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31/01/2014 17:36 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

"Tive uma filha com mielomeningocele e decidi adotar mais uma com a mesma doença"

Valeria Collaço

Aos 14 anos de casado, a professora Valéria Collaço, 45, e seu marido, o engenheiro Alcir Collaço, 49, enfrentaram cinco meses de questionamentos da justiça para conseguir finalmente adotar um bebê diagnosticado com mielomeningocele que precisava de ajuda.

Ser mãe sempre foi um sonho. O meu desejo era ter um casal filhos e meu marido compartilhava essa ideia. Nos casamos em 9 de abril de 1994. Dalí a três anos, eu engravidei de um menino. Demos o nome de Douglas. Mas, para completar a família, ainda faltava mais um filho, ou melhor, uma filha. Dois anos depois, recebi a notícia: eu estava grávida de uma menina.

A gravidez começou tranquila, até que, no quinto mês, descobri, através do ultrassom, que ela nasceria com mielomeningocele, uma má formação na coluna, que afeta a movimentação dos membros inferiores. Segundo os médicos, uma em cada mil mulheres nasce com esse tipo de deficiência, que provoca ainda hidrocefalia - o líquido da coluna que não fechou sobe em direção ao cérebro, onde causa inchaço e possíveis danos no tecido devido ao aumento da pressão intracraniana. Ficamos assustados. Não tínhamos nenhum conhecimento sobre o assunto. Foi um choque saber que ela não iria andar. A partir de então, as visitas aos médicos aumentaram. Passaram a ser semanais. Tudo para avaliar a pressão, que se estivesse muito alta, exigiria um parto prematuro.

No dia 25 de outubro de 1999, aos oito meses, a Verônica veio ao mundo. Assim que nasceu, ela já foi submetida a uma cirurgia para a colocação de uma válvula que fecharia a coluna, reduzindo então os riscos de lesão no tecido cerebral que o líquido pudesse causar. Neste mesmo dia, determinei que não iríamos mais chorar. O medo já havia cessado, e a gente precisava ser forte para fazer com que ela passasse por essa vida de maneira natural.

No começo foi complicado. As idas ao urologista, ortopedista, neurologista, fisioterapeuta e fonoaudiólogo eram constantes. Durante os primeiros quatro anos, foram necessárias oito cirurgias para que o quadro se estabilizasse ao máximo e a coluna fosse colocada no lugar. Pouco a pouco, passamos a lidar melhor com toda a situação. Inserí-la em atividades normais passou a ser o nosso objetivo, mesmo que fossem necessárias algumas adaptações. Não à toa, ela se tornou uma menina super-resolvida. A Verônica precisava se sentir independente.

Felizmente, nunca notei nenhum tipo de preconceito. Na escola, ela sempre fez tudo o que teve vontade. Participou até das aulas de judô. Os amiguinhos, de forma espontânea, seguiam exatamente os seus passos e movimentos. Só foi preciso instalar uma rampinha para que ela pudesse se movimentar tranquilamente com a cadeira de rodas. Aliás, o único problema que chegamos a enfrentar foi o da falta de acessibilidade em alguns lugares.

No final de março de 2011, recebi uma ligação da minha irmã. Ela tinha ido com os colegas de trabalho a um abrigo de crianças e adolescentes, que precisavam de doações. Chegando lá, se deparou com uma bebezinha de 9 meses também diagnosticada com mielomeningocele. Na hora, decidiu me ligar: “Ela é uma gracinha, mas está com uma válvula que foi colocada de forma errada e a cabeça está crescendo por conta da hidrocefalia”. Assim que desliguei, contei a história para o meu marido. Na hora, ele me sugeriu: “Vamos adotá-la?”.

valeria collaco

Fiquei novamente assustada. Tive medo. Tem gente que sonha em adotar uma criança. Eu nunca sonhei. Para mim, a minha família estava completa com os dois filhos que sempre desejei. Eu já tinha 42 anos e sentia que a minha missão como mãe já estava plena. Decidimos então consultar as crianças. A Verônica adorou a ideia logo de cara. Já o Douglas ficou receoso. A gente não sabia se daria conta.

Levou um mês para que tomássemos a decisão: iriamos até o abrigo conhecer a menininha e já determinados a adotá-la. Ela precisava da nossa ajuda. Assim que chegamos e vimos a Iara, já tivemos vontade de levá-la embora. A cabeça estava muito inchada, já deformada, e poderia afetar a parte cognitiva dela. A gente sabia que ela estava sofrendo. Achamos até que poderia ter outro problema, porque não reagia a nada. Mesmo assim, não mudamos de ideia. Entendíamos a gravidade da situação. Mas, infelizmente, não tivemos autorização nem ao menos para levá-la ao médico por conta da inexistência de um vínculo familiar.

Saindo de lá, fomos direto procurar um advogado para entender como funcionava a adoção. Demos entrada no fórum poucos dias depois. Foram ao todo 5 meses de entrevistas com psicólogos e assistentes sociais. Eles sempre nos questionavam sobre o motivo pelo qual gostaríamos de adotar uma criança com deficiência. Para eles, poderia ser um novo sofrimento. Mas não era assim que nós encarávamos aquela situação. A cada visita ao abrigo, parecia que estávamos abandonando a Iara. Desde o primeiro dia em que eu a vi, já sentia como se fosse a mãe dela. A demora do processo só nos deixava mais agoniados.

No dia 23 de setembro, me ligaram do abrigo: “Valéria, saiu o desabrigamento da Iara. Você pode vir buscá-la hoje”. Saí correndo do trabalho para comprar meia dúzia de roupinhas e uma cadeira para trazê-la no carro. Eu senti um alivio de poder tirá-la de lá. Na saída da instituição, uma funcionária disse que ela poderia estranhar. Pelo contrário. Assim que ela entrou em casa, olhou tudo ao redor e se deitou na cama na maior tranquilidade. Não chorou, não estranhou, dormiu a noite inteira. Parecia que ela havia estado desde o nascimento no endereço errado e, naquele momento, tinha encontrado o lugar certo.

familia collaco

Na mesma semana, liguei para todos os médicos. Cerca de quinze dias depois, ela fez a cirurgia para tirar as válvulas entupidas e colocar uma que funcionasse. O volume da cabeça diminuiu logo em seguida.

Hoje, com 3 anos de idade, ela leva uma vida normal. Vai à escola e é uma criança superagitada, mesmo não podendo andar. Só agregou amor e alegria à família. Antigamente, eu me perguntava se uma mãe sentia o mesmo amor de um filho biológico por um filho adotivo. Agora, tenho certeza que sim. Ela mudou a minha vida, no sentido de ser uma filha a mais e não por ter tido qualquer problema de saúde. Ela me ajudou a me tornar uma pessoa melhor, a dar valor às pequenas coisas da vida, como um sorriso. E, hoje, o meu papel é fazer com que tanto ela, quanto a Verônica, passem por essa vida da maneira mais amena possível.