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31/01/2014 17:00 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

"Durante 18 anos, escondi da minha filha a identidade do pai, que se recusava a assumi-la"

Vanilda Martins

Vanilda Martins, 59, enfrentou durante anos uma série de decepções e mentiras até que, através de um exame de DNA, pudesse finalmente revelar à filha Kelly, 32, que o seu pai morava ao lado.

Ainda na infância, me apaixonei por um vizinho. William*, assim como eu, tinha apenas 11 anos. A amizade entre as famílias fortaleceu a nossa. A gente vivia junto. Era apenas o início de uma relação cheia de imprevistos e decepções.

Em 1972, assim que completamos 18 anos, começamos a namorar. Já não éramos mais tão inocentes. Ele, finalmente, havia notado o meu interesse. Com receio de ser cobrado, preferiu não se envolver completamente, morria de medo dos meus irmãos. Preferi insistir. Enfrentei cinco anos de inúmeras idas e vindas. Sofri, chorei, e até me permiti conhecer outros rapazes. Cheguei a namorar durante três anos seguidos. Mas nada nem ninguém me fazia tirar o William da cabeça.

Até que, no Réveillon de 1981, nossas famílias se reuniram para passar uma semana no litoral. Era a situação perfeita para que a gente pudesse se acertar. Pela primeira vez, tivemos uma relação sexual. Foi maravilhoso. Mas, para a minha decepção, a resistência dele em se relacionar fez com que a gente se separasse de novo, logo depois da viagem. Eu já não aguentava mais tanta indecisão. Vulnerável, passei a ceder de vez às investidas do meu chefe. Márcio era dois anos mais velho do que eu e me despertava um certo interesse. Já havíamos saído algumas vezes, pouco antes da virada do ano. Em janeiro, a relação ficou mais intensa.

Muito confusa com tudo o que estava acontecendo, aproveitei que tiraria férias em fevereiro para viajar com uma amiga a Pernambuco. Assim que chegamos lá, comecei a me sentir cada vez mais indisposta. A primeira coisa que me veio à cabeça foi uma possível gravidez. Eu não havia me protegido em nenhuma das vezes. Marquei o exame assim que cheguei em São Paulo, no fim do mês. Em março, tive a confirmação: eu estava grávida. Saí do laboratório me sentindo a mulher mais feliz do mundo. Decidi checar o período da gestação: 2 meses e meio. Começou aí o maior drama da minha vida. Quem era o pai: William ou Márcio?

Não conseguia parar de pensar em como eu daria a notícia para a minha família. Seria melhor não contar logo de cara. Meus pais não aceitavam a ideia de se criar um filho sem marido. Preferi então começar pelos rapazes.

Por um acaso, encontrei com o William no dia seguinte, e falei brincando que estava grávida. Ele só riu e perguntou quem era o pai. Senti tanta raiva daquela reação, que só consegui dizer que era do Márcio. Para falar a verdade, eu jamais achei que estivesse grávida do William, mesmo sendo esse o meu maior desejo na época. Na minha cabeça, eu não poderia ter engravidado na primeira transa.

No dia seguinte, foi a vez de conversar com o Márcio, com quem eu havia estado mais vezes. Sofri mais uma decepção. A reação dele foi ainda pior do que a do William. Ele se negou a assumir um possível filho. Tinha como prioridade, terminar a faculdade. Além disso, já estava em outro relacionamento. Como solução, me fez uma proposta: “Conheço uma clínica onde você pode fazer um aborto. Ou você faz ou eu te demito”. Foi um choque. Eu não podia perder o emprego. Completamente insegura, aceitei.

No dia seguinte, logo cedo, ele me pegou em casa. Seguimos em direção à clínica. No caminho, fui tomada pelo nervosismo. Chegando lá, fui recebida por uma enfermeira que me acompanhou até o suposto médico. Comecei a chorar descontroladamente e me neguei a tirar o bebê. Saí da clínica desamparada. No caminho de volta para casa, Márcio não dizia nada. Eu já estava conformada em criar a minha filha sozinha. Eu já conseguia sentir que seria uma menina. Quando chegamos na minha casa, ele estacionou e me pediu que esperasse. Preencheu um cheque de 80 reais, me entregou e disse: “Procure um outro lugar, onde você queira fazer o aborto. Te dou uma semana de prazo”. Me senti humilhada. Decidi que era o momento de dar a notícia para a minha mãe, que, surpreendentemente, teve a melhor das reações: “Essa é a hora em que uma mulher mais precisa de uma família e nós vamos te ajudar no que for possível”.

Voltei a trabalhar, na expectativa de encontrar o Márcio. Eu estava determinada a devolver o dinheiro. Mas ele não apareceu no escritório durante dias, o que só me deixou ainda mais ansiosa. Aquele cheque parecia queimar na minha mão. Tentei ligar diversas vezes. Ele só me atendeu quando o prazo de uma semana se encerrou. Não tive dúvidas, assim que a gente se encontrou, rasguei o cheque na frente dele e disse com total confiança que, dalí em diante, a nossa relação seria apenas corporativa. Quanto a filha? Ele nem chegaria a conhecê-la. Trabalhei durante toda a gravidez. Nós parecíamos dois estranhos. Ele entrava e saía sem olhar na minha cara.

