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29/05/2014 08:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Dá para torcer pela Seleção e protestar contra a Copa do Mundo? Michael Sandel, professor de filosofia política, responde SIM!

Reuters

“Sim, é possível fazer ambas as coisas – torcer e protestar – com integridade.” A afirmação foi feita por Michael Sandel, professor de filosofia política da Universidade Harvard, nos EUA, em resposta a uma provocação do Brasil Post durante entrevista nesta quarta-feira (28) em São Paulo.

Sandel ficou mundialmente famoso depois que seu curso Justiça se tornou o primeiro disponibilizado online pela Universidade Harvard e, desde então, já foi assistido por centenas de milhares de pessoas em todo o mundo. Também é possível assistir a aulas com legendas em português no YouTube.

O professor, que visita o Brasil nesta semana pela terceira vez, se disse fascinado pela onda de protestos no Brasil no último ano. “Acompanhei as demonstrações massivas do ano passado. Claro que a violência deve ser condenada, mas milhões de pessoas demonstraram pacificamente sobre uma questão de prioridade: os recursos gastos em estádios de futebol poderiam ter sido investidos em escolas, hospitais, transporte público e infra-estrutura? Eu admiro esse ativismo cívico. E é justamente esse tipo de debate que busco encorajar durante minhas aulas e palestras pelo mundo”, disse.


Protestos embolam a Copa no meio de campo

Nesta quarta-feira, o Brasil Post lançou a seguinte pergunta a nossos leitores: Torcer pela seleção e protestar contra a Copa cabe no mesmo coração? Para opinar, entre neste post ou publique-a nas redes sociais com as hashtags #torcer #protestar #nossa copa.

E, aproveitando a passagem de Sandel por São Paulo, onde veio participar do evento Fronteiras do Pensamento, decidimos perguntar qual a opinião dele.

“Não cabe a mim, como estrangeiro, palpitar sobre questões brasileiras, mas é claro que, para um país mundialmente famoso por sua paixão e seu sucesso no futebol, ser o anfitrião da Copa é algo muito poderoso. Ver milhares de pessoas nesse mesmo país aproveitarem esse momento para debater questões tão importantes é realmente inspirador.”

Sandel lembrou que, cerca de seis meses antes das manifestações de junho de 2013, ele deu aulas em Fortaleza, São Paulo e Brasília e, na ocasião, lançou uma provocação aos alunos. “Como costumo fazer nos EUA tendo como exemplo o Michael Jordan, perguntei se eles achavam justo que Neymar recebesse 20 milhões por ano enquanto um professor ganha apenas 19 mil, mil vezes menos? Voltei pra casa e, seis meses depois, quando começaram os protestos, vi uma foto de uma pessoa segurando um cartaz onde estava escrito ‘Um professor de escola vale mais do que Neymar’. Uau, pensei, alguém no Brasil teve a mesma ideia que eu!”, contou Sandel, entre risos.

“Como estudioso de política e ética, acho fascinante o que está acontecendo neste país. Não há nada de inconsistente em torcer pela seleção apaixonadamente e ao mesmo tempo protestar. Por que não fazer as duas coisas? É uma atitude extremamente transformadora e cheia de significados.”

Sandel é autor do livro Justiça: O que é Fazer a Coisa Certa?, que relaciona grandes temas da filosofia política às principais questões da atualidade, e O que o Dinheiro Não Compra, no qual explora os dilemas morais da sociedade capitalista e as escolhas que as pessoas fazem no dia a dia. Ambos foram publicados em português pela editora Civilização Brasileira.

E você? Concorda que a seleção é uma coisa, o evento e seus desdobramentos, outra? Dê sua opinião.

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