COMPORTAMENTO
10/02/2014 16:12 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

É por isso que todos nós adoramos uma boa coincidência

thinstock

O psicanalista do século 20 Carl Jung era fascinado por coincidências. De onde elas vinham, e o que as fazia acontecer? As coincidências têm significado, ou são inteiramente aleatórias?

Num esforço para explicar a existência das coincidências, Jung desenvolveu sua teoria da sincronicidade. A própria teoria nasceu em resposta a uma coincidência quase inacreditável que ele observou. Durante uma sessão, um paciente de Jung contou ao psicoterapeuta que na noite anterior tinha sonhado com um inseto, um escaravelho dourado. No meio da sessão, um escaravelho dourado real (algo muito incomum naquele local e clima) bateu na janela do consultório de Jung. Segundo a teoria desenvolvida posteriormente por ele, foi um exemplo de “sincronicidade”: uma “coincidência significativa” que a ciência ou psicologia não podiam explicar.

Muito antes do tempo de Jung, e ainda hoje, somos fascinados por coincidências, e isso se aplica também aos céticos entre nós. Nas palavras da revista Psychology Today, “todo o mundo adora uma coincidência”. E é verdade: ficamos maravilhados com esses acontecimentos aparentemente bizarros, contamos a nossos amigos sobre eles e nos lembramos deles durante anos. Então o que é que uma boa coincidência tem que tanto chama nossa atenção?

As coincidências costumam ser definidas como “uma simultaneidade notável de acontecimentos ou circunstâncias sem ligação causal aparente”, sendo a palavra chave aparente.

“Nossa tendência a enxergar padrões em tudo às vezes nos leva a descobrir verdades maravilhosas sobre o mundo”, escreveu Kaja Perina, da Psychology Today. “Com frequência igual somos atraídos para becos sem saída subjetivos.”

Desde as primeiras especulações de Jung até as teorias atuais, eis o que você precisa saber sobre coincidências.

Jung acreditava na existência de “coincidências significativas”.

carl jung

Para Jung, as coincidências -- que ele chamava de “atos de criação no tempo” -- ocorrem quando nosso estado interior é espelhado no mundo externo. Para explicar o poder das “coincidências significativas”, como o escaravelho dourado, seu conceito de sincronicidade aventurou-se no reino da parapsicologia, procurando identificar o elo entre fenômenos psíquicos e físicos “significativos”, ou dotados de sentido.

“A sincronicidade vê a coincidência de fatos no espaço e tempo como indicativa de algo mais que o mero acaso, ou seja, uma interdependência peculiar de eventos objetivos entre eles e entre eles e os estados subjetivos (psíquicos) do observador ou observadores”, escreveu Jung na introdução ao I Ching.

Então como e por que esses eventos ocorreram? Jung argumentou que o evento psíquico (por exemplo, o sonho com o escaravelho) e o evento físico coincidente (o escaravelho real na janela) são objetos “da mesma qualidade”, fato que os leva a co-ocorrer, ou coincidir. É uma teoria interessante, mas, devido à falta de fundamentação científica, muitos psicólogos desde Jung ficaram insatisfeitos com a resposta dada por ele.

Nosso cérebro é condicionado a buscar padrões.

flying geese

Muitas vezes basta algo pequeno para que observemos alguma coisa e digamos “que coisa incomum!”. Pode ser o fato de vermos numa estante de loja, diretamente em nossa linha de visão, um livro velho que nos foi recomendado recentemente, ou de esbarrar na rua com uma pessoa que não tínhamos encontrado desde o tempo da faculdade. Mas esses fatos são realmente coincidências?

Após Jung, alguns psicólogos e estatísticos adotaram uma visão mais cética quanto ao significado das coincidências, que, para eles, podem ser explicadas por um hábito mental comum (e enganoso).

Nosso pendor por identificar conexões e padrões em dados aleatórios é o que é conhecido na psicologia como apofenia. Assim, quando observamos uma coincidência, o que acontece na realidade é que nosso cérebro está simplesmente exercendo sua habilidade fundamental de identificar padrões -- algo que podemos fazer mesmo quando não há padrões, estatisticamente falando.

brain pattern

As coincidências podem ser explicadas não apenas por nossa predisposição aos padrões e conexões, mas também por vários outros vieses cognitivos que nos impedem de enxergar as conexões causais entre fatos coincidentes.

Um erro comum de pensamento relacionado às coincidências é conhecido na psicologia como erro do Tipo 1. Ele está ligado aos falsos positivos, ou seja, à nossa tendência a crer que uma hipótese é verdadeira quando ela não é. No caso das coincidências, acreditamos em um vínculo entre duas coisas quando, na realidade, não existe vínculo.

Para os psicólogos, as coincidências também nascem de “causas ocultas”: algo provoca o evento coincidente, levando-o a acontecer, mas, pelo fato de esse algo não ser aparente para nós, o evento nos parece ser destituído de causa, logo, aleatório, razão pela qual parece ainda mais misterioso e carregado de significado. Afinal, uma coincidência não parece igualmente assombrosa depois que descobrimos a razão pela qual aconteceu.

As leis da probabilidade prevêem a ocorrência de coincidências.

gambling

Alguns psicólogos já sugeriram que a frequência das coincidências que observamos está relacionada, em grande medida, à flexibilidade da mente em identificar relacionamentos significativos -- a isso e ao fato de que nossas vidas cotidianas permitem a ocorrência de inúmeras coincidências. A lei do acaso dita que uma coincidência vai acontecer, cedo ou tarde.

Sem entrar nas complexidades da teoria da probabilidade, os estatísticos concordam que a própria aleatoriedade pode não ser tão “aleatória” quanto pensamos: devido aos nossos vieses inatos de pensamento, temos probabilidade maior de enxergar fatos aleatórios como tendo ligações entre eles quando, na realidade, eles não as têm. A maioria dos acontecimentos supostamente coincidentes não passa de acidentes que obedecem às leis da probabilidade, por mais que subestimemos a probabilidade de acontecimentos simultâneos.

As coincidências podem abrir as portas ao sentimento de assombro

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Como escreve a presidente e editora-chefe do HuffPost, Arianna Huffington, em seu livro ainda inédito, sermos abertos à serendipidade das coincidências pode despertar nosso senso infantil de assombro. Ela explica:

“As coincidências, por prosaicas possam ser, despertam nossa curiosidade quanto à natureza do universo e tudo que ainda não conhecemos ou compreendemos... Não precisamos saber o que as coincidências significam, nem chegar a alguma conclusão grandiosa quanto as encontramos. Mas elas servem como lembretes esporádicos para conservarmos nosso senso de assombro, para pararmos de vez em quando e nos permitirmos estar plenamente presentes no momento e abertos ao mistério da vida.”

Seja qual for sua posição em relação às coincidências, o fato é que elas despertam em nós indagações quanto à natureza da vida e da existência humana.

“[As coincidências são] uma janela que se abre para uma das perguntas filosóficas mais importantes que podemos formular: os acontecimentos de nossa vida são, em última análise, objetivos ou subjetivos?”, escreve Jill Neimark na Psychology Today. “Existe uma ordem mais profunda, uma finalidade mais ampla no universo? Ou somos os acasos felizes da evolução, que vivemos nossas vidas preciosas, porém breves, em um mundo fundamentalmente aleatório que só tem o significado que optamos por atribuir a ele?”