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17/04/2014 08:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Crise da água: racionamento forçará governo a acelerar obras e estimular redução no consumo de água em SP

Thinkstock

Há um ditado popular que diz haver sempre um lado bom nas mais adversas situações. Agora você se pergunta o que pode existir de bom quando o tema é o medo cada vez maior de São Paulo enfrentar um real racionamento de água - aquele "velado" já existe - ou pior, ficar literalmente sem água, nos próximos meses. E sim, acredite se quiser, mas há algo de bom no atual cenário preocupante para as mais de 20 milhões de pessoas que vivem na Grande São Paulo.

Há dez anos, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) já sabia que deveria diminuir a dependência do Sistema Cantareira quanto ao fornecimento de água para os municípios da região metropolitana de São Paulo e da própria capital. Na época, quando ocorreu a última renovação da outorga de uso, já havia a previsão de que obras seriam necessárias para manter o abastecimento já crescente na área. Diante da atual crise, sabe-se que não foi feito o suficiente. O lado bom está justamente aí: mudanças serão necessárias na gestão da água pelo governo de SP e pela Sabesp.

“Em 2004, a Sabesp já sabia que deveria diminuir a retirada do Cantareira, baixando dos 30 metros cúbicos por segundo para 24 metros cúbicos por segundo. O que já tinha de ter sido feito era buscar mananciais ou trabalhar a demanda. A gente vê que não diminuiu o consumo e soluções não foram dadas para isso. Soma-se a isso que estamos em um ano de discussão de uma nova renovação da outorga do sistema e SP está passando por um período de seca”, diz a arquiteta e urbanista Marussia Whately ao Brasil Post.

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Ex-coordenadora do Programa Mananciais do Instituto Socioambiental (ISA) e com trabalhos publicados acerca da área de recursos hídricos de São Paulo, Marussia acredita que muito já poderia ter sido feito pelos órgãos governamentais há muito tempo, otimizando o fornecimento com políticas de menor desperdício, começando pelos próprios prédios públicos. Para ela, a solução para a atual crise passa por uma série de medidas associadas, com a continuidade das obras no Sistema Alto Tietê e São Lourenço, mais políticas de queda no consumo, atacando justamente os “grandes consumidores”, como grandes condomínios residenciais e seus hidrômetros coletivos.

“Desde novembro, dezembro do ano passado, era possível medir a diminuição das chuvas. Era quando deveriam ter sido tomadas medidas de redução, lá atrás. Em abril está tendo chuva, mas você não vai repor em um mês o que faltou em quatro. Além disso, o racionamento em si agora é uma medida muito arriscada, já que estamos em ano de eleição, e também do ponto de vista operacional. Racionamento não é apenas abrir a torneira hoje e amanhã não ter água, mas tem dependência de fechar bombas, abrir adutoras, e canos antigos que fiquem sem água podem não aguentar depois, ocasionando vazamentos. Racionalizar o consumo, levando em conta que nem todas as áreas de São Paulo consomem da mesma forma, é necessário”, comenta.

Saneamento básico e “volume morto”

A ideia de que São Paulo pode ficar sem água expõe ainda mais a ausência de uma gestão mais atuante em políticas de saneamento básico e tratamento da água de áreas importantes da capital, como as represas de Guarapiranga e Billings. Ambas possuem um histórico de poluição, seja pela grande aglomeração populacional que só cresceu nas últimas décadas, acompanhado por obras de saneamento básico deficientes, seja pelo despejo de dejetos industriais sem o devido tratamento.

Se os danos ambientais já causam prejuízo nas águas que a Grande SP possui, mas não pode usar plenamente para o abastecimento da população, o mesmo vale para a perspectiva de uso do chamado “volume morto” do Cantareira. De acordo com a Sabesp, a captação dessa água que está mais ao fundo, abaixo do limite normal de uso, começa no dia 15 de maio, por meio de bombas. O prejuízo para a fauna com a medida, porém, é de difícil cálculo, conforme lembra Marussia.

“O volume morto é aquilo que está abaixo do que você poderia tirar dos mananciais. Então, ao tirar aquilo, você vai acabar com a capacidade de repor, o que é um problema muito maior. As fontes de poluição ali no Cantareira não são tão graves quanto seriam na Guarapiranga, onde há uma água de menor qualidade. Outra questão é que o volume morto existe para o manancial não morrer, então nós vamos matar o manancial? Você tem toda uma vida que vive ali, aves, peixes, e vamos acabar com a água deles. Tem uma questão ecológica que não está sendo devidamente considerada”, explica a urbanista.

A situação em São Paulo serve também para uma discussão macro do uso das águas no Brasil inteiro, acompanhando o que já acontece em todo o mundo. Nesta semana, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas apontou a necessidade da busca pela diminuição das emissões de gases poluentes e por formas de energias limpas. Justamente a segurança de que algo ainda mais grave esteja a caminho torna o planejamento das políticas públicas, com medidas claras e prazos cumpridos, fundamental.

“O Brasil tem 12% da água do planeta, com 80% dessa água localizada na Amazônia, mas a população, na sua maior parte, não está nessa região. É algo ilusório achar que estamos tranquilos. O Nordeste do País mesmo, vem enfrentando uma das piores secas dos últimos 30 anos, então nenhuma parte do Brasil está livre de um quadro de seca. É preciso estudar e acompanhar o impacto dessas medidas públicas ligadas à água, à segurança alimentar e energética”, conclui.