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19/05/2014 15:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

"Welcome to New York", filme inspirado no ex-diretor do FMI, tem sua première mundial em Cannes

Tim P. Whitby/Getty Images

Gérard Depardieu não subiu os célebres degraus do palácio dos festivais, e o filme teve que contentar-se com um cinema de bairro. Mesmo assim, a estreia mundial de “Welcome to New York”, no sábado, 17 de maio, agitou Cannes inteira.

Foi em pleno centro da cidade, atrás da barreira dos palácios e das lojas de luxo da Croisette, que os produtores de Wild Bunch apresentaram à imprensa e ao público, na noite de sábado, o filme de Abel Ferrara inspirado no escândalo que há três anos quase exatos derrubou o diretor do Fundo Monetário Internacional e imprimiu uma virada nas sondagens para a eleição presidencial francesa de 2012.

Uma versão ficcional da história

Dominique Strauss-Kahn (DSK) ainda não se manifestou sobre o filme, o que não significa que seus advogados não estejam em alerta. Strauss-Kahn se apressou a acusar de difamação o escritor francês Régis Jauffret, autor de "La Ballade de Rikers Island", e a editora Du Seuil, por um romance que destaca o dirigente de uma instituição internacional que é acusado de estupro. Apesar de corresponder de perto ao caso DSK, que não foi levado adiante pela justiça dos Estados Unidos, o filme avisa no início que trata-se de uma versão ficcional.

“É uma produção americana que cai sob a jurisdição da lei americana. Nossos advogados viram o filme e o roteiro”, disse à imprensa o co-produtor Vincent Maraval na saída de uma sessão reservada do filme. Ele diz que até agora não houve “nenhuma reação” de DSK ou de seus advogados: “Eles não assistiram ao filme. Com certeza devem estar fazendo isso agora, por €7”, alusão ao preço do filme em vídeo sob pedido (VOD), pelo qual está disponível na internet desde a noite de sábado.

“É uma aventura singular porque foi inspirada numa notícia que todo o mundo leu”, explicou Gérard Depardieu. “Não procurei mostrar meu personagem como estando errado ou certo”, acrescentou o ator, dizendo que consegue “compreender as pulsões” que motivam o personagem. “Sinto pena das pessoas que são assim.” Quanto às relações entre DSK e sua mulher, Anne Sinclair, “existe um mistério nesse casal. O que eles podiam dizer um ao outro? Fomos obrigados a improvisar.”

"Tragédia shakespeariana"

E o filme? Se tivesse sido selecionado para o Festival de Cannes, não teria recebido a Palma de Ouro. De acordo com Depardieu, os organizadores do Festival “pediram alguns cortes”, que Abel Ferrara recusou-se a fazer. “Poder, dinheiro, sexo, e há toda uma tragédia shakespeariana”, disse Depardieu, que aparece no filme com o físico especialmente pesado.

A queda do poderoso, doente com suas pulsões sexuais (o filme não evita nem as cenas de sexo pago, nem as tentativas brutais de levar uma mulher para sua cama), é mostrada; o caso, propriamente dito, e suas sequelas judiciais são pouco desenvolvidos. Abel Ferrara se interessa sobretudo pelas conversas do casal Devereaux (Depardieu e Jacqueline Bisset) no famoso apartamento de Nova York onde ele foi obrigado a ficar – aqueles diálogos que todo o mundo imaginou, mas nunca pôde ouvir.

Simone Devereaux, que fica ao lado de seu marido ao longo de tudo e contra todos, acaba sendo acusada por ele de ser uma mulher de poder – era ela quem queria ser presidente --, é ela a mulher rica, aquela que ajuda o Estado de Israel e que herdou uma fortuna acumulada durante a guerra, como se isso a tornasse responsável por tudo. O jornal Le Monde já acusou o filme de “trazer à tona o fantasma do antissemitismo” na descrição que faz de Simone.

O diretor, Abel Ferrara, rejeitou as acusações de antissemitismo em entrevista que deu à AFP no domingo. “Não sou antissemita. Espero que não. Fui criado por mulheres judias”, ele disse.

Espectadores divididos

“Achei a atuação de Depardieu extraordinária, e o filme, muito interessante”, opinou o cineasta francês Claude Lelouch na saída da projeção. “Abel Ferrara fez seu melhor filme”, considerou o ator americano Mickey Rourke. “E, sobretudo, há a coragem de Gérard como ator. Acho que ele tem mais coragem que qualquer outro ator vivo hoje.”

As vozes de anônimos na saída da sessão foram mais divididas: “é para lá de ruim, é constrangedor, é de um mau gosto tremendo, é quase uma putaria como filme”, disse uma pessoa. “O estupro é cruel, eles não escondem, mostram claramente o que é, e francamente, é difícil de ver”, comentou uma espectadora.

Os veículos de imprensa que já viram o longa-metragem se mostram igualmente divididos. O Hollywood Reporter o considerou “escandaloso, hilário e às vezes entediante”, enquanto o Variety saudou “o talento visceral de Depardieu, cuja performance audaz é incontestavelmente o ponto forte do filme.” Já a revista Le Nouvel Observateur opinou que “o espectador não consegue acreditar realmente no que vê” e chegou a qualificar o filme de “péssimo”. “Tudo convida o espectador a se desligar: o roteiro conhecido demais, filmado como documentário, o ritmo lento, os diálogos com frequência grotescos.”