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Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas completa dez anos comemorando resultados

24/03/2014 18:38 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:13 -02
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A Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas completa dez anos em 2014 com muito a comemorar. A competição que inicia no dia 21 de maio conta com apoio da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) e com recursos do Ministério da Educação e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Os números do crescimento da Olimpíada são animadores, mas, na avaliação da própria organização, ainda há o que ser conquistado para que o quadro da matemática brasileira esteja no patamar de países desenvolvidos

A prova é dividida em três níveis e feita em duas fases. No último ano, foram inscritos 18,7 milhões de alunos na competição, que registrou número recorde de estabelecimentos de ensino envolvidos, com mais de 47 mil escolas de 99,35% dos municípios brasileiros. Foram 6 mil alunos premiados com medalhas (500 medalhistas de ouro, 900 medalhistas de prata e 4.600 medalhistas de bronze) e cerca de 46.200 ganhadores de menções honrosas.

Os 6 mil medalhistas foram convidados a participar do Programa de Iniciação Científica vinculado à OBMEP. Em 2014, serão 6.500 medalhistas (500 medalhistas de ouro, 1.500 medalhistas de prata e 4.500 medalhistas de bronze), além de 46.200 ganhadores de menções honrosas.

“Os testes são concebidos de forma a detectar alunos que tenham potencial para matemática. Queremos detectar alunos talentosos. As perguntas formuladas envolvem raciocínio, abstração e criatividade, não é necessário qualquer conhecimento formal sobre matemática”, explica Cláudio Landim, coordenador da OBMEP, e professor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Impa. “Foram feitos dois estudos, há três anos atrás, que mostram que as escolas que participam da OBMEP acabam tendo um desempenho melhor na Prova Brasil. Há também, um desempenho melhor no Enem. A Olimpíada cria um ambiente estimulante para que os alunos anualmente se esforcem para participar”.

Dentro deste quadro, um dado da OBMEP chama atenção: dentre os cinco municípios com o melhor desempenho na Olimpíada do último ano, nenhum possui mais do que 12 mil habitantes e quatro dos cinco ficam no interior de Minas Gerais. Há ainda outro ponto curioso: o município que pode ser considerado o “grande campeão” da Olimpíada, desde a sua criação, é Dores do Turvo, interior de Minas.

A cidade, segundo o último censo do IBGE, tem apenas 4.500 habitantes e já conseguiu levar, desde a criação da Olimpíada, 166 premiações na Olimpíada, sendo 10 medalhas de ouro, 10 de prata, 28 de bronze além de 118 menções honrosas.

O quadro de triunfo de municípios menores diante dos grandes centros urbanos do país tem uma explicação para Landim: “no interior o professor ainda goza de uma espécie de ‘status’ social, é uma referência para as pessoas que moram por lá. Nas cidades maiores, os professores acabam tendo outro tratamento, o que desestimula a prática da profissão e acaba afetando também o desempenho dos alunos”.

Os excelentes números da Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas, porém, são apenas mais uma das iniciativas para melhorar o péssimo retrato atual da educação do país. O Brasil teve no último ano, a maior evolução do desempenho em matemática no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês) desde 2003. Porém, mesmo com a melhora de rendimento, o Brasil está abaixo da média mundial, na 57ª posição do ranking. “O Brasil já avançou muito com a OBMEP no ensino da matemática, mas ainda é preciso que maiores esforços sejam feitos por todos os agentes da educação para que o Brasil atinja o nível de excelência que outros países apresentam. Isso não apenas na matemática” avalia Cláudio Landim.

Novas perspectivas

Os dez anos de história da Olimpíada possuem casos curiosos de como a matemática conseguiu transformar a vida de muitos alunos, professores e cidades.

A cidade de Cocal dos Alves, no interior do Piauí, é um destes exemplos. Com menos de 5.000 habitantes e um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano do país, a escola é a segunda em desempenho na OBMEP, atrás apenas de Dores do Turvo. Antônio Cardoso, professor da rede pública do município, conta que a participação na competição ajudou a mudar a perspectiva de vida de muitos alunos da cidade.

“Participar da competição, aqui, significa muito. Não pelas medalhas, mas pelas bolsas e programas que a competição dá acesso. Ter um bom desempenho na Olimpíada de Matemática significa uma maneira de deixar Cocal dos Alves para cursar uma faculdade” explica Antônio. “E as áreas escolhidas pelos alunos não são sempre ligadas à matemática. A Olimpíada abre muitas portas” completa.

A história da OBMEP tem muitos professores engajados no ensino da matemática. O caso de Jonilda Alves é um deles. Lecionando no município de Paulista, interior da Paraíba, desde 2002, a professora tem um método de ensino que traz a matemática para dentro da vida dos alunos.

Dentre as muitas histórias de estudantes que seguiram carreira acadêmica por conta da Olimpíada de Matemática, a de Gérson Tavares chama atenção.

Filho de um vidreiro aposentado e de uma dona de casa, Gérson foi premiado com medalha de ouro em todas as edições da Olimpíada que participou, sendo o primeiro tetracampeão da OBMEP em dez anos da competição. Gérson, que sempre estudou na rede pública de São Paulo, ingressou em 2009 no curso de engenharia elétrica da Universidade de São Paulo. Graduou-se no último ano e já trabalha na área.

Para o engenheiro, a OBMEP “foi o maior incentivo de toda a vida escolar”. Gérson conta com carinho do impacto da Programa de Iniciação Científica do qual participou após as medalhas de ouro: “A matemática apresentada é totalmente diferente da aprendida na escola, com problemas instigantes e curiosos. Do ponto de vista social, foi importantíssimo também. Fiz diversos amigos, sendo muitos deles grandes amigos que tenho até hoje. O ambiente de estudo de matemática e a reunião de jovens com objetivos e gostos em comum têm uma influência muito positiva em todos”.