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18/03/2014 17:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:13 -02

As histórias das vidas a bordo do avião desaparecido da Malásia

AP

Havia 12 tripulantes e 227 passageiros no avião da Malaysia Airlines que desapareu depois de 40 minutos de voo entre Kuala Lumpur a Pequim em 8 de março. Essas pessoas eram de diferentes partes do mundo: 14 nacionalidades que incluía países de origem como Nova Zelândia, Irã, EUA e Indonésia. No entanto, dois terços dos passageiros são chineses. Confira as histórias de algumas pessoas que estavam a bordo.

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Capitão experiente

O piloto do avião, Zaharie Ahmad Shah, 53 anos, começou a trabalhar na Malaysia Airlines em 1981 e tinha mais de 18.000 horas de experiência de voo. Quem conhecia Zaharie pelo seu envolvimento nos círculos políticos da oposição da Malásia e por outras áreas da sua vida o descreveram como sociável, humilde, empático e dedicado ao seu trabalho.

Sua página no Facebook mostra um entusiasta da aviação que construiu seu próprio simulador de voo em casa com sua aeronave de controle remoto, postando fotos de sua coleção que inclui um helicóptero leve e uma aeronave ambiciosa.

Nascido no estado do norte de Penang, o capitão e avô era um entusiasta de faz-tudo e cozinheiro orgulhoso. Como parte do que ele chamava de “serviço comunitário”, ele postou vários vídeos no YouTube, inclusive como fazer aparelhos de ar condicionado mais eficientes para cortar gastos em contas de eletricidade, como fazer vidraças de janela à prova d’água e como reparar o congelador de uma geladeira. As atividades de Zaharie nas redes sociais mostram aprovação a pontos de vista ateístas, algo pouco comum na Malásia, que é predominantemente muçulmana.

A cabine da controvérsia

Descrito pelo imã de sua mesquita local como “um bom garoto” e pelos vizinhos como devoto, o co-piloto Fariq Abdul Hamid foi descrito como um playboy pela imprensa após a revelação de que ele e outro piloto convidaram duas mulheres a bordo de sua aeronave para sentar na cabine em um voo internacional em 2011. Durante a viagem, os pilotos fumaram e flertaram, disse uma das mulheres, a sul-africana Jonti Roos, em uma entrevista à Australia's Nine Network.

Fariq, 27, foi recentemente filmado por uma equipe da CNN Business Traveler e o repórter Richard Quest descreveu a experiência como um “pouso perfeito” de um Boeing 777-200, o mesmo modelo de avião que despareceu.

Apesar do sucesso do pouso, Fariq tinha apenas 2.763 horas de voo no modelo. Um vizinho, Ayop Jantan, disse que Fariq estava noivo e planejando seu casamento. Primogênito de 5 irmãos, a carreira de Fariq era um orgulho para seu pai.

Destino final: Coreia do Norte

A professora de Química Kranti Shirsath tinha como destino a Coreia do Norte, via Pequim, para visitar seu marido Prahlad, que está para completar um contrato de três anos com a ONG Concern Worldwide. Ela planejava ajudá-lo a fazer as malas para a mudança à Índia, onde ela vivia com os dois filhos do casal na cidade de Pune.

Durante os últimos 17 anos, o casal viveu em vários países, inclusive Afeganistão e Tajiquistão, já que Prahlad firmava contratos com diferentes ONGs. Mas ela ficou para trás com as crianças quando ele aceitou o emprego na capital norte-coreana, Pyongyang.

Prahlad é um dos familiares que viajaram à Kuala Lumpur depois de saber que o avião sumiu. Depois de perder quatro dias na cidade, Prahlad viajaou a Pune para ficar com os filhos. “Além da inexistência de novidades sobre o avião, o que é ainda mais doloroso são as teorias da conspiração”, disse Prahlad Shirsath a repórteres em Pune.

Calígrafo premiado

O premiado calígrafo Meng Gaosheng, 64, liderava uma delegação de 24 artistas à Malásia para uma exibição de três dias chamada “O sonho chinês, um ode às cores”.

O trabalho de Meng é uma das coleções que está em exibição nos pontos mais turísticos de Pequim, como o memorial Mao Zedong e a Grande Muralha.

Em Kuala Lumpur, Meng passou a maior parte de seu tempo com artistas na exibição. Um dia antes de partir, no entanto, os artistas passearam por pontos turísticos clássicos da cidade, incluindo o palácio real e as Torres Gêmeas Petronas, que são os prédios mais altos da Malásia.

Segundo Xu Lipu, um artista que estava na viagem mas tomou outro voo de volta à China, Meng era um artista sábio e feliz de compartilhar suas ideias sobre teoria da arte com outros. Meng estava sempre encorajando outros artistas e elogiando seu trabalho, disse Xu.

Funcionário aposentado, artista apaixonado

Wang Linshi, 69, trabalhava para o governo chinês na cidade de Nanjing até se aposentar, mas sua paixão era a pintura, em especial galinhas e galos, segundo seu filho Wang Zhen. O pai viajava com o grupo de Meng Gaosheng's.

“Eu lembro de quando era criança, meu pai criava galinhas para ver como elas se comportavam para desenhá-las”, disse o filho.

A mulher de Wang Linshi, Xiong Deming, 63, também estava viajando no mesmo grupo. Wang Zhen descreveu a mãe como preocupada e doce, alguém que estava sempre tentando tomar conta dele.

Wang Zhen, um engenheiro, disse que desde seu casamento, há um ano, seus pais começaram a encorajar ele e a mulher a ter um filho. “Eles queriam um neto. Não se importavam se fosse menina ou menino, contanto que tivessem um neto”, disse.

