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11/02/2014 09:00 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

Jair Bolsonaro: 'Feliciano e eu entramos para a História'

Luis Macedo / Câmara dos Deputados

Movimentos sociais estão assombrados com o fortalecimento do nome do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Nesta terça-feira (11), líderes de partidos e bancadas negociam como será a composição das comissões da Câmara dos Deputados. Ao Brasil Post, Bolsonaro diz que a dobradinha dele com Marco Feliciano (PSC-SP), atual presidente da comissão que pretende apoiá-lo, está "do lado do povão".

Uma de suas prioridades será a aprovação da redução da maioridade penal, sem se importar com as condições do sistema carcerário. Em entrevista feita por telefone na sexta-feira (7), Bolsonaro admite que não lhe incomoda o assassinato de mais de 60 presos na penitenciária de Pedrinhas, em São Luís (MA), desde 2013. "Eu acho Pedrinhas o melhor presídio do País. Lá é lugar de você pagar seus crimes", crava.

Bolsonaro também detalha sua proposta de planejamento familiar, critica a agenda do movimento gay – "eles querem privilégio" – e diz que vai ignorar demandas de ordem racial. Leia a íntegra da entrevista, com alfinetadas para diversos políticos de esquerda.

Brasil Post: Se o PP ficar com a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, quais as principais propostas que o senhor pretende tocar?

Jair Bolsonaro: Estão para ser votadas no Congresso umas 30 propostas de emenda à Constituição (PECs) que tratam da redução da maioridade penal, dos 18 para os 16 anos. A comissão deve ouvir pessoas que sejam favoráveis a isso e também familiares das vítimas dos menores. Qualquer pesquisa mostra que, não interessa a classe social, 90% dos brasileiros são favoráveis à redução da maioridade penal.

Nesse caso, a abordagem que o senhor dá é de respeito aos direitos humanos das vítimas ou familiares de vítimas de crimes de menores. E não aos direitos dos adolescentes infratores...

Eu acredito que uma aprovação de PEC da redução da maioridade penal serve como uma prevenção... Esse menorzinho não comete crime na favela porque lá tem pena de morte, como você viu em Belford Roxo agora [onde um suposto ladrão da vizinhança foi executado; o vídeo foi publicado na internet]. O cara cometeu crime, nego vai lá e mata. Já o menor vem aqui cometer crime no asfalto, porque tem gente para defender esses caras; tem um Marcelo Freixo, um Chico Alencar, uma Benedita da Silva, um Jean Wyllys [deputados federais]...

Mas, com a redução da maioridade penal, não piora a situação dos presídios superlotados?

Tenho uma máxima: prefiro presídio cheio de vagabundo do que (sic) um cemitério cheio de inocente.

Pedrinhas é o melhor presídio do Brasil. Lá é para pagar crime

Jair Bolsonaro, sobre cadeia maranhense onde mais de 60 morreram desde 2013

Mas o senhor viu aí mais de 60 assassinatos de detentos em 2013 e neste início de ano no presídio de Pedrinhas, no Maranhão?

Se você prometer não desligar o telefone, eu vou lhe dar a minha opinião sobre Pedrinhas.

Por favor, deputado, dê sua opinião.

Eu acho Pedrinhas o melhor presídio do Brasil. Lá é lugar de você pagar seus crimes. Muitos presos que foram decapitados lá, ninguém quer saber a ficha criminal deles. É por isso que elogio a ação da PM no Carandiru. Daqueles 111 mortos, eu pedi a ficha criminal de alguns. Levantamos umas 15 fichas, cada um deles com 20 e poucos homicídios… Quer dizer, é gente que não tem como se recuperar. A mídia tem que mostrar o presídio brasileiro para inibir quem quer cometer um crime, para ele saber o que ele vai passar caso ele vá pra lá.

Mas deveria haver as mínimas condições humanas em um presídio, deputado…

Olha, se você pegar o projeto de lei 2230/2011 [que institui o estatuto penitenciário nacional], você vai cair para trás. Tem coisas como: a criação do dia nacional do encarcerado; a garantia de alimentação de boa qualidade para o preso, preparada por nutricionais; creme hidratante, xampu e condicionador para o preso; a garantia da não divulgação da fotografia do preso; e direitos políticos a todos os presos enquanto sua sentença não transitou em julgado.

Superlotação de presídio, então, é importante para a sociedade?

Tem que fazer muita força para ir para dentro do presídio. Tem que estuprar, sequestrar, matar, roubar. Você está quase pedindo aquilo. Não dá mais o discurso da deputada Benedita da Silva, que defende "o menor excluído da sociedade, pobre, só porque estava praticando pequenos furtos". No dia seguinte, o vagabundo admite que participou de assalto à mão armada. Ele podia ter matado uma pessoa. Aí vêm as críticas à garotada de classe média, que agora é chamada de "justiceiro"!

bolsonaro

Não é estranho um postulante à Comissão de Direitos Humanos no Parlamento brasileiro defender a ação desse pessoal que acorrentou o jovem negro no Rio?

Se meu celular é furtado, vou ficar puto, mas compro outro hoje mesmo. Se pega um garoto que trabalhou o ano todo e é furtado, o cara tem que trabalhar o ano todo de novo. Isso é muito sério para quem é mais humilde… Quanto mais se dá direitos humanos para quem transgride a lei, mais o criminoso fica à vontade para continuar com suas práticas.

Além da redução da maioridade penal, quais são suas outras propostas?

