NOTÍCIAS
18/03/2014 08:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:13 -02

Crise PT x PMDB: até onde vai a coragem dos "rebeldes" da Câmara?

DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO

Ser governo é uma realidade do PMDB desde o fim do regime militar, em 1985. Tal fato demonstra não só a relevância e capilaridade da legenda, mas também o quão diverso é o universo peemedebista. Com esse cenário, esperar unidade completa do partido é pedir demais. Contudo, na mais recente crise entre PT e PMDB na base governista, a grande questão é: até onde vai a coragem dos “rebeldes” peemedebistas, mais notadamente na Câmara Federal?

“Estou vendo tudo com uma certa perplexidade. Não estou muito seguro do que vai acontecer não (...). O grande problema que existe é em relação ao PMDB e eu não sei até que ponto está disposto a “botar para quebrar”. Isso não é muito da psicologia do PMDB”, diz o cientista político Fábio Wanderley Reis, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A análise de Reis colide com as reais intenções do “blocão”, grupo liderado pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e que reúne parlamentares descontentes com os rumos das relações com o Palácio do Planalto. Como bem relembra o pesquisador Marco Antônio Teixeira, do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), Cunha conseguiu aglutinar a seu redor todas as insatisfações de aliados da presidente Dilma Rouseff na Câmara, tornando-o peça central no quebra-cabeça das negociações para pôr fim à crise.

“Aquela dimensão que o ‘blocão’ tomou foi assustadora. A oposição pegou carona nesse processo para, de certa forma, aumentar o desgaste do governo. A turma do ‘deixa disso’ já entrou em ação e o tamanho do blocão diminuiu significativamente, mas ainda representa uma linha de risco ao governo. Essa reunião com a cúpula do PMDB tem por objetivo minimizar esse descontentamento, mas parece, de certa forma, tem que ser uma ação que possa reduzir [o problema] ao menor grau possível. Não é possível contentar todo o PMDB, da forma que ele é”, avalia Teixeira.

A reunião citada pelo pesquisador é a que envolveu Cunha, o vice-presidente da República, Michel Temer, a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Em debate, uma saída para a crise. Com o Marco Civil da Internet mais uma vez na pauta da Câmara – primeiro da lista em caráter de urgência constitucional, trancando a pauta da Casa – nesta terça-feira (18), o governo quer ver a questão votada, mas apenas se não for correr riscos. Talvez um problema tão complexo demande mais tempo, na visão de Wagner Iglecias, doutor em Sociologia e professor de Gestão de Políticas Públicas da USP.

“Sobre o Marco Civil da Internet, não bastassem os poderosos lobbies todos que estão atuando para que ele seja votado desta ou daquela maneira, ainda temos essa possibilidade de este tema ser usado nesse cabo de guerra entre os parlamentares rebelados e o governo. É uma temeridade, dada a importância, a complexidade e as consequências envolvendo a votação do Marco Civil desta ou daquela maneira”. Teixeira concorda. “Acredito que o governo vai tentar ganhar mais tempo para ter algum grau de segurança nessa discussão”.

Parlamentares podem atacar governo em outras frentes

Além da discussão em torno do Marco Civil, deputados e senadores analisam em conjunto, a partir das 19h desta terça-feira, um total de 12 vetos presidenciais. O mais polêmico deles diz respeito ao projeto que facilitava a criação de municípios no País. A presidente Dilma Rousseff, em sua mensagem ao Congresso, justificou o veto por conta do texto contrariar o interesse público, uma vez que os 400 municípios que poderiam ser criados poderiam trazer despesas, sem a criação de novas fontes de receita.

Outros vetos feitos pela Presidência, como em pontos da minirreforma eleitoral, aprovada pelo Congresso em novembro, também podem acirrar os debates. Em comum, o temor por parte da base governista de que os “rebeldes” causem problemas durante essas discussões. Entretanto, se no Marco Civil da Internet o grupo formado por Eduardo Cunha promete votar integralmente contra o projeto do governo, preferindo também incluir uma emenda em favor das empresas telefônicas, na discussão dos vetos não é uma missão simples aos descontentes votarem contra o governo.

“Veto presidencial vai depender da matéria, até porque fisiologismo tem um certo limite e há temas que são muito caros a cada um dos grupos que apoiam os deputados... Eu falo grupos de interesses. Você pode jogar contra o governo, mas quando convergem interesses de governo, de financiador de campanha, aí a questão fica mais profunda”, explica Marco Antônio Teixeira.

E qual é o caminho para o fim da crise? Os estudiosos consultados pelo Brasil Post apresentam pontos de vista distintos. Sem mais cargos em ministérios, a solução, na opinião de Wagner Iglecias, vai passar muito mais pelas negociações em torno de cargos em outros escalões da esfera federal. Ele não vê a possibilidade de que os pedidos de emenda dos parlamentares descontentes sejam atendidos.

“Sobre emendas parlamentares, o que se vislumbra é o contrário, ou seja, o governo, para fazer economia, pretende reduzir os recursos financeiros para elas (...). Mas há cargos, acho, nos demais escalões dos ministérios, que eventualmente podem ser utilizados como moeda de troca neste momento”, opina.

Marco Antônio Teixeira vê a questão das emendas de outra forma. “O que resta de certa forma [ao governo federal] é tentar atender a essas emendas, porque elas serão fator preponderante daqui para frente para que o governo não tenha problemas em um momento extremamente delicado”.

Já Fábio Wanderley Reis não vê vantagem aos rebeldes. Ele insiste em contestar a coragem dos peemedebistas em manter uma crise cujo desfecho desconhecem.

“Eu acho que se ela [Dilma] testa [os rebeldes] no jogo de teimosos, a tendência é que ela ganhe. Mas isso é uma aposta um pouco precária, em função do que a gente está vendo em certos indícios. Há um elemento importante de incerteza nesse momento. Acho que o que a favorece mesmo é esse aspecto: duvido muito que o PMDB vá para a briga pra valer, tendo em vista que, bem ou mal, está no governo, com ministério, então não me parece que deixarão isso para lá e irão para uma briga com destino incerto”.