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Danilo Gentili, bananas e macacos: Justiça não vê crime em piada do humorista com empresário negro

30/04/2014 12:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:29 -02
Montagem/AgNews/Thinkstock

Na semana em que imagens com bananas eclodem nas redes sociais, como parte da controversa campanha #somostodosmacacos, uma decisão judicial que trata do uso das palavras bananas e macaco acirra o debate sobre o racismo cordial no Brasil.

O humorista Danilo Gentili foi absolvido do crime de injúria racial por ter oferecido bananas a um internauta negro em outubro de 2012. O comediante fez a ~brincadeira~ pelo Twitter com o empresário Thiago Luís Ribeiro. "Quantas bananas vc quer para deixar essa história pra lá?", tuitou Gentili, referindo-se às constantes críticas de Thiago às atitudes "extremamente racistas" do apresentador na TV.

Em sentença despachada na segunda-feira (28), a 10ª Vara Criminal da Justiça de São Paulo entendeu que Gentili não insultou Thiago porque não houve "propósito e intenção de ofender a vítima".

Para o juiz Marcelo Matias Pereira, Danilo Gentili utilizava o Twitter para divulgar suas piadas e tinha o intituito de fazer rir, mesmo com abordagens mais agressivas. Apesar de concordar que a "brincadeira tenha sido infeliz e inoportuna", o magistrado acredita que houve um contexto para a referência de Gentili às bananas.

"A piada, ao que tudo indica, se deu pelo fato de a vítima ter se intitulado como 'King Kong' – gorila – e não pela cor da mesma", explicou o juiz na sentença. "Se a afirmação do réu tivesse sido feita em uma situação completamente descontextualizada, fora do ambiente em que costuma criar piadas com os 'posts' de seus seguidores, poderíamos pensar naquele intuito de ofender", completou.

Na época do tweet, Thiago Ribeiro estava indignado com o tratamento dispensado por Gentili aos negros. Por isso, disse que ele, "macaco ou king kong", levaria o humorista ao banco dos réus. Esse é o contexto que, na opinião da Justiça, justifica a piada sobre as "bananas".

O Ministério Público de São Paulo tinha um entendimento diferente sobre as declarações de Thiago que incitaram a resposta de Gentili. "A vítima, ao atribuir a si as expressões 'king kong' ou 'macaco' utilizava de sarcasmo, uma ironia amarga", sustentou o promotor André Luiz Buchala. "Pois infelizmente 'macaco' é expressão muitas vezes utilizadas por pessoas preconceituosas em relação à pessoa negra, desde a tenra idade desta."

Para o promotor, Gentili "aproveitou-se de tal circunstância para ocultar a ofensa dentro de uma piada". "O acusado agiu com a intenção de ofender a vítima, ao sentir-se incomodado ou perseguido por ela", acusou.

As testemunhas de defesa disseram que o humorista costuma "zoar" os seguidores que buscam interagir com ele pelo Twitter. Uma das testemunhas, Robson Nunes, disse que houve um "oportunismo da vítima" que buscava apoio de Gentili à causa racial.

Para o juiz que absolveu o comediante, "a pessoa que não tem condições de participar de brincadeiras e piadas… não deve evidentemente interagir com um [perfil de] Twitter com essa finalidade".

Ao saber da decisão judicial inocentando Gentili, Thiago Ribeiro prometeu recorrer:


Limites do humor

Apesar de absolver Danilo Gentili, o juiz Marcelo Matias Pereira fez uma ressalva sobre o comportamento do humorista. Ele destacou que não cabe ao Judiciário analisar a qualidade do humor, mas os comediantes devem ser responsáveis pelo "conteúdo propagado" por eles.

"O réu tem que entender que há limites para as brincadeiras, ainda mais quando direcionadas a um indivíduo específico – o que tristemente tem sido feito pelos comediantes para chamar atenção da mídia", escreveu o magistrado.

Para Pereira, Thiago Ribeiro pode pedir indenização por danos morais em uma vara cível. "Quando direcionada a uma pessoa específica, [a piada] faz nascer um conflito entre a liberdade de expressão e a proteção dos direitos de personalidade".

gentili

Entre bananas e macacos

Enquanto Danilo Gentili é absolvido por oferecer bananas a um jovem negro pelo Twitter, a a polícia espanhola prendeu o torcedor que atirou uma banana no jogador Daniel Alves, durante jogo do campeonato espanhol no último domingo (27). Foi a reação do lateral-direita à ofensa de David Campayo Lleo que desencadeou a campanha #somostodosmacacos.

A comparação com macacos é, infelizmente, uma realidade enfrentada por milhares de negros no Brasil e no mundo. As piadinhas alimentam estereótipos e mantêm as feridas de um grupo historicamente marginalizado e socialmente discriminado até os dias de hoje. É o racismo institucional do Brasil nutrido pelo racismo cordial, manifestado por gracejos e injúrias diluídas no dia a dia.

Uma das grandes críticas à campanha #somostodosmacacos é a simplificação e descontextualização da luta contra a discriminação racial no Brasil. Para o historiador e professor Douglas Belchior, militante do movimento negro, "banana não é arma e… reafirma [o racismo] na medida em que relaciona o alvo [de discriminação] a um macaco e principalmente na medida em que simplifica, desqualifica e, pior, humoriza o debate sobre racismo no Brasil e no mundo".

Se para o jogador Daniel Alves comer a banana foi uma forma legítima de protestar e desqualificar os racistas, para os negros pobres e não alçados ao "estrelato", como diz Belchior, essa não é uma postura possível.

"O Daniel Alves faz parte da ínfima minoria em que o racismo, que infelizmente existe, não fere, não exclui, não mata", escreveu a redatora e videomaker Mirelle Martins em seu blog no Brasil Post.

O combate ao racismo institucional implica o enfrentamento do preconceito cordial e o repúdio às piadas ou referência a macacos e bananas. É por isso que a universitária Tais Telles bradou ao ser chamada de "preta", "macaca" e "safada" no campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

"As diferenças existem; não adianta dizer que não tem diferença [de cor, de raça]. Mas as particularidades têm que ser respeitadas e não "toleradas". Não podemos cair apenas no discurso da tolerância. Respeitar o outro é respeitar as diferenças", disse Tais ao Brasil Post na época da ofensa racista.

ATUALIZAÇÃO

Diante das críticas à absolvição, Danilo Gentili partiu para o ataque:

O humorista fez menção ao comentário do apresentador Fausto Silva sobre os cabelos cacheados de Arielle Macedo, dançarina da funkeira Anitta. Faustão tachou as madeixas de "cabelo vassoura de bruxa", foi bastante criticado nas redes sociais e, no programa posterior, negou ser racista e defendeu a diversidade.