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22/05/2014 17:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Fotógrafos Ativistas registram a 'Copa do Povo', ocupação do MTST próximo à Arena Corinthians

Flavio Freire

Ao romper da madrugada de 3 de maio, um grupo de cerca de mil famílias, organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), ocupou um terreno abandonado há 20 anos, que fica a quatro quilômetros da Arena Corinthians, um dos palcos da Copa do Mundo de 2014. Estabelecida em uma área de 150 mil metros quadrados, na zona leste de São Paulo, a ocupação foi batizada de Copa do Povo.

“Enquanto a Copa da Fifa ocorrerá com investimentos de cerca de R$ 30 bilhões, sem atender o povo, que sequer poderá pagar ingresso para assistir aos jogos, o povo organiza sua resposta”, afirma o manifesto do movimento, completando que “se teve dinheiro pra Copa da Fifa, tem que ter pra Copa do Povo!”

As famílias que participaram da ocupação, provenientes de comunidades de Itaquera como Jardim Helian, Gleba do Pêssego e Jardim Cibele, bem como de outros bairros da zona leste, viviam em condições precárias e vislumbraram na Copa do Povo uma oportunidade de lutar por melhores condições de vida - atualmente cerca de quatro mil famílias vivem no local.

Poucos instantes após o início da ocupação, integrantes da rede Fotógrafos Ativistas passaram a registrar o dia a dia da Copa do Povo. Antes de completar uma semana, os ocupantes decidiram, inspirados na convocação de Felipão para a Copa do Mundo, montar a seleção da Copa do Povo.

Durante uma semana, o ativista Flavio Freire percorreu a ocupação, fotografando os moradores. Suas histórias, seus anseios e sonhos também foram registrados. Depois, valendo-se da ironia, os Fotógrafos Ativistas organizaram um “álbum de figurinhas”, utilizando o mesmo layout da publicação oficial da competição da Fifa.

Abaixo, você vê o resultado, com um pequeno perfil de cada um dos integrantes da seleção da Copa do Povo, e uma entrevista com Flavio Freire, fotógrafo ativista, autor dos registros.

Copa do Povo

Brasil Post: Me fale um pouco sobre os Fotógrafos Ativistas, a linha de atuação e como eles se colocam como atores sociais no atual contexto sociopolítico brasileiro.

Flávio Freire: O Fotógrafos Ativistas foi criado como uma forma de proteção aos amigos fotógrafos, para coletar material de diversos lugares e fotógrafos diferentes. A principio, era apenas um coletivo novo, que apareceu em meados de setembro. Como ele foi crescendo muito rápido, passou de coletivo para rede. Uma rede de fotógrafos com um ideal de mostrar o realmente acontece nas ruas.

O Fotógrafos Ativistas tenta, ao máximo, ter uma postura onde não defende nenhum lado político. O que tentamos mostrar é o que acontece.

Vocês cobriram outras ocupações antes da Copa do Povo?

Antes da Copa do Povo, já cobrimos outras ocupações sim. Uma delas foi a Nova Palestina, outra na Alesp...

E na Copa do Povo, vocês estão acompanhando desde o início da ocupação? Você, particularmente, ficou um bom tempo lá, conhecendo de perto a realidade daquelas pessoas, né?

Acompanhei eles desde o dia em que chegaram lá (na madrugada do dia 2 para o dia 3 de maio). Eles chegaram por volta da 0h30, e eu cheguei um pouco depois. Acompanhei eles durante uma semana. Depois tive que viajar, vim ao sertão do Ceará fazer outro trabalho. Mas, sempre tem outros parceiros do FA que estão por lá.

E como surgiu a ideia de fazer as "figurinhas" da Copa do Povo?

Um dos integrantes do MTST me ligou no dia em que o técnico da seleção brasileira iria anunciar a sua escalação. Ele pediu pra que eu fosse lá e retratasse algumas pessoas para lançar a seleção da Copa do Povo. Mais tarde, junto com meu amigo fotógrafo/designer Vinicius Monteiro, pensamos em usar o layout das figurinhas do álbum da Panini. E foi assim que surgiram as figurinhas. E como todas as fotos publicadas no FA são acompanhadas de textos, no momento em que estava fotografando, já colhi alguns dados das pessoas retratadas para que nossa equipe de escritores pudessem criar os textos.

E você avalia que uma ocupação próxima ao Itaquerão, com o nome Copa do Povo, pode mostrar ao mundo, às vésperas da Copa, que o povo, de fato, não vai participar da festa? Serve, também, para ampliar o debate sobre a relação entre especulação imobiliária, falta de moradia e ocupações em São Paulo?

Eu acredito que, independente da proximidade, o povo está indignado. Claro que a ocupação foi uma forma estratégica de chamar mais a atenção do mundo para a realidade que vivemos. Se (o povo) vai participar ou não (da Copa), eu já não posso dizer isso. Mas o que eles querem, de fato, é mostrar a realidade que o nosso governo e a Fifa tentam maquiar para que o mundo não "veja".

Você acredita que a Copa não deveria ser realizada no Brasil ou que ela não deveria ser feita nesses moldes, com a Fifa passando por cima de tudo e de todos, com a conivência do governo federal?

A crítica que todos estão fazendo não é ao esporte, é como esse evento será feito, aos gastos exorbitantes realizados. Estão querendo esconder a realidade. Mas acredito que se fosse (realizada) em outro lugar, talvez fosse da mesma forma. Mas não tão escrachado como está sendo aqui.

Fale um pouco sobre as pessoas que você fotografou na ocupação. O que você pôde aprender com eles? O que eles podem ensinar aos brasileiros?

São pessoas muito simples, e todos têm em comum o fato de não ter condições financeiras para pagar aluguéis muito caros por quartos minúsculos. Mas o que é mais impressionante é a esperança e força de vontade que eles têm.

Quantos menos (posses) as pessoas têm, mais elas podem ensinar e mais simpáticas são. Apesar de toda dificuldade, sempre recebem as visitas com um grande sorriso no rosto.

Você irá assistir à Copa? Vai torcer pela Seleção Brasileira?

A última Copa que assisti foi a de 1998. Foi quando percebi que aquilo não era esporte, era dinheiro envolvido. Não gosto de futebol, não vou torcer para ninguém. Torço para que um dia essa nossa situação mude, isso sim. E para isso estarei sempre com minha câmera apontada e meu caderno/caneta pronto pra fazer o que sei.