COMPORTAMENTO
10/02/2014 19:12 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

Sinais de que o ciúme passou do limite

Divulgação Rede Globo

O relacionamento conturbado entre os protagonistas Laerte e Helena, da novela "Em Família", trouxe à tona uma questão sentimental bastante séria: qual é o limite entre o ciúme dito normal e o doentio? Entre os especialistas, a resposta é unânime: quando esse sentimento prevalece sobre todos os outros que permeiam uma relação - amor, cumplicidade, felicidade - e passa a comprometer a rotina do casal, a barreira foi ultrapassada e é a hora de procurar ajuda.

“Muita gente condena o ciúme, por relacioná-lo à imaturidade, à posse e ao egoísmo. Mas, na verdade, ele é um sentimento natural, que ajuda a manter o vínculo do casal. Porém, isso só acontece quando ele não é desproporcional”, explicou Ailton Amélio, doutor em psicologia pela USP, ao Brasil Post.

Segundo Isabel Cristina Gomes, professora livre docente do Departamento de Psicologia Clinica da USP, existem duas situações distintas que podem gerar crises de ciúme. A primeira é concreta, “quando uma das partes provoca a outra ou realmente apresenta atitudes que podem comprometer a relação amorosa”. Nesse caso, as crises podem ser evitadas quando o casal institui entre si o seu próprio acordo de fidelidade, onde é que estão os limites, garante Cristina. “Olhar pode, só não pode interagir.” “Sair pode, só não pode transar.” “Transar pode, só não pode se relacionar.”

Já a segunda é quando “um dos dois fantasia situações e projeta no outro inseguranças que são só suas, como o próprio desejo de trair, como dizia Freud”. Ambos os casos podem gerar reações isoladas, mas também atitudes duradouras. E é aí que mora o perigo, ou melhor, o transtorno.

Leve, moderado, grave...

ciumes em familia

Tudo começa com medidas restritivas, que são, normalmente, encaradas pelo ciumento como “preventivas”. O outro é impedido de sair, viajar, participar de festas, interagir com os amigos, usar as redes sociais, demonstrar qualquer sentimento positivo por quem quer que seja e até de fazer horas extras no trabalho.

De acordo com Amélio, essa fase é conhecida como disfuncional e já exige um acompanhamento médico. Nenhuma relação deve gerar prejuízo a qualquer uma das partes.

Nesse caso, o tratamento psicoterapêutico já se faz necessário. O objetivo é que o responsável pelas crises, primeiro, se reconheça como ciumento. Daí a importância do psicoterapeuta, que entra em cena para ajudá-lo a superar o problema de autoestima e também a dizimar o sentimento de ameaça que ele fantasia. Em seguida, dependendo do avanço do quadro, uma medicação psiquiátrica é acrescentada para que o paciente, definitivamente, se sinta mais forte e alheio à desconfianças.

E a patologia?

ciumes em familia

Para alguns especialistas, quando o ciúme afeta a rotina do casal, já se trata de doença. Mas, de acordo com Amélio, o ciúme patológico é considerado um estágio ainda mais grave. “É quando a intensidade do sentimento chegou ao limite mesmo. Nesse caso, a pessoa corta o contato com a realidade, inventa histórias absurdas de coincidências que nunca existiram, já não é mais passível de argumentação e, muito menos, de convencimento”, explica ele.

Aí já não há dúvidas, o acompanhamento psiquiátrico é mais do que necessário para que sejam corrigidos os mecanismos de distorção, antes que qualquer consequência grave aconteça. Nesse estágio, os desdobramentos podem ser extremamente nocivos e penosos, diz o psicólogo. “A vida dos dois vira um inferno e a separação se torna inevitável. Em alguns casos, as crises podem resultar em consumos exagerados de drogas e até em medidas retaliadoras, como a morte.” É quando o controle passa completamente do limite.

As raízes do ciúme

Amélio cita dois perfis de pessoas mais vulneráveis a desenvolver o ciúme disfuncional. O primeiro deles é o de um adulto que experimentou na infância uma relação insegura com a mãe, chamada de ansiosa ambivalente, ou seja, cuja atenção e proteção oscilaram nos momentos em que a criança mais precisava. Algumas chegam até a fazer ameaças de abandono como forma de controlar o filho. “A criança cresce então insegura e transfere esse sentimento para a relação amorosa.” O outro perfil é o de pessoas que já foram traídas. “O trauma da traição acaba com qualquer sensação de segurança, que muitas vezes é irreversível.”

Já o ciúme patológico, Amélio explica que está mais ligado a quem já possui desequilíbrios psiquiátricos, como esquizofrenia e paranoia.

Isabel pensa de outra forma: “Não é uma questão de pessoa, é uma questão de par. Pode existir um par formado por uma pessoa insegura e por outra exuberante ou exibicionista. Isso, inevitavelmente, alimenta o ciúme desproporcional”.