COMPORTAMENTO
16/04/2014 10:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

A influência que o dinheiro exerce sobre o nosso pensamento e comportamento

Thinkstock

O termo affluenza - uma contração de afluência e influenza, definida como uma “condição dolorosa e contagiosa de sobrecarga, dívida, ansiedade e desperdício, resultante da busca incessante por mais” – costuma ser considerado meramente uma palavra da moda, criada para expressar nosso desdém pelo consumismo. Apesar de usado em tom de brincadeira, o termo pode conter mais verdades que muitos de nós gostaríamos de acreditar.

A palavra foi até mesmo usada na defesa de um motorista embriagado no Texas, no ano passado. O réu, um garoto de 16 anos, afirmava que a riqueza de sua família deveria eximi-lo da morte de quatro pessoas. O rapaz foi condenado a dez anos de liberdade vigiada e terapia (paga por sua família), enfurecendo muitos por causa de uma suposta leniência da lei.

O psicólogo G. Dick Miller, um dos especialistas que testemunharam no julgamento, argumentou que o jovem sofria de affluenza, o que pode tê-lo impedido de compreender as consequências de seus atos.

“Me arrependi de usar o termo”, disse Miller, mais tarde, à CNN. “Todo mundo parece ter se concentrado nisso.”

A affluenza pode ser real ou imaginária, mas o dinheiro de fato muda tudo – e aqueles de classes sociais mais altas tendem a se enxergar de maneira diferente. A riqueza (a busca dela) já foi ligada a comportamentos imorais – e não só em filmes como O Lobo de Wall Street.

Psicólogos que estudam o impacto da riqueza e da desigualdade no comportamento humano descobriram que o dinheiro tem uma influência poderosa em nossos pensamentos e ações, muitas vezes sem que percebamos e independentemente das nossas circunstâncias econômicas. Apesar de riqueza ser um conceito subjetivo, a maioria das pesquisas atuais mede a riqueza em escalas de renda, status do emprego ou circunstâncias socioeconômicas, como nível educacional e riqueza passada de geração para geração.

Eis uma lista de sete coisas que você deveria saber sobre a psicologia do dinheiro e da riqueza.

Mais dinheiro, menos empatia?

jogo

Vários estudos apontam que a riqueza pode não combinar com a empatia e a compaixão. Uma pesquisa publicada na revista Psychological Science indicou que pessoas de menor renda conseguem ler melhor as expressões faciais dos outros -- um indicador importante de empatia – do que as mais ricas.

“Muito do que vemos é uma orientação básica das classes mais baixas a serem mais empáticas que as classes mais altas”, disse à Time Michael Kraus, co-autor do estudo. “Os indivíduos que possuem renda mais baixa têm de responder cronicamente a inúmeras vulnerabilidades e ameaças sociais. Você precisa confiar nos outros para que eles te digam se existe uma ameaça social ou uma oportunidade, e isso faz de você uma pessoa mais apta a perceber emoções.”

Apesar de a falta de recursos levar a uma maior inteligência emocional, ter mais recursos pode levar a maus comportamentos. Pesquisadores da Universidade de Berkeley apontaram que até mesmo dinheiro de mentira pode levar as pessoas a agir com menos consideração em relação aos outros. Os pesquisadores observaram que, quando dois estudantes jogam Banco Imobiliário e um deles recebe muito mais dinheiro que o outro, o jogador mais rico demonstra certo desconforto inicial, mas depois passa a agir agressivamente, ocupando mais espaço, movimentando suas peças ruidosamente e provocando o jogador com menos dinheiro.

A riqueza pode obscurecer o julgamento moral

influência

Não é surpresa neste mundo descobrir que a riqueza pode causar uma sensação de “direitos morais adquiridos”.

Um estudo feito por pesquisadores de Harvard e da Universidade de Utah constatou que só de pensar em dinheiro, algumas pessoas adotam comportamentos antiéticos. Depois de serem expostos a palavras relacionadas a dinheiro, os participantes se mostraram mais propensos a mentir e a se comportar imoralmente.

“Mesmo se formos todos bem intencionados, e mesmo que acreditemos poder discernir entre o certo e o errado, há fatores que influenciam nossas decisões além de nossa percepção”, disse Kristin Smith-Crowe, professora-associada de administração da Universidade de Utah e uma das co-autoras do estudo, ao MarketWatch.

