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31/01/2014 17:23 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

"Reencontrei o meu primeiro namorado - e único amor - depois de 28 anos separados"

Sueli Maier

Aos 58 anos, a gaúcha Sueli Maier enfrentou todas as dificuldades de um desencontro inesperado para sair à procura do carioca Paulo César de Faria, o primeiro e grande amor de sua vida.

Aos 25 anos, conheci o amor da minha vida. O encontro foi ao acaso. Era 5 de junho de 1969, quando a convite de uma amiga, subi ao terceiro andar do prédio onde eu morava, na Rua Santo Antonio, em Porto Alegre. A ideia era simples: devolver a um vizinho o Bolinha, o seu pequinês que havia passado alguns dias na casa dela. Mas mal podia imaginar que o desenrolar dessa história iria muito além de uma visita rápida. Assim que entrei no apartamento, fui tomada por um frio na barriga incontrolável. Era um sinal. Diante de mim estava Paulo César, um carioca simpático e encantador. Foi amor à primeira vista. Extremamente tímida, não fui capaz de encará-lo por mais tempo. Conversamos rapidamente, sem qualquer contato visual. Voltei para casa com o coração disparado. Jamais havia sentido aquilo antes. Os dias se passaram e, apesar da proximidade física, as conversas seguiram através de cartas. Ele adorava escrever. A troca de mensagens foi, então, se tornando cada vez mais constante. Eu já estava completamente apaixonada; enquanto ele me via apenas como amiga.

Seis meses depois, recebi a pior das notícias: Paulo voltaria de vez para o Rio de Janeiro. Quase perdi as esperanças, se não fossem os telegramas constantes. A relação era ainda de amizade; mas, a cada nova carta, havia uma promessa de retorno. Enfrentei as saudades durante cinco anos, tempo suficiente para ele se casar, ter filhos e ficar viúvo. Até que em 1974, ele confirmou: estava vindo me encontrar.

Não consegui conter a felicidade. Finalmente, teria ao meu lado o homem que sempre amei. Logo na chegada, nos envolvemos intensamente. O amor, que eu alimentava há anos, havia se tornado recíproco. Em dois meses, ele me pediu casamento. Aceitei de cara, não tinha o que pensar. Com a decisão tomada, ele decidiu viajar para o Rio a fim de avisar aos pais sobre os rumos que tomaríamos juntos. Entusiasmada com a ideia, fiquei em Porto Alegre organizando tudo para o futuro que me esperava. Montei o enxoval e até me preparei para ser a mãe dos filhos que ele havia deixado com os avós.

Porém, para minha surpresa, Paulo não mandou mais notícias. Fiquei arrasada. Nos dias que se seguiram, eu só conseguia chorar. Minha preocupação era que ele tivesse encontrado outra. Ele precisava de alguém para ajudá-lo na criação das crianças. Decidi ligar. Não tive resposta.

Apesar da tristeza, me convenci de que precisava seguir em frente para tentar ser feliz. Poucos meses depois, me envolvi com Demétrios, um vizinho 23 anos mais velho, que se dizia apaixonado por mim há anos. Eu não sentia nada por ele, mas insisti. Em 1976, depois de dois anos juntos, decidimos nos casar. A princípio, levávamos uma vida feliz, pautada pelo companheirismo. Mas por conta de suas crises de ciúmes, as brigas começaram e se tornaram cada vez mais constantes. Eu já não o via mais como marido. Querendo ou não, a memória insistia em me levar àqueles dois meses ao lado do Paulo César. Não havia um dia em que eu não pensasse nele. Cheguei ao ponto de esquecer toda aquela raiva da viagem sem retorno.

Mesmo assim, segui casada. Até que, em um sábado tranquilo de 1996, o telefone tocou: Demétrios havia sofrido um acidente de carro seguido de um AVC. Enquanto esperava o ônibus, um motorista que passava pela rua perdeu o controle, subiu sobre a calçada e o atropelou. O pico de pressão causado pelo estresse da situação agravou ainda mais o quadro. Foram dois anos de tratamento na tentativa de curar as sequelas. Ele não resistiu. Fiquei viúva depois de 28 anos casada. Foi um baque. Determinei que não queria mais ninguém na minha vida. Passei a dispensar todo e qualquer homem que se aproximava.

