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19/02/2014 10:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Onda de justiceiros no Brasil: quando a vítima se torna violenta

Montagem/Reprodução/Youtube

A onda de justiça com as próprias mãos está crescendo no País. Além do Rio de Janeiro, a polícia já registrou neste ano casos de criminosos espancados ou humilhados pelos cidadãos em Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e Goiás. Só nesta terça-feira (18), em Goiânia, três suspeitos, em circunstâncias diferentes, foram alvo da ira da população. Em um dos episódios, um adolescente de 16 anos que tentou roubar uma moto na cidade foi amarrado a grade e levou pontapé de um operário de obra.

No vídeo, é possível ouvir a indignação com o rapaz, traduzida em expressões como "vagabundo" e "tem que aprender". São ofensas que encontram eco no discurso da jornalista Rachel Sheherazade, do SBT, leniente com a ação dos chamados justiceiros do Rio de Janeiro, que torturaram e prenderam um rapaz pelo pescoço a um poste na região do Flamengo. O jovem negro estava nu e teria sido vítima da agressão por fazer vítimas no Aterro, onde praticava roubos.

No editorial, Sheherazade disse que "a atitude dos vingadores é compreensível". Ao criticar a omissão do Estado e a desmoralização do polícia, ela disse considerar o ataque ao "marginalzinho" um ato de legítima defesa. "O que é que resta ao cidadão de bem, que ainda por cima foi desarmado? Se defender, é claro", argumenta.

É a mesma opinião demonstrada por políticos de linha mais agressiva em relação à redução da maioridade penal. Em entrevista ao Brasil Post, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) condenou os parlamentares empenhados na defesa dos direitos humanos de menores e de presos. "Esse menorzinho não comete crime na favela porque lá tem pena de morte", acredita. "Já o menor vem aqui cometer crime no asfalto porque tem gente para defender esses caras."

Essa radicalização no discurso e no comportamento de brasileiros foi criticada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Goiás. Em entrevista à Globo News, exibida nesta quarta-feira (19), o presidente da OAB-GO, Henrique Tibúrcio, interpretou os ataques em Goiânia como resultantes da falta de descrença da população nas leis, na polícia e na Justiça. "Mas a resposta não é essa [agredir bandidos]", ponderou.

O doutor em ciências sociais da Universidade de Brasília Alexandre Rocha avalia que os justiceiros tentam resgatar "o ideal de justiça perdido". "Uma vez que o Estado, responsável pela manutenção da segurança pública, não está chegando da forma adequada, surge o ideal do justiceiro", disse o pesquisador à Agência Brasil.

No caso de Sidrolândia (MS), a 60 km de Campo Grande, o dono da casa invadida por um bandido disse que agiu "por instinto" no domingo (16). Assim, justificou ter agredido e amarrado a um poste o assaltante Antônio Mendes Sá, de 38 anos, conhecido na cidade como Maninho. Ele apanhou do proprietário do imóvel e de vários vizinhos. O rosto ficou desfigurado.

Será que agir "por instinto" não pode comprometer ainda mais a segurança das pessoas? Humilhar e amarrar ao poste os bandidos não pode estimular o ódio e a vingança deles? A reação das vítimas não aumenta o risco de um desfecho trágico para todos os envolvidos?

Para o sociólogo da UnB Antônio Flávio Testa, a situação pode piorar. "O Estado está muito debilitado. A tendência é esse tipo de manifestação [de justiceiros] aumentar, devido à insatisfação da sociedade, pela legislação ser muito leniente com determinados tipos de criminosos", disse o especialista à Agência Brasil.