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07/04/2014 15:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Operação secreta dos EUA para desestabilizar governo de Castro com "twitter cubano" tem efeito inesperado

Franklin Reyes/AP

Uma agência dos Estados Unidos investiu dezenas de milhares de dólares do governo em uma espécie de “Twitter cubano” com o objetivo de desestabilizar o governo de Raúl Castro. A operação secreta, que esteve em andamento entre 2010 e 2012, não deu certo, e agora mostrou o efeito contrário: o governo cubano usou a história como artilharia política para denunciar as campanhas subversivas dos EUA contra Cuba.

A história toda foi divulgada na quinta-feira passada, em uma reportagem investigativa da Associated Press que ecoou em vários veículos internacionais. Segundo a matéria, o programa foi lançado pela USAID, a agência dos Estados Unidos para o desenvolvimento internacional, sem autorização do congresso ou da presidência.

A missão: lançar uma rede de mensagens online que pudesse atingir centenas de milhares de cubanos. Para esconder a rede do governo cubano, eles usariam um sistema bizantino de companhias usando uma conta bancária das Ilhas Caimã, um paraíso fiscal, e recrutando executivos sem eles saberem da relação da companhia com o governo americano.

Segundo os documentos obtidos pela AP e entrevistas com pessoas envolvidas no projeto, o plano era desenvolver essse "Twitter cubano" usando mensagens de texto de celulares para burlar o controle de informação de Cuba e suas restrições sobre a internet. O nome da rede era “ZunZuneo”, gíria cubana para beija-flor, em referência ao pássaro do Twitter.

zuzuneo

Logo do "Twitter cubano"

O governo americano pretendia fazer uma base de usuários com conteúdo não controverso, como notícias sobre futebol, música e atualizações sobre furacões. Depois que o ZunZuneo conquistasse um número alto de usuários, como centenas de milhares, os operadores da rede introduziriam conteúdo político com o objetivo de inspirar os cubanos a organizarem “manifestações espertas”, reuniões em massa de pessoas que pudesse provocar uma “Primavera Cubana”, ou, como dizia um documento da USAID, “renegociar a balança de poder entre estado e sociedade”.

No entanto, em seu ápice, a rede atraiu cerca de 40.000 cubanos que nunca desconfiaram que os EUA estavam por trás do ZunZuneo. A legalidade do programa foi colocada em dúvida pela AP, já que a legislação americana exige que uma operação secreta de qualquer agência federal deve ter autorização da Presidência e o Congresso deve ser avisado.

Na quinta, a administração Obama disse que o programa não era secreto e foi importante para “auxiliar o fluxo mais livre de informações para os cubanos”. “Partes do programa foram colocadas em prática de maneira discreta”, disse uma autoridade da USAID, Rajiv Shah.

O argumento do governo Obama, que condena as revelações do ex-analista da CIA Edward Snowden sobre os programas de vigilância dos EUA, não colou e serviu de artilharia para críticos. O jornal oficial Granma cita um comentário revelador de Raúl Castro sobre os recentes acontecimentos na Ucrânia e na Venezuela em um artigo intitulado “ZunZuneo, o ruído da subversão”: “Esses fatos confirmaram que onde quer que exista um governo que não concorde com os interesses dos círculos de poder dos Estados Unidos e alguns de seus aliados europeus, ele se converte em alvo das campanhas subversivas”, disse Raúl.

“Eles parecem ter pessoas que realmente entendem de tecnologia mas não conhecem Cuba”, disse à Vice Ted Henken, um professor americano que escreve o blog El Yuma, que fala sobre a cultura cubana, e se relaciona com a comunidade de desertores cibernéticos do país. “Só porque a tecnologia existe, não quer dizer que será útil para os ativistas”. Orlando Luiz Pardo Lazo, um conhecido blogueiro cubano, disse que o programa da USAID é “completamente ridículo” e deu a Havana mais uma chance de atacar o intervencionismo em Cuba em vez de admitir sua própria repressão de vozes críticas no território americano.