Foram necessários dois anos para que eu mudasse de atitude. Aconselhada pela minha mãe, resolvi ir atrás de Paulo. “Não é bom ficar sozinha”, ela me dizia sempre. Era tudo o que precisava ouvir naquele momento. Não pensei duas vezes, e liguei! Para minha decepção, o telefone antigo já não existia mais. Ele havia se mudado. Com o nome e sobrenome em mãos, fui à Telefônica buscar novas informações. Era como procurar uma agulha no palheiro. O fato de morarmos em Estados diferentes tornava tudo mais complicado. Após um ano de negativa dos atendentes em me fornecer informações, consegui o novo número e endereço com um funcionário que se solidarizou com a minha história.

sueli maier

Liguei dois finais de semana seguidos, sem sucesso. Foi só quando retornei no meio da semana que ouvi a voz da mãe dele do outro lado da linha. Me apresentei como uma amiga distante, que queria saber como Paulo estava. No fundo, me remoia o desejo de saber o motivo pelo qual ele tinha feito tudo aquilo comigo. Ela me dizia que daria o recado a ele, mas não poderia me garantir o retorno. Na verdade, estava tentando protegê-lo e só contou sobre as minhas ligações um ano depois, quando se convenceu de que eu era uma pessoa confiável, que pudesse fazer bem a seu único filho.

No final outubro de 2000, o telefone então tocou. Assim que atendi, não conseguia dizer nada. A gente só dava risada. Ele prometeu ligar outro dia, quando estivéssemos mais tranquilos para conversar. Retornou pouco tempo depois. Contou que estava divorciado e queria me ver novamente. “Você ainda sente algo por mim?”. Eu disse que sim, mas já não confiava mais nele. Temi o reencontro. Já se passavam 26 anos. Eu não tinha mais certeza sobre o que sentiria quando o visse novamente.

Passamos dois anos conversando apenas por telefone. Nesse meio tempo, a mãe dele me alertou: “O Paulo não está mais magrinho, como quando você o conheceu”. Os dois haviam mudado! Me preparei para recebê-lo. A passagem estava agendada para o dia 15 de novembro de 2002. Cheguei à rodoviária às 9h30 e fiquei à espera do único ônibus vindo do Rio de Janeiro, que chegou duas horas mais tarde. Já não conseguia mais controlar a emoção. Começou o desembarque. Primeiro, desceram as mulheres e, na sequência, os homens. Todos magros! Ele foi o último. Na hora que a gente se viu, ficamos sem palavras. Só conseguíamos nos abraçar. Ele estava diferente - sem barba, de óculos, nem tão gordo assim -, mas o sentimento era exatamente igual ao de anos atrás.

O reencontro foi tão intenso, que, em apenas uma semana, estávamos casados. Ele fazia questão. Afinal, a gente já tinha esperado por tanto tempo. Aos 58 anos, não dava mais para adiar. Hoje, já são 11 anos juntos, que a gente conta desde o dia em que aquele ônibus o trouxe de vez para perto de mim. Apesar de algumas diferenças, a gente se completa. Enquanto eu ainda carrego a minha timidez, ele não hesita em tornar os seus sentimentos públicos. Extremamente romântico, sempre me surpreende com recados publicados no Diário de Porto Alegre.

Sueli, na vida, foram altos e baixos, foram tristezas e alegrias. O carinho e muito amor. Hoje, 15 de novembro de 2012, completamos 10 anos de felicidade e quero deixar claro que a minha vida sem tu não existe. Quando eu vou para o Rio e tu ficas, a saudade é enorme. Quando volto, posso te abraçar, te beijar, sentir o calor do seu corpo. Eu estou completo. Agora e sempre. Peço a Deus que nos dê um pouco mais de tempo, pois ainda temos muitos planos para concretizar. Meu amor, na vida, temos duas certezas: uma quando nascemos, a outra quando morremos. Nasci para a vida nos teus beijos. Morro de felicidade quando nossos corpos se tocam. Eles unidos parecem um só. Às vezes, me perguntam se eu ainda te amo. Eu respondo que sempre te amei, porque tu és maravilhosa e inigualável. Tu és o meu eterno amor.

O motivo dos desencontros? Nem ele sabe dizer. Certamente, era um paquerador que queria aproveitar a juventude. O nosso destino queria que nos encontrássemos mais tarde. Tudo acontece na hora certa.