VIRAL

'Tentei ler outras vezes para ver se era isso mesmo', diz universitária chamada de preta, macaca e safada

06/04/2014 12:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02
Reprodução/Facebook

O racismo cordial no Brasil, com piadas e gracejos que desqualificam os negros, às vezes toma dimensão de ódio. Nesta semana, a universitária Tais Telles, 26, foi chamada de "preta", "macaca" e "safada". Avisada por um amigo, ela leu as ofensas racistas atrás da porta de um banheiro do departamento de geografia na Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Presidente Prudente.

"Quando eu vi, fiquei em estado de choque de não acreditar. Tentei ler outras vezes para ver se era isso mesmo", contou Tais ao Brasil Post. A agressão ocorre exatamente no primeiro ano de vigência das cotas raciais na Unesp. O vestibular do começo de ano reservou 15% das vagas para negros, índios e alunos de escolas públicas.

Apesar de ter sido a primeira vez que foi vítima desse tipo de discriminação, a estudante do 4º ano de geografia defende que esse episódio não é pontual no Brasil. "Sim, as diferenças existem; não adianta dizer que não tem diferença [de cor, de raça]", afirma a universitária que participou da criação do Coletivo Mãos Negras, na Unesp, em agosto do ano passado. "As particularidades não têm que ser 'toleradas', mas sim respeitadas."

Leia a íntegra da entrevista.

Brasil Post: Como você soube das agressões racistas? Você viu ou alguém que contou?

Tais Telles: Um colega meu disse que tinha uns escritos a meu respeito no prédio da geografia. Ele estava muito nervoso, mas não falou o que tinha escrito. Eu não imaginei que fosse algo desse tipo. Entrei no banheiro feminino para ver e, no segundo box, estava meu nome com as palavras "preta", "safada", "macaca". Na hora, já tinha uma aglomeração, algumas colegas minhas já estavam no banheiro.

Qual foi a sua reação?

Quando eu vi, eu fiquei em estado de choque de não acreditar. Tentei ler outras vezes para ver se era isso mesmo que estava escrito. Justamente por ser uma das primeiras pessoas que puxaram essa discussão [de racismo] na Unesp [com o Coletivo Mãos Negras], fiquei paralisada uns cinco minutos olhando para aquilo.

tais

Já tinha sofrido racismo antes?

Dessa forma, não. Racismo no Brasil é complicado porque se manifesta de outras formas, com piadas racistas, olhares de discriminação em espaços públicos. A partir do momento em que você se coloca esteticamente como preta – que é assumir seu cabelo como é, se assumindo como preta –, o racismo vem em forma de piada, olhares, risos. Mas nunca sofri dessa forma tão explícita. E dentro da universidade.

Você sempre usou o cabelo black, nessa estética "sou negra", ou foi só depois que entrou na Unesp?

Desde antes [da faculdade], eu usava. Mas não como proposta de afirmação política. Foi dentro do espaço acadêmico que isso veio como ponto de afirmação. Porque eu não me sentia representada na universidade. Infelizmente, o número de negros ainda é pequeno. Os negros que entram, boa parte deles, eu acredito que não conseguiram romper com o racismo cordial que existe dentro do espaço acadêmico.

tais

Que exemplos de racismo cordial você encontrou dentro da universidade?

O coletivo recebe vários tipos de denúncia. Como um professor que fala em aula que não terá problema porque não tem "nenhum pretinho" em classe. Ou alguns docentes que não permite o uso de autores africanos nos trabalhos de alunos por dizer que eles "não são reconhecidos". E assim se mantém essa produção acadêmica com visão eurocêntrica. Eu faço licenciatura em geografia e, até agora, não tive nenhuma aula sobre África ou cultura afrobrasileira. Desde 2003, o ensino da história da África é obrigatório nas escolas [devido à Lei 10.639]. É um assunto que não é debatido em sala.

Como foi a criação do Coletivo Mãos Negras da Unesp? Teve relação com a implementação das cotas raciais e sociais?

A partir do momento que a Unesp decidiu adotar as cotas, integrantes do movimento estudantil começaram a fazer reuniões periódicas sobre a política de ações afirmativas. Estávamos preocupados especialmente com a permanência dos alunos negros e de escolas públicas. Uma de nossas bandeiras é fazer a universidade garantir meios de o aluno permanecer na universidade.

Que ações o coletivo empreendeu nesse período?

No fim do ano passado, conseguimos organizar o primeiro seminário sobre consciência negra da Unesp. Trouxemos professores, especialistas de várias partes do País, para tratar da valorização da mulher negra na sociedade brasileira. Também fizemos uma reunião aberta neste ano sobre cultura negra e combate ao racismo. Daí, em menos de três semanas, aconteceu isso…

O que você acha que levou uma pessoa a fazer essas ofensas racistas contra você?

Essa pessoa não quis só ofender a Tais; quis mostrar a indignação com a proporção que esses assuntos [questões étnico-raciais] estão tomando na universidade. Antes da gente, não existia um coletivo autônomo para debater questão racial na Unesp. E mesmo em Presidente Prudente. É um incômodo. Tem a ver com as pessoas estarem se sentindo incomodadas com esse assunto.

Conseguiu registrar na polícia o crime como racismo?

Passei a tarde de quarta na delegacia tentando registrar crime de racismo. Mas, de acordo com a lei, eu teria que identificar o autor e provar que ele tinha o intuito de me discriminar pela raça. Como não sei quem é, não consegui isso. Acabei indo para a delegacia da mulher. Só pude registrar como calúnia e difamação.

Mas não há dúvidas de que seja racismo…

É claramente racismo. O problema é uma lei de mais de 25 anos que criminaliza o racismo e não é aplicada. É a mesma coisa quando uma mulher apanha do marido e é orientada a não registrar queixa. São as brechas da lei do que é um crime racial.

unesp

Como tem sido o apoio recebido pela Unesp?

A geografia parou. Grupos de pesquisa pararam em solidariedade a mim. Fui à direção da universidade, que se mostrou pronta e disposta a apurar os fatos. Aconteceu esta semana comigo, mas pode acontecer por trás de paredes e com outras pessoas que não levam isso adiante. A universidade tem que ter responsabilidade social de combater e diminuir o racismo.

Muitos críticos das ações afirmativas e das políticas de diversidade racial, que reconhecem brancos e negros, fazem menção a uma entrevista do ator Morgan Freeman, de 2006. O ator, que é negro, diz que a solução para o racismo é parar de falar sobre isso. Brancos parariam de falar em "negros", e vice-versa. Qual é a sua opinião a respeito?

Eu acredito que se encarar o que eu sofri como fato pontual, vou entender isso como uma ofensa para Tais. Mas eu tenho consciência da situação da minha universidade e da sociedade brasileira. O que existe é uma discriminação de várias pessoas com pobres, negros, que estão entrando na universidade. Isso está incomodando. Nós [negros] somos diferentes, sim. As diferenças existem; não adianta dizer que não tem diferença [de cor, de raça]. Mas as particularidades têm que ser respeitadas e não "toleradas". Não podemos cair apenas no discurso da tolerância. Respeitar o outro é respeitar as diferenças.

mapa negros

Fonte: Ipea, 2013