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05/04/2014 15:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Eleições no Afeganistão: comparecimento alto e número pequeno de ataques surpreendem

Zohra Bensemra/Reuters

Eleitores afegãos tiveram comparecimento inesperadamente alto às urnas durante as eleições presidenciais deste sábado (05) apesar da violência do Taleban e de tentativas de fraude.

Sete dos 12 milhões de eleitores compareceram às urnas, ou cerca de 58%, de acordo com estimativas preliminares, disse o chefe da comissão eleitoral, Ahmad Yousuf Nuristani - número bem acima dos 4,5 milhões que votaram na última eleição, em 2009, uma vez que os eleitores se recusaram a ser intimidados pelos militantes.

O comparecimento foi tão alto que em Cabul e outras grandes cidades como Candaar, muitos centros de votação ficaram sem cédulas na hora do almoço.

"Esse é um sinal de maturidade política do povo", disse Yusuf Nuristani, chefe da Comissão Eleitoral Independente. A falta de urnas de votação, porém, também ameaçou a legitimidade da eleição, uma vez que vários eleitores se sentiram desprivilegiados. Em uma escola na região leste de Cabul, centenas de homens que não conseguiram votar dispararam sua raiva contra o fechamento das urnas. "Isso é fraude", disse Matiullah, de 27 anos. "Chegamos aqui para escolher nosso líder e não conseguimos, nunca aceitaremos isso", completou.

Se bem sucedida, a eleição marcará a primeira transição democrática de poder na história sangrenta do Afeganistão. Muito depende do desenrolar das eleições: uma votação vista como legítima é necessária para a continuidade da ajuda internacional uma vez que o mandato da coalizão liderada pelos Estados Unidos acaba em dezembro.

A eleição anterior, em 2009, foi marcada por fraudes. Com a meta de prevenir uma repetição destes problemas, a comissão eleitoral limitou o número de cédulas a 600 por ponto de votação. Embora a comissão tenha acumulado cédulas reservas, elas se provaram insuficientes. A falta cédulas deste sábado "ofusca a eleição", na avaliação de Jonas Westerlund, que lidera o time de transição do governo sueco estabelecido no norte do Afeganistão.

Nenhum dos três candidatos à presidência - o ex-executivo do Banco Mundial Ashraf Ghani e dois ex-ministros de Relações Exteriores, Zalmai Rassoul and Abdullah Abdullah - devem conquistar a maioria dos votos deste sábado. A eleição deve ser levada a um segundo turno, o qual deve ocorrer no final de maio ou início de junho.

A divulgação de resultados oficiais ainda deve demorar seis semanas, mas a contagem de votos começou logo após o fechamento das urnas. Em cinco postos de contagem visitados pelo The Wall Street Journal, Abdullah and Ghani estavam na liderança, mas o dado ainda é inicial e pode não refletir a preferência de outras regiões.

Antes da votação, a comissão eleitoral fechou mais de 10% dos pontos de contagem pelo país alegando que os locais não eram seguros o suficiente. No sábado, outros 221 centros, representantes de 3% do total não puderam abrir.

Ataques

"Estou aqui para votar e não tenho medo dos ataques", disse Haji Ramazan na fila de um centro de votação debaixo de chuva em Cabul. "É meu direito, e ninguém pode me impedir".

Os Estados Unidos podem apontar para o avanço democrático em um dos países mais violentos do mundo como um "sucesso" enquanto se preparam para retirar a maior parte de suas tropas até o final do ano.

Depois de gastar 90 bilhões de dólares em ajuda e treinamento de segurança desde que ajudaram as forças afegãs a derrubar o severo regime do Taliban em 2001, os EUA viram seu apoio para a luta contra o grupo terrorista diminuir.

Durante as eleições deste sábado, houve dúzias de relatos de bombas de beira de estrada, ataques a centros de votação, delegacias e eleitores, mas não houve ataques de grande escala do Taliban, que classificou o pleito como uma farsa apoiada pelos EUA e prometeu impedi-la.

Na província oriental de Kunar, dois eleitores morreram e 14 ficaram feridos, enquanto 14 militantes do Taliban foram mortos. O ministro do Interior, Umer Daudzai, disse que nove policiais, sete soldados, 89 combatentes do Taliban foram mortos nas últimas 24 horas em todo o país, acrescentando que quatro civis também foram mortos.

Muitas pessoas esperavam que a eleição corresse melhor do que a votação caótica de 2009, que deu a Hamid Karzai seu segundo mandato. A Constituição impede Karzai de buscar um terceiro mandato, mas depois de 12 anos no poder muitos creem que ele manterá sua influência graças a políticos leais.

Os ex-ministros das Relações Exteriores Abdullah Abdullah e Zalmay Rassoul e o ex-ministro das Finanças Ashraf Ghani são vistos como os favoritos para suceder Karzai.

Se não houver um vencedor claro, os dois melhores colocados disputarão o segundo turno em 28 de maio, estendendo o processo até o mês sagrado do Ramadã, quando a vida quase cessa no país de maioria muçulmana.

Atraso

Um atraso grande deixaria pouco tempo para finalizar um pacto entre Cabul e Washington para manter até 10 mil soldados norte-americanos no paíse depois de 2014.

Karzai rejeitou o pacto, mas os três candidatos melhor classificados prometeram assiná-lo. Sem ele, as forças afegãs, muito mais fracas, teriam que combater o Taliban sozinhas.

As relações de Karzai com os EUA se tornaram cada vez mais tensas nos últimos anos à medida que o número de baixas dos conflitos aumentava, e ele expressou frustração por Washington não pressionar o Paquistão o suficiente para deter o Taliban, que tem suas bases na fronteira entre os dois países.

Embora sua saída seja um ponto de inflexão, nenhum de seus possíveis sucessores trará mudanças radicais, dizem diplomatas.

"É ilusão, acredito, pensar que a eleição será o grande evento transformador que todos esperam", disse Sarah Chayes, especialista do sul da Ásia do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, em uma coletiva de imprensa na véspera do pleito.

(Com Estadão Conteúdo e Reuters)