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13/05/2014 10:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Trabalhadores aproveitam clima do #NãoVaiTerCopa para pressionar governo em ano eleitoral

MARCELO D. SANTS/FRAME/ESTADÃO CONTEÚDO

Na semana seguinte ao barulho causado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-teto (MTST), mais categorias decidiram protestar ou entrar em greve para pressionar os governos federal e estaduais. Motoristas e cobradores convocaram uma paralisação de 48 horas no Rio de Janeiro, que começou hoje (13) e já prejudica a população. Funcionários da Companhia Paulista de Trens Metropolitano (CPTM), em São Paulo, também ameaçam cruzar os braços na quinta-feira (15) – o que pode comprometer o transporte de mais de dois milhões de passageiros.

Movimentos sociais e trabalhadores vão aproveitar o 15 de maio, chamado de "dia internacional de lutas contra a Copa", com atos organizados pelo Comitê Popular da Copa. O objetivo não é necessariamente protestar contra o Mundial, mas sim aproveitar o clima de #NãoVaiTerCopa para defender sua agenda.

"Para os movimentos, não há momento melhor que este para protestar", analisa o cientista político Carlos Melo, do Insper, de São Paulo. "É menos a Copa do Mundo e mais a oportunidade de fazer pressão no governo, em um momento especialmente delicado, em que ele está frágil e exposto por causa da Copa", explica.

Foi apostando nessa conjuntura que o MTST invadiu diversas empreiteiras na semana passada – todas com contratos de obras nos estádios do Mundial. "Não estamos contra a Copa; o que nós queremos é que o dinheiro cortado durante a Copa para a construção de moradias seja retomado imediatamente", esclarece Robson Gonçalves, representante do movimento.

Adotando a estratégia de desmobilização acertada pelo Palácio do Planalto, a presidente Dilma Rousseff recebeu líderes dos sem-teto logo após as ocupações. Ela se comprometeu a estudar a reserva de uma área próxima à Arena Corinthians (Itaquerão) para moradia popular.

"[A atitude de Dilma] Foi muito importante, e estamos satisfeitos com o alcance grande que nós tivemos, pela pressão que nós colocamos", comemora Robson, do MTST. "Mostramos a realidade com os protestos; agora, a Dilma está enxergando a necessidade do povo – o que está prejudicando a imagem do Brasil lá fora", disse ao Brasil Post.

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Dilma entre a cruz e a espada

A justificativa do militante sem-teto indica que os movimentos sociais estão cientes do impacto e repercussão de seus atos. Como a imprensa internacional já está aqui no Brasil, usar a Copa como mote assegura a amplitude do movimento.

"A reação de Dilma foi muito rápida e um pouco impensada", critica o cientista político David Fleischer, professor da Universidade de Brasília (UnB). "Agora tudo quanto é movimento vai tentar a mesma coisa; para tentar extrair alguma promessa, vai ter mais protesto desse tipo", acredita.

A capacidade de diálogo com os movimentos sociais é uma bandeira histórica do PT. Entretanto, os fatores Copa e eleições deixam a presidente entre a cruz e a espada. "Dilma corre o risco de ser chamada de frouxa, por ceder a todos os manifestantes, ou antidemocrática, por não ouvi-los", considera o cientista político Carlos Melo.

"Lá atrás o presidente Lula não percebeu que trazer a Copa do Mundo para o Brasil, considerando todos os problemas e obras que não saem como o planejado, em um ano de eleição, deixa o governo muito exposto", conclui o professor.

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