A riqueza está ligada a vícios

vicio

O dinheiro pode não causar vício ou abuso de substâncias, mas a riqueza já foi ligada a uma maior susceptibilidade a problemas de vício. Vários estudos apontam que crianças ricas são mais vulneráveis a problemas de abuso de substâncias, potencialmente por causa da pressão para ser bem-sucedidas e do isolamento dos pais. Estudos também indicam que filhos de pais ricos não estão necessariamente livres de problemas de adequação – na verdade, há pesquisas que mostram que, em várias medidas de inadequação, adolescentes de alto status socioeconômico têm índices mais altos que colegas pobres. Os pesquisadores acreditam que essas crianças têm maiores chances de internalizar o problema, o que pode estar relacionado a abuso de substâncias.

O próprio dinheiro pode ser viciante

dinheiro

A busca da riqueza pode se tornar um comportamento compulsivo. Como explica a psicóloga Tian Dayton, a necessidade compulsiva de obter dinheiro é muitas vezes considerada parte de uma classe de comportamentos conhecida como vício processual, ou “vício comportamental”, que é diferente do abuso de substâncias:

Hoje em dia, a ideia de vício processual é amplamente aceita. Vícios processuais são vícios que envolvem uma relação compulsiva e/ou fora de controle com certos comportamentos, como jogo, sexo, comida e, sim, até mesmo dinheiro... Há uma mudança na química cerebral nesse tipo de vício, semelhante aos efeitos do álcool ou das drogas. Nesses casos, envolver-se em certas atividades, como ver filmes pornográficos, comer compulsivamente ou ter uma relação obsessiva com dinheiro, pode liberar químicos no cérebro e no corpo, como a dopamina, que dão um “barato” real, similar ao do barato de uma droga. A pessoa viciada em algum tipo de comportamento aprendeu, mesmo que de forma inconsciente, a manipular a química do próprio cérebro.

Apesar de esse tipo de vício não ser uma dependência química, ele envolve comportamento compulsivo – neste caso, a dependência das sensações que vem com dinheiro ou bens materiais – que pode em último caso levar a consequências negativas e prejudicar o bem estar do indivíduo. O vício em gastar dinheiro é outro tipo comum de vício processual ligado ao dinheiro.

Crianças ricas podem ser mais problemáticas

criança dinheiro

Crianças que crescem em famílias ricas podem parecer ter tudo, mas ter tudo pode custar caro. Crianças ricas tendem a ser mais angustiadas que as de famílias de menor renda, e têm alto risco de sofrer de ansiedade, depressão, abuso de substâncias e doenças alimentares.

“Em comunidades em ascensão social, as crianças são pressionadas a ter ótimo desempenho em atividades escolares e extracurriculares para maximizar suas perspectivas acadêmicas – um fenômeno que pode muito bem levar ao estresse”, diz Suniya Luthar em “A Cultura da Afluência”. “No nível emocional, igualmente, pode haver isolamento por causa da erosão do tempo em família, por causa das demandas profissionais dos pais e as muitas atividades das crianças fora da escola.”

Tendemos a achar os ricos “do mal”

Do outro lado do espectro, indivíduos de menor renda têm propensão a julgar e estereotipar aqueles que são ricos, muitas vezes considerando os ricos “frios”.

Dinheiro não compra felicidade (ou amor)

amor

A tendência é que busquemos dinheiro e poder na busca do sucesso (e quem não quer ser bem-sucedido?), mas isso pode estar atrapalhando a busca do que realmente importa: felicidade e amor.

Não há correlação direta entre renda e felicidade. Após um certo nível de renda, suficiente para atender necessidades básicas (alguns dizem 50 000 dólares anuais, outros, 75 000), a riqueza não faz tanta diferença no bem-estar geral e na felicidade. Pelo contrário, ela pode até ser prejudicial: pessoas extremamente ricas sofrem mais de depressão. Alguns dados sugerem que o dinheiro em si não causa insatisfação – mas a busca incessante por riqueza e bens materiais pode levar à infelicidade. Valores materialistas já foram ligados à baixa satisfação nos relacionamentos.