MUNDO
11/05/2014 12:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Como as #hashtags se tornaram o punho erguido da pontuação

Jeff Hutchens via Getty Images
WASHINGTON, D.C. - APRIL 10: Thousands march on the National Mall in Washington, D.C. to heighten the public awareness of immigration issues facing the United States of America on April 10, 2006 in Washington, D.C.. (Photo by Jeff Hutchens/Getty Images)

As hashtags surgiram como uma maneira de fazer buscas por tuítes sobre temas específicos (#socialmedia, ou #mídiasocial), converteram-se em ferramenta para acrescentar nuances (#ohyeah, ou #éissoaí) e agora estão surgindo em lugares onde aparentemente não têm função prática nenhuma: em camisetas, capas de livros, bolsas e placas. Não podemos clicar sobre objetos físicos. Mas colocamos hashtags sobre eles, mesmo assim.

Foi o que fez a primeira-dama dos EUA, Michelle Obama, esta semana quando tuitou uma foto dela mesma segurando uma folha de papel com as palavras escritas à mão “#Bring Back Our Girls” (Traga Nossas Meninas de Volta). Referência às mais de 200 meninas sequestradas por um grupo extremista na Nigéria, a frase poderia ter sido simplesmente “Bring Back Our Girls”. Em vez disso, foi iniciada com o símbolo #.

O fato de a primeira-dama americana ter escolhido esse prefixo mostra que a hashtag já assumiu mais uma função desde que estreou, sete anos atrás: é um comando. As quatro linhas perpendiculares viraram uma recomendação resumida: “compartilhe isto, agora”.

As hashtags transformam uma frase num slogan. Pense nelas como o punho erguido da pontuação.

No Brasil, um exemplo dessa nova tendência foi o protesto online intitulado #EuNãoMereçoSerEstuprada, organizado pela jornalista Nana Queiroz, no final de março. Veja ao final deste post galeria de fotos postadas por mulheres de todo o país em apoio à campanha.

Outro exemplo recente foi a campanha #SomosTodosMacacos, iniciada pelo jogador Neymar em apoio a seu colega Daniel Alves.

“A hashtag diz: ‘Isto é algo para o qual você precisa voltar sua atenção agora, neste momento’, e ‘isto é algo com que você pode se envolver e pelo qual pode mostrar seu apoio’”, comentou Ruth Page, professora da Universidade de Leicester que pesquisa mídias sociais e linguagem. “É como um chamado à ação.”

A ascensão da hashtag como comando coincide com o avanço da cerquilha (o símbolo #) para fora dos textos digitados, invadindo imagens, vídeos e até objetos, onde não cumpre finalidade técnica nenhuma. (Clique sobre a palavra digitada #cappuccino” em quase qualquer site de mídia social, e você verá todos os outros posts que incluem o termo. Clique numa imagem contendo “#cappuccino” e não acontece nada.)

Vale notar que “#BringBackOurGirls” não apenas foi digitado em mais de 2 milhões de tuítes como foi estampado sobre milhares de fotos compartilhadas no Instagram. Sophia Amoruso, fundadora do NastyGal, escolheu uma hashtag para ser o título de seu livro (em papel), “#GIRLBOSS”. E mais de metade dos anunciantes no Super Bowl, nos EUA, deste ano incluíram hashtags em seus comerciais –uma dica não muito sutil de que devemos não apenas ver os slogans deles, mas repeti-los.

Essas hashtags fotografadas e filmadas mostram que as pessoas hoje aderem ao # como não apenas como uma maneira de organizar informações, mas, muito mais, como instrução para divulgá-las.

A hashtag converteu-se numa indicação subconsciente de “repetir”, graças em parte à sua associação inicial com a política e os “trending topics” (os assuntos mais comentados).

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Mais uma plaquinha se levanta

“Pode haver dois antecedentes históricos que convergem na sloganização das hashtags: por um lado, temos o uso das hashtags para falar de causas políticas no Twitter, e por outro, há a utilização de hashtags para levar temas a ser mais comentados”, disse Susan Herring, professora de ciência da informação e linguística na Universidade Indiana, aludindo à lista de “trending topics” do Twitter, que desde o início se baseou extensamente em termos assinalados com hashtags.

Embora o primeiro hashtag no Twitter tenha sido usado em conexão com um encontro de especialistas em tecnologia (#barcamp), Herring observou que as hashtags ganharam reconhecimento amplo durante as manifestações por mais democracia no Irã em 2009, quando termos como “#IranElection” e “Neda” proliferaram no Twitter.

E, desde o início, o “hash”, ou #, foi associado a um esforço para divulgar alguma coisa: “Supunha-se que as hashtags eram clicáveis, logo, difusíveis, e a razão pela qual vocês os usava, pelo menos parte do tempo, era que queria criar um ‘trending topic’”, ela pontuou.

O achatamento do texto que ocorre online também ajudou a dar lugar à função “sloganizadora” da hashtag. Numa era anterior, reconhecíamos um slogan pelo modo como era escrito sobre cartazes, buttons ou outdoors. Havia pontos de exclamação. Letras garrafais e coloridas. Imagens do Tio Sam apontando. Hoje, temos 140 caracteres que não mudam de aparência, não importa o que escrevemos. “Quando apenas digitamos no Twitter ou no Instagram, não temos tanta variação tipográfica disponível”, disse Herring.

Tuitar “We can do it” (nós podemos fazer!) não transmite a mesma força do pôster original de Rosie the Riveter, da Segunda Guerra Mundial. A frase pode ser entendia como referência a conseguir mais seguidores, como palavra de ordem dos torcedores de um time de futebol ou como campanha de levantamento de fundos –ou como todas essas alternativas, segundo alguns tuítes recentes. Mas com “#WeCanDoIt”, temos as sementes de um movimento.

Ou talvez você só tenha um slogan que chama a atenção. É possível que hashtags como "#BringBackOurGirls" ou "#IAmBradleyManning" (Eu sou Bradley Manning) resultem em mudanças concretas de políticas. Mas parece que, na maioria dos casos, as hashtags são mais eficazes para difundir hashtags, e não tanto para desencadear ações offline. Quem sabe você possa iniciar uma hashtag que resolva esse problema.