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12/05/2014 15:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Crowdsourcing pode ser alternativa para recuperar espaços nas cidades

StuSeeger/Flickr
Downtown Kansas City, Missouri taken from the Sheraton Hotel at Crown Center.

(originalmente publicado no Arch Daily)

“Pop-Up”, “DIY”, “Kickstarter”, “LQC”. Os urbanismos do povo vêm ficando cheios de apelidos hoje em dia. O que todos esses tipos de urbanismos faça-você-mesmo têm em comum é um espírito de "vai dar certo", uma mentalidade de "hacker": as pessoas estão recuperando suas cidades, sem qualquer ajuda de "especialistas".

Infelizmente, é claro, essa mentalidade cria um antagonismo anti-establishment (muitas vezes antiarquiteto) que tornaria impossível qualquer mudança em grande escala. Sim, o movimento DIY ("do it yourself", ou faça você mesmo), facilitado pelo uso da tecnologia, é excelente para fazer as pessoas se envolverem, para incentivar ideias importantes e inovadoras -- em curto prazo.

Como indicou recentemente Alexandra Lange em seu post "Contra o urbanismo de internet" (“Against Kickstarter Urbanism”), a tecnologia não é uma "varinha mágica", e as iniciativas de crowdsourcing (financiamento por um grupo de voluntários) muitas vezes são ineficientes no trabalho cotidiano e minucioso de um projeto urbano em grande escala e longo prazo.

Mas, apesar de essa tecnologia certamente ter suas limitações, seu potencial de facilitar a conexão e a comunicação é incomparável. O que é vital, porém, é que a tecnologia realce, e não substitua, nossos relacionamentos físicos. Em vez de usar plataformas online como fóruns de discussão ou puramente conceituais, elas devem se tornar ferramentas de transparência e formação de confiança, mediadores de uma conversa que investe e conecta todas as partes em campo.

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Imagem de Constitución depois do terremoto de 2010. Imagem via Brickstarter.

Da catástrofe ao coprojeto

Permitam-me adotar uma visão um tanto incomum aqui. Para compreender o que a tecnologia pode fazer por nós, vamos primeiro dar uma olhada nos incríveis feitos que se podem alcançar sem ela.

27 de fevereiro de 2010. 3h34. Um terremoto de magnitude 8.8, o terceiro maior da história, atinge a cidade de Concepción, no Chile, empurrando a cidade 3 metros para oeste. Provocando um tsunâmi, o terremoto deixa devastação em seu rastro.

Rodrigo Araya, da Tironi Asociados, enfrenta um enorme desafio: apresentar o planejamento de uma cidade que sofreu danos semelhantes, Constitución, em 90 dias. Como ele faz isso? "Como explica Dan Hill, da Sitra, em um post em Brickstarter: "Levando todo o processo do plano mestre à participação dos cidadãos, com o coprojeto como princípio organizador".

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Um dos projetos resultantes para Constitución, este para um teatro.

O que isso significa exatamente? Envolve algo conhecido como "fóruns híbridos". Em uma pequena estrutura no centro da cidade, membros da indústria, do governo e da comunidade se encontram em uma série de debates intensos para expressar o que eles precisam/querem de sua futura cidade. Enquanto isso, os arquitetos Alejandro Gutierrez, da Arup, e Alejandro Aravena, da Elemental, estiveram no local adaptando suas propostas de acordo, basicamente moldando os projetos em tempo real.

De maneira vital, os cidadãos sempre tiveram a prioridade nesse processo, deslocando os políticos e empresários (os financiadores) de seu posto tradicional de controle. O resultado desse processo transparente não foi apenas um projeto, mas a confiança da comunidade no projeto.

Na Constitución devastada pelo terremoto, não havia possibilidade de internet; assim, qualquer coisa, de canais de rádio a megafones sobre carros em movimento, foi usada para divulgar as notícias. Mas os princípios de Araya -- o fórum focal, o cronograma estrito, o feedback, o ritmo constante das reuniões -- tudo parecia perfeitamente adequado a uma implementação virtual.

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"Parquinho" em San Francisco, uma iniciativa de hacking que foi adotada pelas autoridades locais. Foto via Atlantic Cities. © Matarozzi Pelsinger Builders & Wells Campbell.

Problemas de Primeiro Mundo

É claro que a crise extrema de Constitución, o grito de apelo para esse enorme projeto urbanístico, geralmente não é a condição inicial das renovações urbanas na maioria dos países desenvolvidos. Como nota Dan Hill, "nossas crises são geralmente do tipo lenta e sinuosa (mudança climática, envelhecimento da população, problemas sociais emergentes), mais que o foco atraente do desastre natural. Então como criamos a sensação de urgência?"