Tinha dias em que, na volta do trabalho, eu ia direto desabafar com o William. Apesar de tudo o que a gente tinha passado, a nossa amizade ainda era muito forte e eu não conseguia negar que o amava. Não à toa, o que eu realmente esperava ouvir em cada conversa era que ele dissesse que a filha era dele e que nós iríamos criá-la juntos. Mas, assim como eu, ele achava que com apenas uma relação sexual, era impossível engravidar. Completamente confusa, passei a sustentar a ideia de que os dois eram os pais.

Até que, em Abril, na consulta do meu primeiro pré-natal, pedi ao ginecologista que me ajudasse a calcular o dia exato da gravidez. Para a minha surpresa, a filha que eu esperava era do William. Cheguei a refazer os cálculos, mas não havia mais dúvida. Se a minha última menstruação tinha sido no dia 20 de dezembro e a metade do meu ciclo somava 13 dias, eu tinha engravidado no dia 3 de janeiro, data da minha primeira - e única - relação com ele.

Fiquei completamente confusa. Tentei conversar sobre o assunto diversas vezes, sem sucesso. Ele se negava em aceitar a ideia: “Você está tentando me jogar uma responsabilidade que não é minha. Jamais vou me casar com você por causa dessa gravidez. Até porque eu estou em outra”. Nossa, como me doeu ouvir este comentário. Fiquei arrasada. Chorei durante toda a gestação. Decidi que aquela filha seria só minha.

vanilda

No dia 19 de setembro, a Kelly nasceu. Na hora em que olhei para ela pela primeira vez, só conseguia pensar com qual dos dois ela se parecia. Ainda era cedo para tirar qualquer conclusão. Registrei só com o meu nome, mas, logo, os olhos puxadinhos, a pele morena e o cabelo bem pretinho não negavam que o William era o pai. Para piorar a situação, na volta de licença à maternidade, em janeiro, fui demitida pelo Márcio. Como justificativa, ele disse que não queria que a namorada - e futura esposa - soubesse da existência da minha filha. Não consegui dizer nada. Sofri tanto. Aquele era o momento em que eu mais precisava trabalhar. Minha maior preocupação era criar bem a Kelly.

Fui forte para enfrentar aquela situação sozinha, por mais difícil que fosse. Fui até capaz de me fazer de sonsa quando, 15 dias depois do nascimento, o William decidiu nos visitar e negou de todas as maneiras que ela se parecia com ele. “Deve ser mesmo do Márcio. Vá atrás dele e o faça criá-la.”

Se passaram três anos, até que decidi ter uma conversa definitiva com o William, por quem eu ainda era apaixonada. Mostrei o cálculo da gravidez na esperança de finalmente convencê-lo. Ele não se importou: “Agora que você já registrou a menina, vamos deixar como está”.

Quando a Kelly completou 5 anos, retomei a conversa e propus que fizéssemos um teste de DNA. Ele se negou. Foram dez anos de negativa. Nesse meio tempo, minha filha me questionou sobre a identidade do pai. Eu costumava dizer que era o avô. Vez ou outra, supunha que pudesse ser o William para notar a reação dela. Isso a fazia tão feliz. Afinal, apesar de toda a recusa dele em assumir a paternidade, ele sempre a tratou muito bem. Mas eu logo desmentia toda aquela história. Joguei com a minha filha durante anos.

Aos 11 anos, desconfiada, ela foi sozinha conversar com ele sobre o assunto. E foi direta: “Se você é mesmo o meu pai, por que não assume?”. Ele não mudou de postura, pediu apenas que ela me exigisse o teste de DNA. William insistia que eu fosse atrás do Márcio e o deixasse em paz. Diante do sofrimento da minha filha, prometi que, dalí a alguns anos, nós duas iríamos juntas tirar à prova toda aquela história. Eu não tinha condições financeiras nem psicológicas para ir à Justiça naquele momento. E reforcei: “Seu pai é o seu avô”.

Quando a Kelly completou 15 anos, ela me fez um pedido: queria ter a certeza sobre o William. Eu já não tinha mais como evitar. Era um direito dela. Naquele mesmo ano, demos entrada no pedido do teste de paternidade. William recorreu durante os três anos seguintes, até ser intimado judicialmente a comparecer ao fórum para a coleta do material genético.

Em setembro de 1999, uma semana antes do aniversário de 18 anos da Kelly, finalmente, essa história ganhou um ponto final. O resultado saiu! William já não podia mais negar. E eu só consegui dizer uma coisa para a minha filha: “Esse é o seu presente: você ganhou um pai”. No final da audiência, ela esperava dele um abraço, que não veio. Ele ainda resistia em assumir. A relação dos dois nunca foi boa. Ele nunca foi um pai presente, e ela nunca o chamou de pai. Hoje, 15 anos depois, eu me arrependo de ter escondido toda a história, mesmo que pudesse ter sido dolorido admitir na época. Eu sei que fui responsável por algumas sequelas emocionais que a Kelly ainda carrega, mas também sei que a eduquei da melhor forma possível. Fico muito feliz de ouvir da minha filha que, apesar dos contratempos, eu sou a melhor mãe do mundo.

vanilda

*Os nomes foram trocados para manter a privacidade dos personagens