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10/05/2014 14:28 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:29 -02

Entrevista exclusiva: piloto do Solar Impulse revela plano de dar volta ao mundo em 2015

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André Borschberg chama logo a atenção pela altura. Vestindo jaqueta de piloto, tem um sorriso largo e exibe no olhar a empolgação por um projeto que vem direcionando a atenção de pessoas no mundo todo para o céu. Não é para menos. O Solar Impulse é o primeiro avião a realizar a proeza de levantar voo e plainar entre as nuvens utilizando somente a energia do sol. Até agora, o período mais longo que ficou no ar foi 26 horas. Mas com o perdão do trocadilho, como para estes visionários o céu não é o limite, em 2015 o Solar Impulse pretende dar a volta ao mundo.

O sonho de fazer decolar essa obra da engenharia e tecnologia de ponta nasceu há quase dez anos. O Solar Impulse carrega em suas impressionantes asas, com envergadura de 63 metros, nada menos que onze mil células solares. À frente do projeto estão os pilotos suíços Bertrand Piccard e André Borschberg, que em terra comandam uma equipe de mais de 70 profissionais e no ar se revezam no cockpit do Solar Impulse. Em 2013, em mais um dos voos de teste, o avião cruzou com sucesso os Estados Unidos de costa a costa.

Borschberg esteve no Brasil e durante uma entrevista exclusiva ao Planeta Sustentável falou sobre os maiores desafios para o voo ao redor do planeta, o enorme potencial da energia solar e a principal mensagem levantada pelo projeto: o uso das tecnologias limpas.

Qual a diferença entre o novo avião e o protótipo que fez os voos experimentais nos últimos anos?

Ambos são protótipos, mas podemos dizer que o primeiro foi um laboratório voador desenvolvido para testar tecnologias e buscar soluções. O segundo, e atual, foi concebido para viajar. Foi desenvolvido para longos voos sobre os oceanos. Isso significa que tem que ser mais confiável. Se fizermos uma viagem de 12 horas entre Zurique e São Paulo e houver um pequeno problema, seremos capazes de consertá-lo, mas no voo sobre os oceanos serão 120 horas, por isso temos que ser mais cuidadosos. Temos um avião que é sustentável em termos de energia – podemos voar muitos dias, muitas noites e muitas semanas sem combustível. É o único no mundo com resistência ilimitada, o que o torna tão especial. Mas precisamos ter pilotos sustentáveis, pois atualmente eles são o elo mais fraco do projeto. Por isso criamos um cockpit maior, que permite ao piloto voar muitos dias sozinho. E por último, o que esse novo avião tem de diferente é que incorporamos as tecnologias desenvolvidas com os parceiros. Criamos materiais melhores, mais leves, eficientes. Tudo o que aprendemos com o primeiro protótipo está no segundo.

O Solar Impulse permitiu o desenvolvimento de novas tecnologias e materiais?

O encapsulamento das células solares está sendo feito com um novo tipo de material porque o primeiro avião foi desenvolvido para voar com tempo bom e o atual pode voar entre nuvens e com chuva, se necessário. Mas quando temos eletricidade e água existe o perigo de haver curto-circuito e as células solares estão ligadas umas às outras com cabos para transferir energia. Todas estas conexões precisam estar protegidas contra umidade e água e por isso foi desenvolvido esse encapsulamento específico.

O senhor acredita que estas tecnologias podem ser utilizadas em outras áreas?

Esta é a nossa intenção! Nossos parceiros não estão desenvolvendo novas tecnologias somente para a aviação, mas para que possam ser usadas como solução para as mais diversas indústrias. Os clientes dos patrocinadores do Solar Impulse trabalham com construção civil, fabricação de veículos, transportes. Todo o material que estamos utilizando estará no mercado e o principal objetivo é o investimento em eficiência e na redução do consumo de matéria-prima.

Algumas destas tecnologias já estão em uso?

A tecnologia de isolamento de baterias que usamos, por exemplo, já está sendo empregada em carros e refrigeradores para reduzir o consumo de energia. Também foi criado aqui no Brasil um tecido que absorve a radiação infravermelha que o homem naturalmente libera e a devolve para a pele, ativando e tornando mais eficiente a microcirculação de energia e diminuindo a fadiga dos músculos. E ainda há a tecnologia impressionante das impressões em 3D. Podemos criar peças que seriam impossíveis de se montar sem a impressão 3D. E usamos somente a quantidade de matéria-prima necessária para criá-las, não há sobra de material. Hoje podemos ir muito além do que estávamos acostumados, portanto temos que ter uma nova mentalidade também.

Energia limpa e uso de recuros alternativos são a verdadeira bandeira do Solar Impulse?

Sim. Nosso objetivo não é afirmar que podemos voar com energia solar em cinco anos, isso levará muito mais tempo. A aviação é responsável por apenas 3% das emissões de gás do planeta, os outros 97% são liberados pela construção, carros, eletrodomésticos. De maneira geral, podemos fazer mais reduzindo a emissão de gases em outros setores do que pela aviação. Eu diria então que deveríamos manter o uso de combustíveis fósseis em aplicações onde a substituição seria muito difícil e complicada, como a aviação, e substituir onde é mais fácil.

