os espaços públicos, quais foram os avanços mais concretos em São Paulo?

Em São Paulo é preciso pensar nisso em dois planos. No plano da sociedade civil, há uma consciência sobre o direito à cidade e o direito ao espaço público. É algo que aparece cada vez mais forte. Na prática, a cidade tem hoje uma adesão muito maior aos espaços públicos do que há dez anos atrás. Em termos de resposta de governo tem uma resposta muito importante que está inscrita em uma proposta de aumento de transporte público na cidade. Isso é uma mudança importante na cultura urbanística da cidade, que aposta muito mais na ideia de uma cidade estruturada através deste transporte público. Esta é uma ideia nova. Mas disto até realmente acontecer mudanças que alterem a cidade de verdade, é um processo longo. Desde os anos 1940 a política urbana da cidade está baseada na circulação de automóveis e na expansão da periferia, baseada na ideia de que lugar de pobre é na periferia.

Qual a leitura a senhora faz do novo Plano Diretor Estratégico?

Este plano diretor, ao meu ver, traz dois avanços que são muito importantes. Ele pela primeira vez afirma um projeto de cidade estruturado sobre o transporte coletivo de massa, que é a ideia dos eixos de adensamento. Isso é um marco na cultura urbana da cidade. O segundo elemento, que é um elemento que já vinha vindo, ele avança numa política fundiária de habitação. A regulação do mercado no sentido de abrir espaço para o acesso à habitação popular. Tanto num ponto, como no outro, estes avanços só aconteceram porque os movimentos importantes da sociedade civil também aconteceram. Movimentos no campo da mobilidade, no qual eu incluo não apenas o MPL, mas também toda a questão levantada pelos cicloativistas e também os movimentos em relação à moradia e esta luta histórica pelo direito à cidade de São Paulo.

No que diz respeito à mobilidade urbana em São Paulo, como é vista, para a senhora, a questão das bicicletas?

Falta uma política pública adequada. Da maneira como está agora está longe de ser o ideal: um banco decide colocar bicicletas disponíveis em alguns locais da cidade, outro decide fazer também… Isto não é política pública. Política pública é quando você pensa um modelo de circulação de bicicletas para a cidade, você define quais são as prioridades e a partir daí você busca alguma parceria para implementar este sistema. A parceria é o fim. Quando você começa pela parceria você está começando o processo de maneira contrária.

De que maneira as bicicletas podem ajudar a mudar o modelo atual de mobilidade urbana?

A história da cidade de São Paulo sempre priorizou carros.. Esta foi a lógica seguida por muitos anos. Com o questionamento deste modelo de circulação a bicicleta também questiona. As políticas municipais e estaduais ainda não incorporaram a bicicleta como meio de transporte. Isto que nós vemos nas ruas, com vias para o lazer, é legal, para passeios, mas isto não é um sistema de mobilidade. Agora se está começando a montar um sistema com um número maior de vias, mas ainda não houve uma insistência nesta direção.

MTST protesta por Plano Diretor em SP