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30/05/2014 08:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:42 -02

Greves: força de movimentos com lideranças alternativas revela crise de sindicatos no Brasil

Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo

O País está sendo tomado por uma série de greves que param serviços públicos básicos em diversas cidades brasileiras.

Nesta semana, rodoviários pararam o transporte coletivo no Rio de Janeiro (RJ), São Luís (MA), Salvador (BA) e Florianópolis (SC).

Os paulistanos enfrentaram dias de caos no metrô por causa da greve de ônibus na semana passada.

Desde o início do ano, um sem número de movimentos vem cruzando os braços: policiais militares em Salvador e Recife (PE), agentes penitenciários em São Paulo (SP), entre tantas categorias.

Os trabalhadores aproveitam o clima de #NãoVaiTerCopa para pressionar o governo em ano eleitoral.

Existe um senso de oportunidade, com governantes tentando reeleição e jornalistas estrangeiros no País, para que os movimentos sociais levantem suas bandeiras.

Por outro lado, especialistas ouvidos pelo Brasil Post analisam a força de dissidências dentro dos sindicatos, que estão sendo determinantes em algumas paralisações.

A primeira grande greve neste ano foi a dos garis no Rio de Janeiro, em pleno carnaval. Como o lixo acumulou nas ruas da capital fluminense e a sujeira chamava a atenção dos turistas, a categoria mostrou o impacto de sua ação.

A paralisação não foi aprovada pelo Sindicato dos Empregados de Empresas de Asseio e Conservação do Município, que em tese representa os garis do Rio de Janeiro. Por isso, o prefeito Eduardo Paes (PMDB-RJ) não reconhecia a legitimidade do movimento e disse que se tratava de um “motim”.

Entretanto, a greve terminou após a prefeitura ceder à pressão do “motim” organizado e elevar em 37% o salário dos garis – aumento bem superior aos 9% negociados entre a empresa de limpeza e o sindicato.

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O advogado Victor Russomano Jr, especialista em direito do trabalho, avalia que existe uma crise de representatividade da maioria dos órgãos de representação coletiva no Brasil. “A maioria dos sindicatos não têm atuação prática alguma; só inócua e às vezes fictícia”, critica. “O número excessivo de entidades pulveriza e enfraquece a associação dos trabalhadores”, explica o também professor da Universidade de Brasília (UnB).

O problema, segundo ele, começa na cobrança do imposto sindical. Muitos trabalhadores veem a contribuição sindical como um desestímulo, pois ao se associar, eles terão que pagar mais uma taxa mensal. “A sindicalização diminui e, assim, liderenças espontâneas nos grupos de trabalho emergem”, descreve.

Greve dos rodoviários

Em São Paulo, a greve convocada pelos rodoviários que afetou milhares de pessoas partiu justamente dessas lideranças alternativas. Nesta semana, o Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região considerou abusiva a paralisação, que foi feita sem a comunicação prévia à população, como a lei exige.

“A Justiça está fazendo justiça, mas para nós [sindicalizados], é injustiça”, lamenta o presidente do Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Urbano da capital, Valdevan Noventa. “A greve não foi chamada pelo sindicato nem foi aprovada pela categoria; foi adesão espontânea dos trabalhadores; por isso, podemos recorrer da decisão”, disse ao Brasil Post.

O professor Marco Aurélio Santana, diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que essas dissidências dentro dos sindicatos não são um fenômeno recente. “Há um enrijecimento de certas máquinas sindicais e seus representados têm feito o que sempre fizeram: passar por cima das deliberações que não emanam diretamente da base da categoria e dos anseios da maioria”, destaca o especialista em sociologia do trabalho.

Com as decisões em xeque, os sindicatos se deparam com a necessidade de se aperfeiçoar como instrumentos de organização dos trabalhadores dentro da democracia. “Será interessante acompanhar esses movimentos e ver se eles se desdobram em processos e práticas que façam revitalizar e democratizar o movimento sindical brasileiro”, analisa Santana.

O professor da UnB Victor Russomano Jr vai além. “Para uma efetiva representação dos trabalhadores pelas entidades sindicais, é necessária uma reformulação da organização da estrutura sindical”, conclui.