A última vez em que Zhen teve notícia de seu pai foi quando eles trocaram mensagens de celular quando o pai estava no aeroporto internacional de Kuala Lumpur. Wang mandou uma mensagem para ver como estava seu pai. “A viagem foi um sucesso. Estaremos de volta amanhã à tarde. Um pouco ocupado demais para falar agora”, respondeu o pai.

Última viagem a trabalho para a China

A família de Philip Wood o viu no Texas antes do que deveria ser sua última viagem a trabalho à China como executivo da IBM. Wood, de 50 anos, recentemente conseguiu seu certificado de mergulho, uma de suas formas de satisfazer seu gosto pela aventura.

A família de Wood continua a acompanhar a investigação de sua casa em Keller, Texas. O irmão mais novo de Wood, James, disse na segunda-feira (17) que a família continua a rezar, apesar de estarem realistas quanto às chances de Philip sobreviver.

“Não acreditamos que ele voltará seguro para casa, apesar de ser o que esperamos que aconteça”, disse James Wood. “Acreditamos que tudo ficará bem”. Wood trabalhou em Pequim durante os últimos dois anos e estava fazendo sua última viagem à China, via Kuala Lumpur.

James Wood disse que seu irmão era uma pessoa aventureira que amava viajar e descobrir novos lugares, algo que ele amava em seu emprego. Ele era divorciado e tinha dois filhos crescidos, e um deles frequenta uma universidade do Texas.

“Posso dizer honestamente que ele vivia sua vida com plenidade”, disse o irmão.

Primeira viagem ao exterior

Maimaitijiang Abula, um professor de arte de 34 anos da região chinesa de Xinjiang, local dominado pela minoria étnica turca que fala Uighur, viajava para o exterior pela primeira vez e fazia parte do grupo de pintores e calígrafos que estavam na Malásia para a exposição.

O seu amigo próximo Yimamu'aishanjiang, disse à revista chinesa Nanfang People Weekly que o artista disse confidencialmente a ele que queria ser um mestre no estilo realista de pintura.

Maimaitijiang estava extremamente feliz com os frutos da Malásia: ele recebeu um prêmio, foi entrevistado por uma rede televisiva local e tinha uma de suas pinturas escolhida para ser exibida em uma galeria.

Outro amigo, Aiyin Abudu disse que Maimaitijiang começou a desenhar com seis anos de idade e sonhava que o mundo inteiro conhecesse Xinjian através de seu trabalho.

Pouco antes de embarcar no avião desaparecido, Maimaitijiang ligou para seu amigo para perguntar como ele estava. “Nós estamos na escola, aguardando seu retorno”.

Emprego novo na Mongólia

Paul Weeks, um engenheiro mecânico de 39 anos da Nova Zelândia, rumava para um novo emprego na Mongólia. Ele planejava voltar assim que possível para sua casa na cidade de Perth, na Austrália, onde estão sua mulher e dois filhos.

Antes de partir, ele deixou seu anel de casamento e relógio com sua mulher, Danica, por segurança, e disse a ela para dar a seus dois filhos, Lincoln, de três anos, e Jack, de 11 meses, caso alguma coisa lhe acontecesse.

Danica Weeks disse nesta terça (18) que está “sobrevivendo”, mas que estava muito chateada para falar algo. Em um post no Facebook no dia em que o avião desapareceu, ela escreveu “em um lugar onde nunca quis estar, tentando juntar forças por meus dois lindos meninos, sentindo a falta de meu querido com todo o coração”.

Paul Weeks foi entrevistado pelo jornal The Press, da Nova Zelândia, em 2012 sobre sua decisão de se mudar com a família da cidade de Christchurch, devastada por um terremoto em 2011, para a Austrália. “Eu considero nossa mudança uma necessidade, não uma escolha”, disse.

Engenheiro de aviação

Mohamad Khairul Amri Selamat, 29, um engenheiro de aviaão de uma companhia de jatos e pai de uma filha de 15 meses de idade, viajava a Pequim a trabalho. Sua presença no avião levou ao escrutínio depois que as autoridades da Malásia afirmaram que a rota do avião mudou e a interrupção da comunicação foi deliberada.

Mohamed Khairul recentemente havia se mudado para uma casa no subúrbio de Kuala Lumpur, e sua família planejava visitá-lo este mês quando ele voltasse de Pequim, segundo afirmou seu pai Selamat Omar.

Khairul ligou para seu pai na tarde de seis de março para avisá-lo para avisá-lo sobre a viagem e perguntar sobre sua saúde, já que Selamat é diabético. “As pessoas podem falar, mas eu conheço meu filho. É impossível ele estar envolvido em algo assim. Estou rezando muito para que o avião não tenha caído e para que ele volte logo”, disse Selamat.

Mania de ligar duas vezes

Chandrika Sharma sempre ligava para a mãe duas vezes antes de viajar. A primeira ligação era para dizer a ela sobre a viagem e perguntar se ela precisava de algo. A segunda ligação era para dizer que ela estava no aeroporto pronta para embarcar.

“Dessa vez também, Chandrika me ligou antes de partir para me lembrar dos meus remédios”, disse Shakuntala Sharma, de 88 anos, lembrando da última conversa com a filha em sete de março, antes do avião decolar.

Funcionária de uma ONG e também diretora do Apoio Internacional Coletivo de Pescadores, Chandrika tinha como destino final a Mongólia para uma palestra. “Ela sempre se preocupava com os pobres e oprimidos da sociedade”, disse a mãe.

Chandrika é casada e tem uma filha, uma estudante universitária que vive na capital da Índia. O marido de Chandrika, K.S. Narendran, um consultor de administração em Chennai, está confuso sobre como o avião pode simplesmente desaparecido.

“A gente fica com uma suspeita assustadora de que há mais do que está sendo divulgado. E se isso é verdade, que interesses estão em jogo?”