COMPORTAMENTO
19/04/2014 13:28 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Quer acabar com uma conversa? Pergunte à pessoa o que ela faz

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Quando você conhece alguém pela primeira vez, depois que você aperta a mão dela e diz o seu nome, qual é a primeira pergunta que você faz? Provavelmente, a sua pergunta padrão é “O que você faz?”. Temos o costume de incluir essa pergunta na conversa antes de falarmos praticamente qualquer outra coisa, como uma forma de rapidamente colher informações e começar a formar uma imagem da pessoa com quem estamos falando. Apesar de ser uma pergunta aparentemente inofensiva, ela perpetua um hábito perigoso: A tendência de associar quem somos com o que fazemos.

"O que você faz?" ou “Com o que você trabalha?” é uma das mais complexas perguntas que se pode fazer. Segundo Elizabeth Spiers, antiga editora-chefe do jornal New York Observer, essa pergunta tradicionalmente usada para começar uma conversa gera várias outras perguntas implícitas, como, “Quanto você ganha?” “O seu trabalho é significante?” e “Será que temos algo em comum?”.

Para aqueles que sentem orgulho da função que desempenham e da empresa em que trabalham, a pergunta pode ser uma bem-vinda oportunidade de afirmar o próprio status e uma chance de alinhar quem são com o prestígio do cargo que ocupam. Para quem não possui esse sentimento, a pergunta é simplesmente uma péssima maneira de começar uma conversa.

"Há um tipo de fuga na afiliação institucional da pessoa, ou em alguns cargos de trabalho”, escreveu Spiers em um post no blog Medium, em maio. "Mas o que todas essas coisas dizem de fato sobre quem nós somos? Há um perigo em nossa identidade pessoal estar incorporada ao nosso trabalho, ainda que o trabalho consuma tudo que fazemos”.

E isso aponta para o verdadeiro problema. Em nossa cultura ambiciosa e voltada para o sucesso, muitas pessoas acabam de fato considerando a sua identidade pessoal e o trabalho que fazem como inseparáveis – e precisam ser lembradas de que nós simplesmente não somos o que fazemos.

Claro, o ideal é que o seu trabalho seja um reflexo da pessoa que você é, e que sirva como uma plataforma para a sua auto-expressão. Mas quando dependemos da nossa carreira como a principal fonte de validação e identidade pessoal, corremos o risco de associar nossa identidade exclusivamente no trabalho que fazemos. Essa é uma associação perigosa – uma que nos deixará com a sensação de estarmos perdidos e vazios quando, inevitavelmente, chegar o dia em que deixaremos os nossos empregos e seremos forçados a buscar o nosso valor em outra fonte.

"Quando saí do meu emprego, eu fiquei arrasada. Eu simplesmente não conseguia me recompor e seguir em frente”, escreveu Erin Callan, ex-CEO da corretora Lehman Brothers, em uma coluna no jornal New York Times. "Eu não sabia distinguir o meu valor como pessoa do trabalho que eu fazia. O que eu fazia era quem eu era”.

A empreendedora Ellen Huerta teve uma experiência parecida, uma crise de identidade, quando deixou seu emprego maravilhoso na Google.

Em um ensaio recente no blog HuffPost intitulado "Por que eu saí da Google", Huerta descreve o processo de abrir mão do seu emprego:

Quando eu parei para pensar porque eu estava resistindo tanto àquela decisão, eu percebi algo sobre mim mesma do qual eu não gostei, algo que tenho até vergonha de admitir agora. A principal razão pela qual eu estava relutando em sair era que eu estaria abrindo mão da segurança e do prestígio associado à vida de um funcionário da Google. Refletindo um pouco mais, eu percebi que o reconhecimento externo infelizmente havia se tornado a minha maior motivação.

O problema não é perguntar o que a pessoa faz ou falar da nossa própria experiência profissional, mas o problema está em transformar a resposta da pessoa na base do seu caráter e identidade. E parecido com aquele monólogo que gostamos de fazer sobre o quão ocupado ou estressado estamos quando alguém pergunta sobre o nosso dia, começar uma conversa com um desconhecido perguntando “o que você faz?” pode ser uma maneira certeira de não estabelecer uma conexão autêntica com aquela pessoa.

Algumas pessoas amam o trabalho que fazem e encontram um profundo sentimento de realização nas suas carreiras, enquanto outras estão felizes por terem um trabalho que paga as contas para que possam encontrar realização em atividades que fazem fora do trabalho. E outras ainda não tiveram a liberdade e condição financeira de exercer uma carreira que consideram significante. De qualquer forma, quem somos é algo bem mais complexo e maravilhoso do que aquilo que fazemos.

Chuck Palahniuk possivelmente deu a melhor descrição dessa questão no filme Clube da Luta: “Você não é o seu trabalho, você não é o saldo da sua conta bancária. Você não é o carro que você dirige. Você não é o que está dentro da sua carteira… Você é toda a porcaria que canta e dança pelo mundo afora.”

Existe um milhão de maneiras de começar uma conversa. Se você não sabe como começar, aqui estão algumas ideias:

- Faça um elogio

- Comente sobre algum aspecto constrangedor da situação em que se encontram

- Comece a contar uma história engraçada e espere pelo melhor

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