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17/03/2014 18:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:13 -02

Baleada, arrastada, morta: a tragédia de Claudia e a relação do morro com a Polícia Militar do Rio de Janeiro

Alessandro Costa/Agência O Dia/Estadão Conteúdo

Claudia foi baleada enquanto ia comprar pão para a família. Dois tiros derrubaram a auxiliar de serviços gerais, 38 anos, responsável pela educação de quatro filhos e quatro sobrinhos. Segundo a Polícia Militar do Rio de Janeiro, foi um tiroteio com criminosos do Morro da Congonha, em Madureira, zona oeste da capital fluminense. A PM levou-a, ferida, para o hospital. O porta-malas da viatura abriu, e Claudia ficou pendurada pela roupa no para-choque. Foi arrastada por 250 metros.

O vídeo da viatura da PM arrastando Claudia da Silva Ferreira foi revelado pelo jornal Extra. Mesmo com a tampa do veículo aberta, os policiais não pararam. A sucessão de incidentes que estão sendo investigados pela Corregedoria da PM provocou o luto de Madureira. Luto e revolta...

A comunidade está indignada com a forma como os policiais "socorreram" Claudia, sintoma de como eles dizem ser tratados pela Polícia Militar. O viúvo, Alexandre Fernandes da Silva, disse à Agência Estado que a mulher foi "tratada como bicho".

"Nem o pior traficante do mundo deveria ser tratado assim", emocionou-se o vigia de 41 anos. "Não teve troca de tiros com traficantes, só os PMs atiraram", acusou. A denúncia do viúvo acompanha o que revelou ao G1 o filho de 16 anos de Claudia. "Todos os dias, eles [os PMs] chegam atirando e depois vão ver quem é. Ela não deixava a gente ficar na rua com medo de acontecer alguma coisa, ou de confundirem a gente com traficantes", contou o adolescente.

madureira

Essa conduta dos policiais militares virou alvo de protesto nesta segunda-feira (17). Aproximadamente cem amigos, parentes e familiares de Claudia carregaram faixas pretas na principal avenida de Madureira. Bloquearam os dois sentidos da Ministro Edgard Romero para condenar esse tratamento de "bicho" que culminou com a morte da esposa, mãe, tia e trabalhadora, sem qualquer envolvimento com o crime.

Dois ônibus foram destruídos no domingo (16) à noite, já como resposta à morte. Moradores fizeram barricada também nesta segunda.

madureira

O tenente-coronel Cláudio Costa, relações-públicas da PM, disse à GloboNews que a corporação não tolera a forma como Claudia foi socorrida. "O ideal era que ela fosse no banco de trás, amparada por um policial – o que não aconteceu", informou.

Além da Corregedoria da PM, que está apurando a conduta dos policiais envolvidos, presos em quartel, a Polícia Civil abriu investigação. A 29ª DP quer saber qual foi a causa da morte de Claudia: o fato de ter sido arrastada ou os tiros.

Ação da PM na mira

Neste momento, o socorro prestado pelos policiais militares e a própria abordagem deles em uma intervenção em morro estão sob escrutínio. Se os moradores se queixam de tiros a esmo, sem uma identificação dos transeuntes pelos policiais, o Comando da Polícia Militar no Rio e a Secretaria de Segurança Pública devem investir em reeducação e treinamento dos pelotões. "Chegar atirando", como relatam moradores e familiares de Claudia, não parece compatível com a política de pacificações do Rio, iniciada em 2008 com a instalação da primeira Unidade da Polícia Pacificadora (UPP).

Se por um lado as UPPs afugentaram traficantes de drogas e reduziram índices de criminalidade locais, por outro lado, algumas comunidades resistem bastante a esse modelo de segurança pública, muitas vezes pelo histórico dos laços dos moradores com determinadas facções, que instituíram as regras de convivência diária. É o caso da Rocinha e do Alemão, onde PMs foram mortos recentemente.

Assim como o caso Amarildo, desaparecido no ano passado e dado como morto, a tragédia de Claudia expõe a difícil relação que ainda há entre a Polícia Militar, a comunidade da favela e o crime organizado. O poder público precisa aparar essas arestas para evitar a morte de trabalhadores, inocentes, que só querem criar os filhos com segurança e sair de casa pela manhã para comprar pão sem o risco de serem atingidos por um tiro.