NOTÍCIAS
31/01/2014 17:46 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

"Enfrentei, durante 8 anos, a rejeição da minha enteada. Hoje somos confidentes"

Beatriz Alves Barreto

Foram oito anos de convivência tumultuada, duas separações e muita mágoa, até que a baiana Beatriz Alves Barreto, 36, visse despertar na enteada um sentimento de cumplicidade.

Em 2005, decidi sair da Bahia para tentar a vida em São Paulo. Aos 28 anos, recém-separada, de volta à casa dos pais e com dois filhos ainda pequenos, eu não conseguia enxergar um futuro financeiramente estável por lá. Comuniquei à minha mãe que iria fazer as malas rumo ao litoral paulista, onde morava meu irmão. “Minha filha, mas é tudo tão difícil por lá. São Paulo é terra em que filho chora e pai não vê.” Já decidida, fiz as malas. Eu não poderia imaginar que esse conselho faria um certo sentido mais a diante

No final de 2005, desembarquei em Praia Grande. Em apenas nove dias, conheci o meu marido e, daí em diante, minha nova vida realmente começou. O encontro foi ao acaso, em uma festa de amigos. Beto se apresentou e, logo, engatamos uma conversa sobre a nossa história. Ele estava viúvo há um ano, tinha uma filha de seis anos, e queria encontrar uma mulher com quem pudesse contar durante a criação da pequena. Nos identificamos logo de cara e o namoro começou alí mesmo. Ele me disse que tinha condições de cuidar de mim e dos meus filhos. Confesso que isso me deixou ainda mais empolgada. Se não fosse o drama que começaria 15 dias depois, quando ele me apresentaria à Gleyce.

Extremamente ciumenta, a filha dele não fez a menor questão de interagir comigo. Passamos uma tarde inteira na casa do meu irmão sem trocar qualquer palavra. Ela ficou o tempo todo com a cara fechada. Já dava para imaginar que a relação não seria tranquila. Mesmo assim, depois de dois meses de namoro, aceitei o convite do Beto para que morássemos juntos. Assim que cheguei, Gleyce se recusou a me aceitar como madrasta. Ela me queria como babá. Geniosa, resistia a qualquer tipo de aproximação. Fui levando.

A relação piorou quando, no mês seguinte, decidimos trazer para morar com a gente o meu filho mais novo, Rafael, que é deficiente auditivo. Tomada pelo ciúmes, Gleyce começou a agredi-lo, espalhou fotos da mãe por toda a casa, e chegou a inventar histórias para que Beto brigasse comigo. Disse diversas vezes que eu me recusava a dar comida a ela. O casamento, claro, foi ficando abalado.

Até que, quando completamos seis meses juntos, fomos à festa de uma amiga. Incomodado com o fato de eu estar me divertindo, Beto me chamou a atenção por não estar cuidando das crianças. Eu fiquei furiosa, não tinha aceitado ficar com ele na condição de babá da filha. Em um ato de descontrole, ele deu um tapa na minha cara. Me senti ainda mais humilhada quando olhei em volta e notei o sorriso no rosto da Gleyce. Parecia que ela tinha ganhado o maior presente da vida. Definitvamente, era a hora de dar um basta naquela relação. Entrei em casa sem dizer nenhuma palavra, fiz as malas, e voltei com meu filho para a casa do meu irmão.

No dia seguinte, descobri que meu ex-marido estava na cidade e tinha trazido o meu filho mais velho, Reberson. Decidi procurá-lo. A minha fraqueza me estimulou a reatar com ele. Tentamos durante uma semana, mas, apesar da minha mágoa, era o Beto que eu amava. Aliás, assim que descobriu sobre o meu ex, ele me procurou para pedir perdão e disse que jamais me faria mal novamente. Em uma semana, eu estava de volta à casa dele na confiança de que as coisas mudariam, e eu poderia levar a vida que sempre desejei.

Tentei de várias maneiras ganhar a confiança - e amizade - da minha enteada. Passei a fazer tudo o que ela queria: colocava comida no prato, comprava presentes constantemente, acompanhava ela em tudo. Mas nada adiantou. Ela insistia em inventar histórias para prejudicar o meu relacionamento com o pai e me lembrava o tempo todo que a mãe havia deixado aquela casa para ela. Fui ficando esgotada. Já se passavam quatro anos. Me entreguei de vez às brigas, que se tornaram diárias, cheias de xingamentos e interferiram no meu casamento. Pela segunda vez, fiz as malas com a certeza de que, dessa vez, a separação seria definitiva. Voltei com os dois meninos para a casa da minha mãe, onde passei quinze dias sem dar notícia.

No fim das duas semanas, o Beto voltou a me procurar. Me ligou para dizer que não suportava mais viver sem mim e me fez uma proposta: “Volta para cá, que eu mando a Gleyce morar com a avó”. Voltei! Assim que cheguei, pude notar a tristeza nos olhos dela. Não achei justo tirá-la da casa que a mãe havia deixado. Resolvi chamá-la para uma conversa. Ela disse que não queria ir embora. Mas, para isso, precisávamos nos esforçar para conviver em harmonia. Aproveitamos para desafogar as mágoas e pedir perdão por todos os insultos. Daí em diante, a relação foi melhorando pouco a pouco.

Ela começou a me ajudar nas tarefas de casa, parou de brigar com os meninos… Tudo lindo, se não fosse uma descoberta no final de 2012: eu estava grávida. Fiquei apavorada. Depois de tudo o que eu tinha passado, aquele era o último dos meus desejos. Mas o Beto acreditava que o filho deixaria a família mais unida. Pedi para que ele me deixasse dar a notícia à Gleyce, que sempre rejeitou a ideia de ter um irmão. Foi inevitável: assim que ela soube da novidade, parou de falar comigo. Ficou tão chateada, que não tinha como não notar. Ela me evitou durante os nove meses de gravidez. Não trocamos uma palavra e, praticamente, nenhum olhar.

Em julho, a Maria Fernanda nasceu. A Gleyce foi a única que não nos visitou na maternidade. Cheguei até a pensar em ir embora pra Bahia, assim que saísse do hospital, para evitar que tudo recomeçasse. Mas preferi insistir. Ao chegar em casa, enfrentei dois dias de completa recusa da Gleyce em nos aceitar. Foi então que decidi, de surpresa, colocar o bebê no colo dela. Foi inexplicável a reação. Parecia um milagre. Ela mudou completamente de comportamento alí mesmo. Ficou encantada com a irmã. Definitivamente, o bebê foi o divisor de águas da nossa relação.

Hoje, sete meses depois do nascimento da Maria Fernanda, por incrível que pareça, nos tornamos amigas e confidentes. Ela me conta histórias que nem pensa em contar para o pai. É inacreditável. Apesar de considerá-la como filha, ela entendeu que eu não vim para tomar o lugar da mãe. Eu só quero vê-la feliz.