A mais importante de todas é: nós temos que ter uma política de planejamento familiar. Nós crescemos quase três milhões de habitantes por ano no Brasil. Não temos como dar vazão a essa multidão. O PT, com a Dilma, estimulou a paternidade irresponsável com bolsa Carinhoso [Brasil Carinhoso, programa do governo federal]. E está estimulando uma mulher pobre sem cultura: vai, pode fazer filho, ter quantos quiser, temos aqui Bolsa Família, creche, bolsa Carinhoso…

Não vou estimular o cara ser gay pra não ter filho. E tem gay que conheço que tem filho... Tem um ex-gay aí, o pastor Robson, um escurinho, que tem filho. Ele tem três ou quatro filhos dele

Jair Bolsonaro, sobre a agenda da comunidade gay

Como seria sua política de planejamento familiar para as famílias brasileiras?

Hoje em dia, para se fazer laqueadura e vasectomia, você tem que ter três filhos ou 25 anos. Temos que reduzir essa idade ou o número de filhos. Se você tem 18 e não quer ter filho, você faz vasectomia. Claro que será facultativo, mas é necessário fazer uma campanha de esclarecimento.

Com essa prioridade para planejamento familiar, o senhor parece muito preocupado com as crianças sem perspectivas. Essa sua proposta não vai ao encontro da agenda da comunidade gay, que defende, por exemplo, a adoção de crianças por casais homossexuais? O que o senhor acha?

(risos) Não tem nada a ver. Não vou estimular o cara ser gay pra não ter filho. E tem gay que conheço que tem filho... Tem um ex-gay aí, o pastor Robson, um escurinho, que tem filho. Ele tem três ou quatro filhos dele.

bolsonaro

Já que a comissão também é das minorias, como o senhor vai tratar especificamente essas, os gays?

O direito que o gay tem é exatamente o mesmo que eu tenho. Se ele for agredido na rua, o agressor tem que ser punido da mesma forma que se qualquer pessoa for agredida. Um soco na cara de qualquer pessoa é a mesma coisa. Homicídio é homicídio.

Assim como o deputado Feliciano, o senhor vai trabalhar para impedir a criminalização do homofobia no Congresso?

Lógico. O que eles [gays] querem é privilégio. O Plano Nacional de Cidadania LGBT cria cota para professor gay no ensino fundamental. São 180 itens voltados para a comunidade gay. Um dos objetivos: descontrução da heteronormatividade por meio da distribuição de livros com as várias configurações de casais – hetero, homo – para o público infanto-juvenil. A minha briga é com o material didático... É isso que nós queremos pra nós?

Seu discurso não é muito de oposição à minoria gay para um parlamentar que vai representar minorias?

Se o cara quer fazer sexo, é problema dele. Se está feliz, vai [fazer sexo] onde quiser. Onde quiser, não. Entre quatro paredes; na frente dos outros, não.

Sou daltônico, eu não discrimino, todos somos iguais. Meu sogro é negão... É um mulatão queimado

Jair Bolsonaro, sobre demandas do movimento negro

E em relação às reivindicações do movimento negro?

Eu sou daltônico. Eu, como presidente da comissão, serei daltônico. Todos são iguais. Branco, negro, amarelo, azul… Não tem que existir cota. A cota rotula no cotista a marca da incompetência.

Mas os negros no Brasil já não são rotulados, não são discriminados?

Eu não discrimino. Eu sou casado, e meu sogro é o Paulo Negão.

Ele é negro? Ou só o nome?

Ele é negão (hesita)... É um mulatão queimado... Então, na comissão, sou daltônico. Todos somos iguais. As cotas não ressocializam, até porque quem entra pelas cotas é o filho do negro que tem condição, que fez cursinho por fora.

O senhor não percebe que tem poucos médicos, advogados e jornalistas negros? Eles são exceção… Isso não é produto da desigualdade racial histórica no País?

Eu não escravizei ninguém! Quem apreendia negro na África era o próprio negro. Os negros mantiveram muitos escravos negros após a assinatura da Lei Áurea. Eu vou naquela [frase] do ator Morgan Freeman: "o dia em que pararmos de nos preocupar com consciência negra, amarela ou branca e nos preocuparmos com consciência humana, o racismo deixa de existir".

Pegou mal para ele. Eu dei um empurrão, ele disse que levou soco. Acho que ele até tá com saudades de mim, quem sabe até apaixonado

Jair Bolsonaro, sobre desentendimento com senador Randolfe Rodrigues

Como está a relação do senhor com o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), depois que ele denunciou que o senhor o agrediu? Melhorou?

(gargalhadas) Fui absolvido por 11 a 0 na representação do PSOL contra mim [no Conselho de Ética da Câmara]. Que placar bonito. Aquela história… Se um cabo quer me impedir de entrar em quartel, se recebeu ordem superior, vou respeitar; ele é o sentinela, tem que cumprir a ordem. Mas um senador que fala em democracia dizer que não posso entrar no quartel?! Levou corretivo ali, né.

Não foi soco?

Foi corretivo… Pegou mal para ele. Eu dei um empurrão, ele disse que levou soco. Acho que ele até tá com saudades de mim, quem sabe até apaixonado.

Acha que a dobradinha Feliciano-Bolsonaro é imbatível… Vai entrar para a História do Congresso?

Já entramos para a História. Nós somos diferentes, nós estamos do lado do povão. Essa questão do beijo gay, rara foi a página que abriu espaço para comentários. Das poucas que abriram para comentários, 90% eram a nosso favor, a meu favor... Filho gay bonito é dos outros.

feliciano bolsonaro