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21/06/2014 19:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

Lula 'messiânico', discurso de paz e preocupação com as ruas: PT lança armas para reeleger Dilma

ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO CONTEÚDO

De Brasília - Ora eletrizante e inflamada, ora enfadonha e burocrática, a convenção do PT tentou esbanjar otimismo ao formalizar a indicação da presidente Dilma Rousseff para as eleições de outubro. O evento, realizado neste sábado (21) em Brasília, apresentou alguns caminhos óbvios que os petistas vão adotar para a continuidade dos 12 anos de comando do Brasil, mas também ambivalências e discursos conflitantes. Uma coisa é certa e consensual: será uma eleição difícil.

“Desde o início, em 2002 com a eleição de Lula, a esperança venceu medo. Nessa eleição, a verdade deve vencer a mentira e a desinformação. O nosso projeto de futuro e todas as nossas realizações devem vencer aqueles cuja proposta é retornar ao passado”, disse Dilma, perante centenas de delegados e militantes do partido. O discurso de 56 minutos da presidente, curiosamente, foi o momento menos empolgante de toda a convenção.

A presidente manteve a toada do que vem dizendo nos últimos meses, enfatizando os avanços do País sob o comando petista, citando mais notadamente programas como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, e o Pronatec. Dilma ainda pediu mais quatro anos para seguir mudando o País, baseada mais uma vez em dois pilares: “solidez econômica” e amplitude das “políticas sociais”.

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Os três petistas a falarem na convenção – além de Dilma, discursaram o presidente do PT, Rui Falcão, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – demonstraram um enorme grau de preocupação com os coletivos e movimentos que foram e seguem nas ruas com as mais diversas reivindicações. O próprio jingle criado para a campanha (assista abaixo) coloca Dilma como “coração valente’ e tenta captar com sua mensagem a simpatia daqueles que hoje lutam nas ruas por um Brasil melhor, algo que Dilma afirma ter feito no passado – mais notadamente na ditadura, quando foi presa e torturada.

“Precisamos saber que eleição se ganha não só com um bom programa. Além do programa, é preciso mostrar o que a gente fez em 12 anos de governo neste País. E a gente sabe de cor e salteado o que foi feito nesse País. E (temos que) conversar. Quando ganhei as eleições, essas pessoas (que protestam) tinham 6, 8 anos, e agora estão com 18, 20 anos. Eles não têm como saber se a gente não contar”, afirmou Lula.

O ex-presidente, aliás, demonstrou mais uma vez o quão “messiânico” é perante a militância do PT, que o ovacionava a cada momento em que era citado. A aura em torno de Lula permanece intacta, o que é reconhecido pelo partido, que conta com ele para reverter as sucessivas quedas de popularidade e aumento de rejeição de Dilma pelo Brasil – com maior ênfase nas regiões Sudeste e Sul.


‘Festa da paz’

Lula, Dilma e Rui Falcão não se esqueceram em seus discursos de criticar a oposição. Cada um o fez a sua maneira, mas os três tentaram dar um tom de paz à campanha, ante o “ódio” que estaria sendo disseminado pelos rivais tucanos. Dilma foi mais amena no discurso.


Já a exaltação, ora exagerada, de Lula e Falcão pode talvez ter o efeito contrário ao discurso pacificador ensaiado previamente.

Responsável pela abertura da convenção, por volta das 11h45 (com quase duas horas de atraso), Falcão proferiu os ataques fundamentalmente “aos direitistas de sempre” – o que atenderia aos que apoiam a candidatura de Aécio Neves (PSDB) – e aos “esquerdistas de ocasião, mas que representam o interesse neoliberal” – nesse caso, capitaneados por Eduardo Campos (PSB). Sobrou ainda tempo para reforçar o projeto petista de reforma política e de regulamentação da mídia – o que rendeu gritos de “o povo não é bobo, abaixo à Rede Globo”.

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‘Gincana de classes’

Dilma repetiu o discurso ecoado nos últimos dias de que o PT é que representa a classe pobre e trabalhadora e que, para seguir mudando, é o partido mais preparado.


Lula também apostou no embate “elite versus povo”, sobretudo no ataque ao PSDB.

“Na cabeça deles [tucanos], o Brasil tinha que ser governado pra 1/3 da população. Precisamos melhorar a vida de todas as classes. Somos aqueles que querem que os empresários ganhem dinheiro, que a classe média seja menos penalizada com impostos, mas queremos dizer que o nosso governo é também para as pessoas mais pobres. Elas serão tratadas como a gente trata um filho da gente. É pra essa gente que precisamos governar”, completou Lula, alfinetando ainda que, “se ganhar mais quatro anos, o PT pode pedir mais quatro em 2018”, deixando no ar que ele pode ser o nome a voltar ao Palácio do Planalto.

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Desafios para a reeleição

Com mais paz do que ódio, com mais ênfase nos avanços do que nos erros, o PT se coloca como único capaz de dialogar com os setores que tanto clamam por mudanças no Brasil.

A dúvida central é como a campanha oficial, que começa no próximo mês, vai “vender esse peixe”, sobretudo pela frustração causada pelas várias reuniões de Dilma com movimentos sociais no ano passado.

Esses encontros não resultaram em nenhuma mudança estrutural – mais notadamente, uma reforma política, torpedeada pela oposição e setores da base governista em 2013, e que agora volta com força no discurso dos petistas, caso sigam no comando do País.

Para Dilma ter êxito, é certo que terá de usar e abusar da aprovação de Lula mais uma vez, porém também precisará ir além do discurso requentado já conhecido – problema este que também acomete os candidatos da oposição.

“O que vai ganhar as eleições é a adrenalina que formos capazes de demonstrar cada vez que formos pra rua”, profetizou Lula.