É uma boa pergunta, mas acho que há uma melhor: como criamos a sensação de capacidade?

Desde cidadãos que pintam faixas de ciclovias até reivindicar cruzamentos como praças, o urbanismo DIY nos mostra que os membros da comunidade se envolvem quando sentem que está em seu alcance fazer uma diferença. No contexto de um ambiente rico em internet, a tecnologia poderia ser a ferramenta para envolver os cidadãos em um diálogo sobre sua comunidade, cultivar a confiança com arquitetos/construtoras e legitimar o papel dos cidadãos ao abordar esses complexos dilemas urbanos.

Mas como? Como seriam essas tecnologias? Sites como Neighborland, ChangebyUs e SpaceHive tentam fornecer aos cidadãos recursos para se conectar ao financiamento, líderes comunitários e/ou instituições sem fins lucrativos que podem ajudá-los a realizar suas ideias. Mas onde estão os arquitetos nesse diálogo? Onde está o design?

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Um projeto para desenvolver um cais em Londres, um dos mais ambiciosos projetos urbanísticos de internet (kickstarter) em SpaceHive

Um lugar para a multidão

É aqui que entra o "crowdsourced placemaking". Apesar do nome, não se trata de um urbanismo kickstarter, onde o cidadão assume um conceito vago (realidade incerta). O crowdsourced placemaking funciona firmemente para criar realidades.

Brandon Palanker, vice-presidente da Renaissance Downtowns, uma imobiliária que usa crowdsourced placemaking para redesenhar a cidade de Bristol, em Connecticut, me disse que seu processo tem tudo a ver com usar a mídia social e a tecnologia para trazer membros da comunidade para a conversa de planejamento -- desde o início.

Eles criaram um site de mídia social, Bristol Rising, onde os membros da comunidade podem sugerir e votar ("curtir") em certas ideias que gostariam de ver implantadas em sua comunidade (uma Alameda de Restaurantes, um Café Literário, um Jardim da Cerveja, etc.). A Renaissance então analisa os itens mais populares e, mediante reuniões mensais, envolve a comunidade em um diálogo aberto e profundo sobre o que é factível.

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O projeto da Piazza de Bristol, em torno do qual se reuniu a comunidade de Bristol, Connecticut, graças ao site BristolRising!

Como explicou Palanker, o desejo de uma praça tornou-se tão intenso em Bristol que a comunidade, compreendendo a necessidade de compensações, chegou a compromissos sobre outras restrições, antes tabus (como a criação de um hotel de maior intensidade, com cinco andares). E isso nos subúrbios, onde "densidade" poderia ser um palavrão.

O "X" do processo é o feedback que gera confiança e as reuniões (e campanhas) físicas que complementam a troca de ideias virtual. Embora use tecnologia para acessar seu público (para "utilizar a maioria silenciosa", como diz Palanker), o processo é notavelmente semelhante ao princípio de participação cidadã de Araya: criar um fórum para compartilhar ideias e receber feedback instantâneo, estabelecer um ritmo constante de reuniões mensais e definir um cronograma para pôr as ideias em ação.

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Desenho de Peter Zumthor, vencedor do Prêmio Pritzker, para um portão em Isny, recusado em votação, devido em parte à visão da obra pelo público como "ceroulas de vidro"

Desenhando ceroulas de vidro

A força do crowdsourced placemaking é que ele incentiva um diálogo transparente que vence a desconexão entre a comunidade -- insatisfeita e cética -- e os planejadores, desenvolvedores e arquitetos que com frequência a ignoram.

Para finalizar, eu gostaria de contar uma história que Jody Brown contou outro dia em seu blog, Coffee With the Architect: "Em 5 de fevereiro de 2012, a cidade de Isny votou contra o projeto de um novo portão para a cidade. O portão foi desenhado pelo arquiteto Peter Zumthor, ganhador do prêmio Pritzker. Seria uma torre de 250 mil pedras de vidro, marcando a entrada da cidade. Mas depois de um longo e polêmico processo 72% dos cidadãos afinal votarão "não". Então o portão não será construído. A cidade encontrou um apelido para o projeto: "ceroulas de vidro".

A história salienta as dificuldades que os arquitetos têm para comunicar o objetivo de seus projetos às comunidades. A tecnologia está oferecendo um meio para abrir esse diálogo, mediar e traduzir e, mais importante, fornecer a plataforma para criar relacionamentos físicos -- garantindo que estamos construindo pontes reais e reconstruindo cidades, e não apenas desenhando ceroulas de vidro.