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14/06/2014 19:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Eleições 2014: Aécio e PSDB apelam à memória da população por mudança, mas tática é arriscada

"Indescritível". Foi assim que o senador Aécio Neves (PSDB) falou sobre a sensação de ser indicado como o candidato tucano à Presidência da República. É verdade que o evento, realizado na manhã deste sábado (14) em São Paulo, foi protocolar, afinal, já se sabia quem seria o tucano na corrida pelo Palácio do Planalto. Entretanto, a estratégia que a presidente Dilma Rousseff verá no lado do PSDB quando a campanha começar oficialmente, no próximo mês, vai apelar para a memória da população. Pelo menos é com isso que os tucanos contam.

“O legado deixado pelo presidente Fernando Henrique (Cardoso) está se esgotando”, disse Aécio, durante o seu discurso de 25 minutos (ouça a íntegra aqui) no palco montado no ExpoCenter Norte, na zona oeste da capital paulista. Todos os principais caciques do PSDB se fizeram presentes no encontro perante cerca de 5 mil pessoas - de acordo com o partido. Entre muitas palavras de ataque aos 12 anos de gestão petista, as lideranças procuraram enfatizar a palavra “mudança”, e como Aécio seria a peça ideal para responder a esse anseio vindo das ruas.

Não entrando no mérito do quão demagogo ou previsível o discurso tucano possa parecer - oficialmente, dos 451 delegados, 447 votaram por Aécio, três em branco um nulo -, o fato é que as diretrizes expressos na convenção tenta deixar claro que aquilo que o PT gosta de enfatizar como avanços, sobretudo para as camadas mais pobres da população brasileira, só foi possível graças aos oito anos de gestão FHC, entre 1994 e 2002. Plano Real e a estabilidade econômica e o advento dos genéricos foram amplamente destacados por Aécio.

“Retrocedemos. Perdemos o rumo. Problemas antigos, como a inflação, estão de volta (...). É um governo que mais promete do que entrega”, pontuou mais de uma vez o senador mineiro, que seguiu a toada que já adiantou nos programas de TV do PSDB, atacando prioritariamente a Petrobras – algo que deve perdurar até 5 de outubro, quando acontece a votação do primeiro turno. Até lá, o eleitor também vai se familiarizar com o jingle criado pela equipe do publicitário Paulo Vasconcelos ("Aé, aé, aé, Aécio a gente quer você!").

Talvez a questão central, com base no raciocínio tucano, diz respeito a se a população terá a devida lembrança viva na memória, lembrando-se somente dos momentos positivos da gestão FHC, ou se o que o passado que se apresentará será o dos problemas, aqueles que fizeram com que o então candidato petista Luiz Inácio Lula da Silva tenha tido o dobro de votos de José Serra (46% a 23%) no primeiro turno, enquanto a vantagem foi larga também no segundo turno (61% a 38%). Relembrando as urnas, o PSDB espera que o cansaço de 12 anos de PT no comando do Brasil possam representar aquilo que fez FHC não conseguir fazer o sucessor - o cansaço da gestão tucana em 2002.

A importância da memória evocada pelos tucanos não para nos feitos positivos do governo Fernando Henrique. O próprio FHC argumentou à grande plateia de militantes que Aécio possui “o DNA de Tancredo Neves”, o primeiro presidente civil eleito após 21 anos de ditadura militar, em 1985 – mas que morreu antes de assumir o cargo. Houve espaço até para um poema de Ferreira Gullar (Palavra Gasta), que enfatizou o tamanho da perda que Tancredo representou ao País.

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A conexão com o avô que costurou a aliança que permitiu a sua vitória nas eleições indiretas não chegou a ser tão surpreendente quanto aos brados que colocavam o ex-governador de Minas Gerais no mesmo patamar de outro ex-presidente, Juscelino Kubitschek. A presença da filha, Maristela Kubitschek, serviu para dar um caráter oficial a tal perspectiva.

Mais do que mudança, a união

Nome mais ovacionado durante a convenção do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se colocou como aquele a chancelar a união dos tucanos em torno de Aécio. Engana-se quem vê com obviedade o movimento, lembrando as desavenças internas de algumas correntes durante as últimas três derrotas para os petistas nas eleições presidenciais.

E não foi só isso.

“Estou emocionado. Ao entrar na nona década de existência, há momentos em que a gente sente que a história está próxima e dará um passo, que a hora chegou. É verdade, as ruas deram o recado. O nosso partido, o PSDB, tem no nosso programa que é preciso ouvir a voz surda das ruas. Não são mais surdas, elas cansaram de empulhação, de corrupção, de mentiras, e de distanciamento com o povo. Nós temos que ouvir o povo, estar mais próximos do povo, é isso que é necessário ao Brasil. E o governo atual, arrogante, ficou distante. Ele está acusando sempre os outros, é a imprensa, é a oposição, a culpa sempre é dos outros. Ninguém aguenta mais, chega, chega”, discursou FHC.

Outros tucanos importantes pediram a palavra. José Serra, tido como desafeto de Aécio dentro da sigla, saudou o candidato do partido à Presidência e, ao contrário de outras lideranças tucanas, não lançou mão de uma dose de ufanismo para glorificar o “bom gestor” e “a liderança jovem” que a candidatura de Aécio representa, na visão do PSDB. Ele procurou usar o tempo em que falou para criticar amplamente os últimos três governos petistas, mais notadamente Dilma, chamada de “talentosa”, mas não de uma forma boa.

“Vamos convir que, para se chegar a isso tudo, uma soma tão ruim de resultados, é preciso que haja uma incompetência muito grande, metódica, como a do governo Dilma, com muito talento”, opinou, para delírio da militância presente.

O tom do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, não foi tão ácido – até porque, segundo as pesquisas, ele lidera as intenções de voto no Estado com folga. Ele preferiu chamar Aécio de “o homem do trabalho” e “o mais mineiro de todos os paulistas”.

Ah, e ainda sobrou tempo para atacar "Cuba, Venezuela e ditaduras africanas", como apontaram tucanos como destinos de investimentos que estão fazendo falta no Brasil.

Saldo final

As pesquisas dos últimos 15 dias justificam o otimismo apresentado pelos tucanos em sua convenção partidária, sobretudo pela oscilação ou queda de Dilma, conforme o instituto em questão, ou a falta de crescimento de Eduardo Campos (PSB), principal rival de Aécio em uma “disputa interna” na oposição quanto a quem pode ir ao segundo turno com a atual presidente. Mas para seguir crescendo – o que não significa somente contar com os descontentes com o governo petista – eles precisarão de algo mais.

A militância já comprou a ideia, o que dá para notar pela empolgação até mesmo na saída da convenção, conforme acompanhou (dentro do possível) a reportagem do Brasil Post.

Por enquanto, os tucanos contam com a memória popular. O risco é que as lembranças mais vívidas na mente não sejam exatamente aquelas mais positivas.