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26/04/2014 16:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:29 -02

Uma mulher negra e lésbica contra a intolerância na África

Reprodução/YouTube

Em Uganda, transar com pessoas do mesmo sexo é crime punível com no mínimo 14 anos de prisão. Poucos ugandenses saem do armário em um país onde ser homossexual é crime. Os que saem acabam sendo perseguidos, ameaçados, excluídos e, muitas vezes, assassinados. Kasha Jacqueline Nabagesera não apenas saiu do armário ainda adolescente, como defende a causa gay desde os 19 anos e desafia leis e algozes nos tribunais ugandenses com uma coragem impressionante.

Fundadora da ONG Freedom & Roam Uganda (FARUG), em 2011 ela foi a primeira ativista gay do mundo a receber o prestigioso Prêmio Martin Ennals Award Para Defensores dos Direitos Humanos. Kasha esteve em São Paulo esta semana para uma palestra no TEDx Liberdade, onde o Brasil Post conversou com ela. “Antes dos missionários trazerem a Bíblia, que está sendo usada para condenar minorias sexuais hoje, as pessoas não se importavam se alguém era homossexual. Na verdade, os homossexuais eram muito respeitados. Em Buganda, meu bisavô, o rei de Buganda, era reconhecido como homossexual e era respeitado. Hoje, estão usando minha cultura para condenar a mim e a muitos outros”, disse Kasha no evento. Leia a entrevista na íntegra com a ativista.

kasha ted

Kasha durante palestra no Tedx Liberdade na última quarta-feira (23)

Brasil Post: O que te levou a se tornar uma ativista?

Kasha Nabagesera: Eu não acho que ninguém precisa de um motivo para se tornar ativista, porque se você nunca tiver um motivo você nunca se posicionará contra nada. Para mim, não foi pelo que eu vivi que eu me tornei uma ativista, foi pelas injustiças que eu vi acontecerem. Algumas dessas injustiças também estavam acontecendo comigo, mas não foi pelo que aconteceu comigo que eu me tornei uma ativista. Eu fui expulsa de tantas escolas e quando cheguei na universidade de direito é que fui descobrir que era porque a homossexualidade é ilegal. Então decidi fazer algo para mudar isso. Meus pais sempre me apoiaram, mas muitos amigos meus foram expulsos também e seus pais os abandonaram, então decidi fazer algo por aqueles que não quem os apoiassem.

Recentemente, o presidente de Uganda aprovou uma lei contra a qual você luta há muitos anos. Como você reagiu a essa aprovação?

Claro que foi muito perturbador ver a criminalização da homossexualidade em pleno século 21. Foi uma experiência chocante para todos nós, principalmente pela forma como passou pelo parlamento. Mas agora estamos desafiando sua legalidade na Corte Constitucional porque é ilegal de acordo com a nossa Constituição e com as convenções internacionais.

Como lésbica e ativista LGBT, você é perseguida, ameaçada e já foi atacada. Mesmo assim, continua agindo. De onde você tira essa coragem?

Primeiro lugar, de mim mesma, eu sei que não posso sentar e lamentar pelo que acontece comigo e minha comunidade. E também de saber que eu tenho apoio externo, que não estou enfrentando isso sozinha. E sei que eu não posso ter uma boa noite de sono sabendo que eu podia ter feito algo e não fiz.

É mais difícil ser uma ativista LGBT sendo mulher?

Eu digo que é uma tripla discriminação ser negra, mulher e lésbica. Mas não deixo isso me subir à cabeça. Eu só levanto a cabeça e digo “eu sou uma mulher, tenho orgulho de ser mulher, tenho orgulho da cor da minha pele e não tenho vergonha de ser quem eu sou, eu não me criei, eu nasci com esse sentimento”. Então eu uso isso para me impor e dizer “chega, é o bastante, preciso fazer uma mudança”.

Há um documentário da BBC chamado “O pior lugar do mundo para ser gay”, passado em Uganda. Nas entrevistas feitas nesse documentário, as pessoas justificam a homofobia com a Bíblia. Você acha que a religião é a causa da homofobia?

Em primeiro lugar, eu não concordo com o título do documentário porque eu não acho que Uganda é o pior lugar para ser gay. Qualquer lugar em que exista uma opressão em relação a orientação sexual é o pior lugar para ser gay. Sobre a Bíblia, sim, as pessoas usam a religião para condenar as minorias sexuais, assim como usaram a Bíblia para condenar as mulheres no passado. Existe muita influência religiosa interna e externa, por exemplo os evangélicos dos Estados Unidos. Durante a colonização, os missionários chegaram na África com suas leis antigays e com a Bíblia, e agora os africanos estão usando a Bíblia para condenar seu próprio povo.

É por isso que essa lei é tão popular em Uganda?

A Uganda é um país predominantemente cristão, então muitas pessoas acreditam em interpretações que ouvem sobre a Bíblia. Existe muita ignorância e falta de acesso a informação sobre sexualidade de forma geral, então muitos acreditam nas mentiras que os seus líderes religiosos contam.

Este ano, um tabloide de Uganda publicou uma lista com nomes de homossexuais, em que você figurava, e, na época, você disse que a “caça às bruxas da mídia” voltou. Em 2011, um outro jornal publicou uma lista parecida e um colega seu morreu. Como isso continua a acontecer?

A caça às bruxas da mídia existe de 1999, acontece que nós entramos na Justiça contra as empresas, mas depois elas acabam voltando. Essa última lista foi publicada algumas semanas depois que eu ganhei o caso contra a Rolling Stone pela morte do meu colega. Essa caça continua enquanto conversamos, as pessoas estão perdendo seus empregos, suas famílias. É realmente lamentável que isso ainda aconteça, mas estamos fazendo petições contra a lei antigay e uma petição para impedir que mais gays sejam expostos na imprensa.

Como você vive em Uganda agora?

Eu passei o feriado da Páscoa tentando achar onde morar porque fui despejada. Mas meus hospedeiros vão se mudar e eu terei ma nova casa. (Kasha se muda constantemente para evitar ataques.)

Aqui no Brasil a comunidade LGBT também é perseguida nas ruas, ainda que não tenhamos uma lei antigay como Uganda. O que você tem a dizer para os ativistas LGBT do Brasil?

Mudar a legislação é um passo para a liberdade, mas não é o objetivo final. Você precisa mudar a mentalidade das pessoas da comunidade onde vivemos. Mesmo que você tenha uma legislação progressista, se a mentalidade das pessoas não muda, nada vai mudar nas comunidades. Eu recomendo aos meus irmãos e irmãs do Brasil, não apenas a comunidade LGBT, mas toda a sociedade civil, que se unam em prol da consciência porque as pessoas precisam entender a diversidade sexual e identidade de gênero.

Você pode colaborar com a campanha de Kasha por meio deste link.