COMPORTAMENTO
07/05/2014 10:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:29 -02

Por que você se sente mal por ser solteira

Getty

Este suposto elogio feito com frequência a mulheres jovens e bem-sucedidas deu lugar a um nova pergunta: Se uma mulher é fantástica e não há nenhum parceiro romântico presente para apreciá-la, ela pode ter uma vida feliz e realizada, ainda assim?

Cada vez mais, a “família” mais comum é formada por uma pessoa que vive sozinha. Então por que razão as solteiras muitas vezes se sentem desajustadas?*

Podemos estar vivendo na era pós- “Sex And The City”, mas não estamos tão distantes das convenções de “A Família Dó-Ré-Mi” quanto gostaríamos de imaginar (e vale notar que mesmo a cínica Miranda, em SATC, acabou tendo seu final de conto de fadas). Nos últimos 15 anos vimos heroínas da cultura pop como Mindy Lahiri, Meredith Grey e Ally McBeal deixarem suas realizações profissionais no segundo plano quando as coisas dão errado no departamento romântico. Não é difícil perceber onde esses roteiristas de televisão estão indo colher sua inspiração: as mulheres muitas vezes se sentem mal por serem ou estarem solteiras, não importa quão satisfatórias possam estar as outras partes de suas vidas.

Esse tédio romântico pode ter algumas razões:

Você pode estar dando importância demais a um só tipo de relacionamento...

Infelizmente, é muito fácil não dar o devido valor a nossos relacionamentos platônicos quando não temos um relacionamento romântico (supondo que queiramos um relacionamento romântico, é claro). Mas isso não quer dizer que não recebamos os benefícios psicológicos de todo esse amor platônico em nossas vidas. Na realidade, quando o assunto é felicidade, parece que o amor é mesmo cego.

O Harvard Grant Study, um dos mais abrangentes estudos longitudinais já feitos sobre a felicidade, acompanhou 268 estudantes do sexo masculino de Harvard ao longo de 75 anos para verificar o que lhes deu alegria na vida. Depois de quase uma vida de monitoramento, os pesquisadores descobriram que a realização pessoal se deve quase inteiramente a uma coisa: os relacionamentos. Mas não necessariamente os relacionamentos românticos.

“A alegria está nos vínculos”, disse ao Huffington Post no ano passado George Vaillant, o psiquiatra de Harvard que comandou o estudo entre 1972 e 2004. “Em quanto mais áreas da vida você puder criar vínculos, melhor.”

70s

Getty Images/Raydene Salinas

Ótima notícia, certo? Lamentavelmente, esse conceito não é do conhecimento comum, e as mulheres solteiras muitas vezes sentem que seus muitos relacionamentos afetivos, porém platônicos, não são levados em conta. A jornalista freelancer Ann Friedman, que redige uma coluna sobre gênero na revista New York e já escreveu na Marie Claire sobre sua aventura como “solteira convicta”, disse ao HuffPost Women que sua atitude em relação a parceiros – rejeitando o conceito do casamento em favor de uma abordagem mais “laissez-faire” (parte da expressão "laissez faire, laissez aller, laissez passer", que significa literalmente "deixai fazer, deixai ir, deixai passar") à vida e aos relacionamentos” – já lhe valeu reações do tipo “você desistiu da ideia do amor”, ou “uau, você parece tão ajustada sob outros aspectos”, ou, pior ainda, “você ficou tão deprimida com o estado dos homens que desistiu completamente”.

“Eu disse ‘sinceramente, estou mais que feliz com minha vida do jeito como está no momento’”, disse a jornalista. Obviamente a visão dela não do tipo que vai agradar a todas, mas nunca é má ideia parar para apreciar os relacionamentos maravilhosos que temos na vida, quer eles caibam ou não numa caixinha romântica convencional. Pergunte à Dra. Bella DePaulo, autora de Singled Out e professora visitante permanente de psicologia na Universidade da Califórnia em Santa Barbara.

“Quando as pessoas dizem ‘se você está solteira, está sozinha’, às vezes deixam de levar em conta a possibilidade de que, sendo solteira, você tenha amizades às quais dedica muita atenção”, disse a psicóloga ao HuffPost Women. “Na realidade, você pode ter mais apoio do que uma mulher que é casada e só presta atenção ao marido, deixando todos seus amigos em segundo plano.”

...ou pode não estar priorizando o que você realmente quer.

Permitir que aquilo que outros desejam para você anuvie sua visão também pode fazê-la mergulhar naquela espiral sombria de pensamentos do tipo “vou morrer solitária”. Pesquisas globais constataram que as normas e expectativas culturais são o que determina nossa autoestima, mesmo que afirmemos estar alheias à pressão. No caso das mulheres solteiras, essa mentalidade dual pode se complicar. A verdade (óbvia) é que o casamento – ou mesmo uma vida a dois de longo prazo – não garante a felicidade de todo o mundo.

“Acho que vivemos numa sociedade que enaltece o casamento”, disse DePaulo. “As pessoas que querem permanecer solteiras e estão muito bem assim quase não têm voz.”

Essa “matrimania” – termo cunhado pela psicóloga para descrever o endeusamento exagerado das cerimônias de casamento e da união conjugal – pode ser especialmente problemática quando se incluem todas as complexidades dos relacionamentos românticos que podem anteceder o casamento. O “abismo da coabitação”, termo cunhado por pesquisadores em 2011, descreve o fenômeno de casais casados que são mais felizes que casais não casados que vivem juntos. Por que? Eis o que disseram os pesquisadores:

“Podemos especular que, em tais sociedades, as pessoas tendem a achar que uma mulher coabita com seu parceiro sem serem casados não porque ela não queira casar-se com ele, mas porque ele não quer casar-se com ela. As dúvidas da sociedade em relação ao engajamento do parceiro dela na união faz com que uma mulher que vive com o parceiro sem ser casada seja objeto de pena e desprezo, algo que pode ser prejudicial à autoestima e ao bem-estar psicológico dela, independentemente da percepção que ela mesma tenha do engajamento de seu parceiro.”

