NOTÍCIAS
08/04/2014 08:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Oposição aponta caminho para fim da era André Vargas: a renúncia. E há quem no PT goste da ideia

Juliana Knobel/Frame/Estadão Conteúdo

O pedido de afastamento por um prazo de 60 dias pode ter sido o último ato do deputado federal André Vargas (PT-PR) no cargo. Pressionado por todos os lados, o folclórico parlamentar que já sugeriu até dar cotovelada no presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, e que nos bastidores é tido como escudeiro da ideia de que o partido deveria se voltar ao retorno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao invés de reeleger Dilma Rousseff, pode só ver uma saída para pôr fim à crise que ele mesmo iniciou: renunciar.

A “dica” para Vargas veio até mesmo da oposição, que nesta segunda-feira (7) protocolou uma representação de 26 páginas junto ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados, pedindo que o deputado petista, que também é vice-presidente da Casa, seja investigado por quebra de decoro. No documento, ao qual a reportagem do Brasil Post teve acesso, o PSDB, o DEM e o PPS pedem que as denúncias envolvendo Vargas e a sua conexão com o doleiro Alberto Yousseff sejam investigadas.

Para os parlamentares desses partidos, é preciso que o petista e o doleiro sejam ouvidos, associados esses depoimentos ao acesso à documentação em posse da Polícia Federal, que prendeu Yousseff no mês passado na Operação Lava Jato, que apura desvios da ordem de R$ 10 bilhões. Ao Brasil Post, o vice-líder do PSDB na Câmara, deputado Nilson Leitão (MT), disse que não restam muitas opções a Vargas e ao governo se quiserem ver o assunto longe do noticiário.

“A situação do vice-presidente da Câmara é irremediável. Ele pode ganhar tempo, tentar sair do foco, tentando esperar que passe o período eleitoral, mas a única forma de ele acabar com esse assunto é renunciar”, afirmou. Leitão comentou ainda que não é apenas entre a oposição que a posição de Vargas parece insustentável. “Algumas alas do PT vêm cogitando isso também. É flagrante, ele [Vargas] não conseguiu permanecer e colocou o partido e o governo no centro disso tudo. Ele é um homem de confiança do PT, tem trânsito livre no Planalto, nos ministérios. Se ele tiver um pouco de juízo, ele estará renunciando em breve”.

O ponto de vista é compartilhado pelo líder do DEM na Câmara, deputado Mendonça Filho (PE). Apesar de não mencionar a possibilidade de renúncia de Vargas, o parlamentar acredita que a investigação das relações do vice-presidente da Casa com o doleiro é um fato consolidado, na busca do que ele chama de “verdade dos fatos”. “Era incompatível ele seguir na vice-presidência com o início do processo. Não acredito em manobra porque não teria serventia para a defesa dele. O único resultado prático é que ele pode se dedicar à defesa dele”.

Nem na própria casa Vargas parece a salvo

O Conselho de Ética deverá sortear um relator para analisar o caso. Esse parlamentar então apresentará um parecer preliminar sobre a necessidade de uma investigação, mas o início efetivo da investigação de Vargas dependeria ainda de uma aprovação em Plenário. No que depender de setores do PT, a situação não chegará a isso. Além das polêmicas que despertou nos últimos meses dentro do próprio partido, Vargas pode ser mais uma “pedra no sapato” do governo, que já tem de se preocupar com a pressão da oposição pela CPMI da Petrobras. Isso sem falar do cenário eleitoral, ainda mais acirrado após a pesquisa Datafolha do último fim de semana.

Oficialmente, o líder do PT na Câmara, deputado Vicentinho (SP) declarou apoio ao colega pela decisão de se afastar, completando em seguida, de maneira um tanto quanto genérica, que “a verdade seja vencedora”. O parlamentar comentou ainda que “se o deputado quiser, a bancada irá ouvi-lo com muito respeito”. O avanço das investigações para apurar as “graves denúncias”, conforme colocou o deputado Rubens Bueno (PPS-PR), ao que tudo indica, só faria aumentar um desgaste que o Palácio do Planalto, se puder, tentará evitar a todo custo.

A reportagem do Brasil Post tentou falar com o deputado André Vargas, mas a sua assessoria informou que ele se encontra “muito abalado” e que não pretendia falar neste momento. Horas após pedir o seu afastamento por 60 dias, o petista divulgou nota em que se diz alvo de um “massacre midiático”, mas reafirmando o seu compromisso de esclarecer todo e qualquer fato. A situação delicada do parlamentar fez alguns “desafetos” virem a público para alfinetar o petista. O deputado Marco Feliciano (PSC-SP) foi um deles.

O senador Roberto Requião (PMDB-PR) também foi outro que não se furtou em comentar a desgraça alheia.

"Demóstenes do PT"

A atual situação de Vargas lembra outro caso não muito distante no Congresso Nacional. Em 2012, o então senador Demóstenes Torres (ex-DEM) foi cassado por conta de suas ligações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. No presente, o petista teria usufruído de uma viagem de férias com ajuda de Yousseff, além de atuar na intermediação de negociações do laboratório Labogen com o Ministério da Saúde. Na oposição, não há quem não veja semelhança entre os casos, mas o deputado Nilson Leitão é enfático em um ponto.

“Acho que são casos parecidos, mas a geladeira do Demóstenes (recebida como presente de Cachoeira na época e avaliada em R$ 46 mil) é muito mais barata que uma viagem de R$ 100 mil. Para ganhar um presente desses, tem que ter muita paixão pela pessoa, diria que é algo incomum, uma relação muito íntima. É um relacionamento voltado ao lucro”, declarou o tucano.

Nas mãos de André Vargas está a decisão: deixar o PT sangrar com mais uma polêmica, ou “se sacrificar” para tirar o assunto do centro do debate e não correr um eventual risco de cassação? Se opositores apontaram a porta de saída, ninguém do lado petista fez questão até o momento de impedir que o parlamentar passe por ela.