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02/05/2014 09:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:29 -02

Médicos brasileiros protestam contra novas críticas de Dilma à categoria

Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo

Os médicos brasileiros rebatem mais uma vez a munição usada pela presidente Dilma Rousseff contra eles na tentativa de levantar a bola do programa Mais Médicos, o principal ativo eleitoral dela em outubro. Nesta semana, Dilma fez críticas em duas ocasiões diferentes à categoria. Na segunda-feira, disse que "o relato" recebido por ela é o de que os cubanos "são mais atenciosos que os brasileiros". No pronunciamento do Dia do Trabalhador, atribuiu indiretamente mortes, dor e filas nos hospitais à falta de médicos em vagas de locais "que não interessam e não são preenchidas por brasileiros".

"Você conhece bem o sofrimento de chegar no posto de saúde e não encontrar médico. Ou ter que viajar centenas de quilômetros em busca de socorro. O Brasil tem feito e precisa fazer mais investimentos em hospitais e em equipamentos. Porém, a falta de médicos é a queixa mais forte da população pobre. Muita morte pode ser evitada; muita dor, diminuída; muita fila, reduzida nos hospitais – apenas com a presença atenta e dedicada de um médico em um posto de saúde", discursou Dilma pré-candidata à reeleição.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou uma nota ontem (1º) demonstrando "tristeza" e "indignação" com os comentários de Dilma. Sobre a comparação entre cubanos e brasileiros, a entidade disse que se trata de "mais uma agressão direta e gratuita aos 400 mil profissionais" do País.

O que o conselho considera um novo ataque à categoria adiciona mais fermento no bolo oposicionista ao PT. Como o Brasil Post adiantou em fevereiro, os médicos brasileiros se uniram em campanha contra a reeleição de Dilma Rousseff. Em rede em grupos de WhatsApp e em comunidades no Facebook, eles preparam uma das principais frentes contrárias à Dilma em outubro.

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Falta de médicos X Falta de estrutura e má gestão

"Apesar da ausência de estímulos do Estado e das parcas condições de trabalho, [os médicos brasileiros] agem como heróis em postos de saúde, em ambulatórios e nos hospitais e pronto-socorros, constantemente abarrotados por cidadãos com dificuldade de acesso à assistência", diz a nota do CFM.

O conselho contesta o foco de Dilma na falta de médicos e ressalta a gravidade da gestão do Sistema Único de Saúde (SUS). Médicos enfrentam a falta de vagas de UTI, de leitos em hospitais, constantes defeitos em aparelhos para tirar um simples raio-X, além da falta de vários materias básicos nas unidades de saúde.

Atualmente, não existe uma carreira de Estado para os médicos. Assim, não há incentivos para transferências para localidades mais remotas, municípios do interior ou comunidades mais pobres.

É esse cenário, mais amplo e complexo, que justifica a suposta "falta de interesse" dos médicos de irem para os municípios mais pobres.

"Talvez o desespero de alguns poucos médicos diante de uma demanda crescente, da ausência de suporte e da incompetência dos gestores, cause a falsa impressão de insensibilidade", diz a nota do CFM. "São profissionais que foram brutalizados pelo Estado; desmotivados e sem esperança, tentam seguir adiante sem as mínimas condições de exercer uma medicina de qualidade e nem de estimular uma boa relação médico-paciente."