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04/02/2014 16:54 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

Rio de Janeiro: a revolta contra o novo Maracanã

Divulgação

No dia 29 de julho de 2013, o governador Sérgio Cabral anunciou pelo twitter: “Tenho ouvido muitas manifestações em defesa da permanência do Parque Aquático no complexo do Maracanã. Coaracy [Nunes, presidente da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos] me disse que o governo com isso estaria atendendo à natação brasileira. Diante disso, o Júlio de Lamare [nome do parque] está mantido”.

Os tweets marcavam uma recuada e tanto do governo Cabral, amplamente comemorada pelos que protestavam contra a destruição do complexo: além do parque aquático, a sede do ex-Museu do Índio, ocupada por representantes de várias nações indígenas, o estádio de atletismo Célio Barros e a Escola Municipal Friedenreich, estavam igualmente condenados à demolição. “O anúncio começou pelo Júlio de Lamare, posteriormente ele falou não ia demolir a pista de atletismo, e quando chegou em 5 de agosto veio a confirmação que a escola não seria mais demolida”, lembra Carlos Ehlers, pai de duas alunas da Friedenreich.

A suspensão das demolições vinha sendo reivindicada pelo Comitê Popular da Copa no Rio de Janeiro – um dos mais ativos do Brasil – desde 2012, mas os tweets do governo vieram em um momento em que o Rio estava sob a intensa agitação das manifestações que começaram em junho e se prolongaram por meses.

A revolta contra a descaracterização do Maracanã pelas obras da Copa era uma das bandeiras que unia os cariocas bem antes dos protestos de junho, como explica Gustavo Mehl, membro do Comitê Popular e apaixonado pelo Maraca. “O Maracanã resumia o que estava acontecendo na cidade: o processo de privatização, autoritarismo, falta de interlocução com a sociedade civil, remoções, expulsão dos pobres, elitização dos espaços. Mas a partir de 2012, o Maracanã vira um símbolo de luta”.

O anúncio oficial dos planos de demolição foi tornado público em 22 de outubro de 2012, com a publicação do edital de licitação da concessão pelo governo do Estado. Aos protestos puxados pelo comitê uniram-se os indígenas, que moravam e expunham objetos artesanais na Aldeia Maracanã, como foi rebatizado por eles o antigo Museu do Índio, fundado por Darcy Ribeiro; os pais dos alunos da escola municipal Friedenreich, décima melhor do país segundo o índice do Ideb; os atletas que treinavam no estádio de atletismo Célio de Barros; e os nadadores do Parque Aquático Julio de Lamare. Juntos, eles passaram a se reunir semanalmente, divulgando suas denúncias principalmente pela internet – um dos vídeos, sobre violações de direitos humanos nos preparativos da Copa chegou a ser apresentado na ONU.

O velocista Nelson Rocha dos Santos , o Nelsinho, ex-campeão estadual, brasileiro, sul-americano e mundial de corrida, que participou da mobilização, comenta hoje: “As redes sociais são importantíssimas para que o restante da população seja informada, e com isso a gente ganha força, ganha uma voz que não tínhamos”.

O movimento também foi atrás do apoio jurídico do Ministério Público, conversou com vereadores, reuniu-se com a secretária municipal de Educação para tentar evitar o fechamento da escola. O principal embate veio em 8 de novembro de 2012, quando os organizadores conseguiram mobilizar a população para comparecer à audiência pública de explicação da licitação – até então as audiências pública haviam sido meramente formais, segundo Gustavo Mehl. “Havia mais de 500 pessoas no lugar e todas estavam revoltadas, aplaudindo e gritando de forma unânime contra o teatro que estava montado para a entrega do Maracanã. A partir daí foram duas horas de protestos, não houve audiência”, relatou à Agência Pública na época. “Se o governo tivesse tido um pouco mais de sensibilidade, teria visto que aquilo era um caldo que estava começando a entornar”, avalia ele hoje.

Embora Sérgio Cabral tivesse anunciado que não iria demolir o prédio do Museu do Índio já em janeiro, o governo insistiu em retirar os indígenas dali, para dar outra finalidade a ele. Por isso, em 22 de março de 2013, policiais militares invadiram a Aldeia Maracanã usando bombas de gás lacrimogêneo contra índios e ativistas para desocupar o espaço. A truculência dos policiais foi denunciada na ONU pela ONG Justiça Global. Segundo Carlos Tukano, um dos representantes indígenas, o prédio está agora em reformas e será transformado em um “Museu Vivo da Cultura Indígena”, a ser concluído em agosto de 2015. Mas eles pretendem a voltar a expor seu artesanato no local a partir de abril e ali permanecer durante a Copa do Mundo.

Hoje, a escola continua funcionando, e uma reforma está prevista; o parque aquático voltou a funcionar em 4 de novembro, depois de seis meses fechado. Mas Nelsinho continua pessimista: o estádio Célio de Barros segue como estava antes do recuo de Cabral. “Eles cimentaram a pista e o campo, destruíram o placar eletrônico, a torre de controle, só está de pé a arquibancada”, lamenta. “Hoje, ali, todos são funcionários da Odebrecht. Quer dizer, aquilo ali na verdade não é público”.

A Pública apurou que, no último dia 20 de janeiro, o Ministério dos Esportes liberou um repasse para a Secretaria Estadual de Esporte e Lazer do Rio de Janeiro através da Caixa Econômica Federal, no valor de R$ 9,2 milhões para a reforma do estádio. “O governo do estado deve, agora, apresentar o projeto para a Caixa Econômica Federal, órgão responsável por acompanhar a execução do objeto do contrato”, informou a assessoria de imprensa.

“Eles estão empurrando a história” ataca Nelsinho. “O Célio de Barros vai ser usado durante a Copa exatamente como foi usado na Copa das Confederações: para estacionamento VIP.”

Mesmo assim, Nelsinho não se decepcionou com a batalha. “Eu aprendi o seguinte: a gente deve se organizar para se manifestar. E a gente não pode ter medo. Até comprei o disco do Rappa, tem ate uma musica que diz assim: qual é a paz que eu quero para mim? Paz sem voz, não é paz, é medo”.