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Crise da água: em uma Cantareira em queda, ANA e Sabesp não se entendem. Prepare a canequinha

06/06/2014 14:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Luís Moura/Estadão Conteúdo

De um lado, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) indicava que havia 24,4% nesta quinta-feira (5). De outro, a Agência Nacional das Águas (ANA) já apontava um valor de 20,6% há três dias. Dados conflitantes têm sido uma constante desde o início da discussão em torno dos índices do Sistema Cantareira, principal no fornecimento de água para a população da Grande São Paulo e da capital. No final, a incerteza repousa nas torneiras da população.

Na última quarta-feira (4), o presidente da ANA, Vicente Andreu Guillo, informou que “o reservatório interligado dos rios Jaguari e Jacareí chegou ao seu zero operacional”. Para quem não sabe, esse é o maior reservatório do Cantareira. A notícia, proferida durante audiência pública realizada pela Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado, em Brasília, significa dizer que a captação de água ali agora se resume ao uso do volume morto, ou reserva técnica, como prefere chamar o governo paulista.

Guillo ainda criticou a postura da Sabesp sobre o tema, tratando o volume morto como uma água parada, sem uso. “Aqueles alertas, que são sempre positivos, de que esse reservatório tinha uma água parada, que o volume morto era uma água estagnada, sem circulação, não corresponde à realidade desse reservatório”, explicou, em declarações reproduzidas pela Agência Senado. Ele ainda comentou que as autoridades paulistas, ao que parece, estão confiando em demasia nas chuvas, após o inverno. E não há garantia disso.

“Na nossa visão, essa proposta (manter o fornecimento normal) precisa ser ponderada pela vazão afluente, ou seja, se chegar menos água, qual a consequência de se manter essa vazão de 31, essa retirada de 21 m3/seg para São Paulo? Vai ter como consequência, e isso está no próprio estudo da Sabesp, que a água existente no reservatório mais o volume morto de 180 m3 não será suficiente”, analisou.

A atual crise repousa, segundo o dirigente da ANA, em três pontos: a seca anormal; a ausência de uma regulação mais efetiva, com critérios objetivos; e obras não executadas, como a construção de duas barragens em Campinas que não foram feitas porque apenas gerariam segurança hídrica. Se as duas primeiras não dependem do governo e da Sabesp, a última com certeza são atribuições do Estado.

A agência é a mesma que, na renovação da outorga de uso do Sistema Cantareira, em 2004, já alertava para a necessidade de diminuição do uso dessas águas no abastecimento da Grande São Paulo, enfatizando a necessidade da busca por novas fontes de fornecimento e melhor aproveitamento dos recursos hídricos. Apesar da Sabesp dizer que SP está vivendo a “sua pior seca desde 1930”, quando começou a medição das chuvas, o consumo de água do sistema não diminuiu, mas sim aumentou.

Racionamento e a canequinha

A linha das desinformações também passa pelo temor de racionamento e falta de água. Desde o início da crise da água, tratada com mais seriedade pelo governo estadual a partir de março – mas já diagnosticada pela Agência Nacional de Águas (ANA) no fim do ano passado –, as autoridades do setor no Estado repetiram, em maior ou menor grau, variações das duas frases. Na semana passada, as alegações ganharam “novos argumentos”, ambos no mínimo curiosos.

A autoria dessas “novidades” foi o diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato Yoshimoto. Em audiência pública promovida pela Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente da Câmara Municipal, ele negou a existência de qualquer tipo de racionamento – ou “rodízio”, como gosta de chamar o governador Geraldo Alckmin – na capital.

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“Durante a noite temos realmente uma redução, porque o consumo é menor, mas isso não deixa faltar água. Se isso está acontecendo em algumas regiões, são problemas pontuais que a Sabesp procura resolver o mais rápido possível”, disse Massato, em declarações reproduzidas pelo site da Casa. Entretanto, os relatos vindos da população, notadamente daqueles que vivem nas zonas norte e oeste, são bem diferentes, como bem noticiaram o jornal Folha de S. Paulo e a UOL.

Os “problemas pontuais” apontados pelo diretor da Sabesp, e que parecem ser parte do cotidiano diário de uma parcela dos paulistanos, só não foram piores do que a sugestão, dada por ele mesmo de que “se houver alguma crise maior, nós vamos distribuir água com canequinha”. Afinal, a culpa veio dos céus (viu só, São Pedro?).

“As chuvas foram abaixo da média histórica neste ano e já estamos trabalhando, pensando a médio e longo prazo, para resolver esse problema, fazendo a reversão do rio São Lourenço, a integração dos reservatórios Atibainha e Jaguari e também utilizando água da represa Billings para fazer essa compensação”, concluiu Massato.

Ao contrário do que diz o diretor da Sabesp, a situação está longe de ser tranquila. A própria companhia prevê que a reserva atual do manancial, já incluindo os 182,5 bilhões de litros do "volume morto" que começaram a ser retirados há 19 dias, pode acabar em 27 de outubro.

Especialistas pedem seriedade

Especialistas não esconderam a sua preocupação na última terça-feira, (3), quando a ONG Rede Nossa São Paulo promoveu um debate, intitulado “Crise da água: desafios e soluções”. Foi neste evento que o superintendente de Planejamento de Recursos Hídricos da ANA, Sérgio Ayrimoraes, apresentou dados do dia 2 de junho, nos quais se via que o Cantareira estava naquele momento, com base nos registros da agência, com 20,6% da capacidade.

Ao final do debate, foi divulgado um manifesto, que diz que a “reação do governo estadual tem sido desproporcional à gravidade do problema” e pede “mudanças profundas na abordagem da questão da água, independentemente do calendário eleitoral”. “As respostas do governo estadual e da Sabesp não têm sido suficientes para esclarecer a população paulistana e demonstrar que as autoridades estão conscientes da gravidade da situação e adotando as medidas que o momento exige, por mais impopulares que possam ser”, completou o texto.

Como se vê, com tantas idas e vindas de números e uma perspectiva de que a água não virá do céu, é bom o paulistano ir preparando a sua canequinha.