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Pesquisa revela dados alarmantes sobre abusos sexuais contra mulheres

12/02/2014 12:44 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02
Thinkstock

Uma em cada 14 mulheres já foi – ao menos uma vez em sua vida – vítima de abuso sexual por alguém que não é seu parceiro.

A informação é resultado de um estudo realizado em 56 países e publicado nesta quarta-feira (12) na revista The Lancet, uma das publicações científicas mais respeitadas na área de saúde pública.

No entanto, a própria publicação sublinha que o medo de ser responsabilizada e a falta de apoio de família, amigos e serviços públicos leva a um número menor de denúncias e afeta a ajuda que deveria ser dada às vítimas. Além disso, sabe-se que a forma mais comum de violência contra a mulher é perpetrada por um parceiro íntimo, segundo a ONU.

“A violência contra as mulheres não está confinada a uma cultura, uma região ou um país específicos, nem a grupos de mulheres em particular dentro de uma sociedade. As raízes da violência contra as mulheres decorrem da discriminação persistente contra as mulheres”, afirma a ONU.

Na pesquisa apresentada pela Lancet, os autores afirmam que a situação varia muito de país para país. Enquanto na Região Central da África Subsaariana a taxa de mulheres vítimas de abusos chega a 21%, na Ásia a média é de 3,3%. A média mundial de mulheres com 15 anos ou mais que dizem ter sido atacadas sexualmente por alguém que não é seu parceiro é de 7,2%.

O estudo, realizado em parceira com a Organização Mundial de Saúde (OMS), foi realizada com base em estudos publicados entre 1998 e 2011, recolhendo 412 estimativas em 56 países. Na introdução, os autores do estudo citam os casos de estupro coletivo de mulheres jovens na Índia e na África do Sul. De 2012 para cá, os casos reverberaram na imprensa e provocaram comoção popular, especialmente na Índia, onde ocorreram uma série de manifestações.

Violência - Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam para uma situação mais sombria se for levado em consideração o número de mulheres vítimas de violência em geral. Cerca de 70% das mulheres do mundo sofrem algum tipo de violência no decorrer de sua vida, diz a organização. Em todo o mundo, uma em cada cinco mulheres será vítima de estupro ou tentativa de estupro, calcula a ONU.

A violência sexual contra as mulheres é vista como uma questão de saúde pública no mundo. Mulheres com idades entre 15 e 44 anos correm mais risco de serem estupradas e espancadas do que de sofrer de câncer ou acidentes de carro.

“A violência sexual contra a mulher é comum no mundo inteiro, com níveis endêmicos em algumas áreas, apesar de que as variações entre as definições precisam ser interpretadas com cuidado por causa da diferença de dados disponíveis. No entanto, nossos resultados indicam uma preocupação urgente de saúde e direitos humanos”, diz a pesquisa.

Situação nacional - No Brasil, a situação também é alarmante. Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgado em 2013 estima que o Brasil registrou entre 2009 e 2011 quase 17 mil mortes de mulheres por conflito de gênero, o chamado feminicídio, que acontece pelo fato de ser mulher. Ou seja, 5.664 mulheres são assassinadas de forma violentada por ano ou uma a cada 90 minutos*.

O Ministério da Saúde revelou em 2013 que o SUS (Sistema Único de Saúde) recebeu em seus hospitais e clínicas em média duas mulheres por hora com sinais de violência sexual em 2012. Isso sem contar o sistema privado de saúde. Segundo a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, Eleonora Mnicucci, disse à BBC Brasil, em 60 ou 65% dos casos o agressor é um conhecido da vítima.

Também no ano passado o think tank Think Olga mobilizou a campanha Chega de Fiu Fiu em combate ao assédio sexual contra as mulheres em espaços públicos. A pesquisa da campanha revelou que 83% das mulheres entrevistadas não acham que cantada é algo legal, mas apenas 27% delas responderam às investidas. Das 7.762 mulheres entrevistadas, 98% receberam cantada na rua, 80% em espaços públicos como parques e shoppings, 64% em transportes públicos e 33% no trabalho.

Enquanto isso, foi divulgado nesta quarta-feira por meio de assessoria de imprensa que a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu proteção com base na Lei Maria da Penha a uma mulher que temia ser vítima de violência, antes de uma ocorrência e sem um inquérito policial. Segundo a assessoria do tribunal, foi o primeiro caso desse tipo decidido pelo STJ.

* Correção: anteriormente, estava escrito "15 mortes a cada 90 minutos", o correto é uma.