Quais setores seriam estes?

Aquecimento, por exemplo. É uma estupidez usarmos combustível para aquecer casas. Existem diversas maneiras para termos calor sem emissão de CO2. Basta fazer um bom isolamento, usar vidro apropriado. Temos tecnologias que conseguem mudar a transparência do vidro, por exemplo, bloqueando o calor. Cerca de 95% do calor é mantido externamente, então não é necessário ar-condicionado internamente e durante o inverno é possível inverter o sistema. Há muitas coisas que podemos fazer e esta é a mensagem do Solar Impulse: de um lado está a necessidade e de outro tecnologias limpas que estão crescendo e precisam crescer mais.

Parece que os brasileiros ficarão muito decepcionados porque o voo do Solar Impulse ao redor do planeta não inclui o Hemisfério Sul...

Também fiquei muito decepcionado (diz sorrindo)! A rota pelo Hemisfério Norte foi escolhida porque se você olha para o mapa do globo, no norte há mais terra versus oceano do que no sul. O norte é mais seguro. E se você pensar sobre o objetivo do projeto, que é comunicar e mostrar o que pode ser feito em termos de tecnologias limpas, o melhor será se o Solar Impulse voar sobre a maior quantidade de países para que possamos passar nossa mensagem. Nosso sonho é trazer o avião ao Brasil em 2016, um ano após ter voado ao redor do planeta.

Quais foram os meses e a rota escolhidos para o voo de 2015?

Escolhemos os meses de primavera pelo clima. Preferimos voar sobre a Índia, por exemplo, bem cedo na estação, lá por abril ou maio. Estamos definindo a rota nesse momento, mas não decolaremos necessariamente da Europa, talvez seja melhor começar o voo pelo Oriente Médio. Poderemos escolher países para aterrisar e não cidades, para manter uma flexibilidade na rota devido ao tempo e não sermos obrigados a aterrisar em alguma cidade pré-definida, o que às vezes pode ser mais difícil.

Com o novo avião os períodos de voo serão mais longos?

Nossa intenção é permanecer no ar durante cinco dias e cinco noites sem parar. A duração total da viagem será de três meses, com paradas em certos países. O tempo total de voo será de 20 a 25 dias.

Será possível para o piloto aguentar este tempo todo sozinho?

Enquanto não for feito, não saberemos (sorri)! Já realizei um teste de três dias e três noites no simulador, fazendo o mesmo que faria no cockpit, checando a maneira de descansar, me manter alerta, comer. Mas para ser possível precisamos de um tipo de autopiloto para estabilizar o avião enquanto o piloto descansa, o que não havia no primeiro protótipo.

Quais serão os principais desafios para a realização do voo?

Do ponto de vista operacional, serão os longos voos sobre os oceanos. Como vamos voar durante cinco dias ininterruptamente, muitas vezes é difícil prever o tempo com esta antecedência. Então quando deixarmos a Ásia para os Estados Unidos, não teremos muita certeza sobre que condições climáticas encontraremos no outro lado. Esse é um risco e para o qual estamos nos preparando. Para o resto conseguimos treinar e simular bem.

O avião necessita de dias ensolarados?

Precisamos de manhãs ensolaradas. Porque depois do período noturno as baterias estão praticamente descarregadas, então precisamos de sol novamente durante a manhã para recarregá-las. Por isso temos um grande time em terra – incluindo meteorologistas, para ter certeza que o avião irá voar em lugares ensolarados. Mas podemos prever isso, se precisarmos voltar, voltaremos. Combustível não é problema, somos completamente independentes dele.

O senhor acredita que a energia solar ainda é subestimada?

Certamente nos dias atuais. É extremamente fácil de ser usada, confiável, uma solução de longa duração – as primeiras células que utilizamos no avião ainda estão funcionando. Há muito uso para a energia solar, mas o mais importante é pensarmos na redução de uso que ela pode propiciar. O potencial é enorme. Em vez de produzirmos mais energia, devemos utilizar a tecnologia para reduzir uso e custo. Temos muitas situações em que poderíamos utilizar essa solução, mas as pessoas têm uma visão de curto prazo. Tecnologia requer investimento e retorno vem com o tempo. O sistema econômico atual não nos permite pensar a longo prazo.

E depois de 2015, qual é o próximo projeto?

É uma pergunta difícil. Este projeto é parte da minha vida. Temos um ótimo grupo de pessoas trabalhando conosco. Queremos poder influenciar e inspirar outros com o Solar Impulse ... Talvez através de projetos educacionais, de empreendedorismo, pioneirismo, inovação. Poderíamos até construir um terceiro protótipo para tentar um voo sem paradas.

Qual é a sua recompensa ao ver a fascinação das pessoas com o avião?

Muitas vezes fico com lágrimas nos olhos porque é muito especial. Em uma das apresentações havia uma menina que fez uma pergunta, depois pediu para fazer mais uma e ao final nos disse “eu amo o avião de vocês!”. Foi inacreditável!