Ai, ai, ai! Friedman conta que já testemunhou essa atitude de ligeiro desprezo em relação às mulheres solteiras ou não casadas.

“Coisas muito bacanas me aconteceram durante o período da vida em que a maioria das pessoas me tratava com pena”, ela falou, referindo-se à sua fase de solteira. Foi uma época em que sua vida profissional decolou, ela tirou as férias de seus sonhos e sua vida social ficou mais dinâmica que nunca. “Mas sempre havia no ar uma pergunta não verbalizada, você não tem vontade de conhecer alguém?

90s 2

Getty Images/Raydene Salinas

O fato de ser tratada com esse tipo de pena e pouco-caso levou a redatora freelancer Sara Eckel a escrever uma coluna sobre Amor Moderno para o New York Times em 2011 (e depois um livro fantástico sobre o assunto), explicando às mulheres algo que ela diz que já sabemos, basicamente: que não há nada para “consertar”. As mulheres solteiras estão muito bem desse jeito.

“Percebi que eu estava ficando com raiva de ser tratada dessa maneira”, ela disse ao HuffPost Women. “Porque eu tinha a convicção muito forte de que sou tão ótima quanto as pessoas casadas.”

E todas as manchetes que induzem o medo não ajudam.

DePaulo disse: “É incrível como, ano após ano, as pessoas continuam a afirmar que, se você se casar, ficará mais feliz”.

Ela explicou que muitos desses estudos acadêmicos que resultam em manchetes espalhafatosas, que metem medo em solteiras, não seguiram procedimentos corretos. O problema principal é que, nos estudos clínicos, as condições precisam ser determinadas de modo aleatório. Isso não é possível quando se pesquisam pessoas solteiras versus pessoas casadas. Outra tática “metodologicamente vergonhosa” empregada nesses estudos, ela explicou, é que muitos apenas comparam pessoas casadas atualmente com pessoas solteiras, deixando totalmente de levar em conta as pessoas que foram casadas, odiaram o casamento e se divorciaram.

E há as figuras de destaque na mídia, como a “Princeton Mom”, que criticam mulheres solteiras por não priorizar o namoro e a busca de um marido.

O resultado disse é que muitas mulheres ficam desanimadas com o discurso público sobre a solteirice e o casamento, além do frenesi do tipo “Arca de Noé” que ele visa promover.

“As pessoas me perguntavam ‘você anda saindo com homens?’, Friedman comentou. “Para mim, era como ‘você costuma caminhar? Você anda escrevendo?’. Afinal, sair com homens é uma atividade? Para mim, sair com um monte de pessoas aleatórias não me parece um uso inteligente a fazer do meu tempo. Isso fez muito sentido para mim, mas entendo que não faça muito sentido para todo o mundo.”

Moral da história?

Esteja você ou não romanticamente envolvida com alguém, você ainda é “maravilhosa” e mais do que capaz de ter uma vida feliz e realizada. Mas saiba, também, que sentir momentos de insegurança e dúvida a seu próprio respeito é perfeitamente normal. Talvez você nunca queira se casar, nem mesmo ser monógama, ou você possa estar aberta à possibilidade de conhecer alguém sem estar ativamente procurando um relacionamento.

Apenas metade dos adultos dos EUA estavam casados em 2011 (um mínimo recorde, segundo o Pew Research Center), e o casamento vem acontecendo cada vez mais tarde na vida (a idade média do primeiro casamento das mulheres chegou a 27 anos em 2011, um máximo recorde). Com isso, a discussão sobre a solteirice está mudando. Como poderia deixar de mudar, considerando a população sempre crescente de mulheres que vivem felizes sem um parceiro?

now

Getty Images/AP/Raydene Salinas

“Essa ‘matrimania’ toda está acontecendo não por termos tanta certeza quanto ao lugar do casamento em nossas vidas”, disse DePaulo. “É por estarmos tão inseguras.”

É claro que minimizar o papel especial que o casamento exerce na vida de muitas pessoas também não é a resposta. O importante é reconhecer que algumas pessoas encontram a felicidade com um parceiro mais tarde na vida ou em um tipo de união menos convencional.

De acordo com estatísticas de 2010 do Centro Pew, 84% das pessoas não casadas citam o “amor” como a razão de alguém se casar, e não “assumir um compromisso para toda a vida”, “companheirismo”, “ter filhos” ou “estabilidade financeira”. Talvez as mulheres estejam começando a sentir que têm o poder de se casarem apenas quando e como elas quiserem, e não em função da percepção que têm de normas sociais. Pense em Hannah Horvath, de “Girls”, ou Liz Lemon, de “30 Rock”, e você verá que a cultura pop já está ajudando a redefinir o sentido da solteirice na sociedade contemporânea.

Mas essa consciência toda nem sempre vai acalmar todos seus medos e inseguranças. Tudo bem. Como Eckel aponta em seu livro, “se você fica triste de vez em quando, não é por estar solteira – é por estar viva”.

*Obviamente, nem todas as mulheres solteiras estão insatisfeitas com seu status de relacionamento. Esta afirmação se aplica apenas às que estão.