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29/01/2014 08:44 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

Rolezinhos: passeios ou jogada de marketing?

Amanda Previdelli/Brasil Post

"Vou ficar famoso, vou aparecer na Globo", disse um dos meninos no rolezinho. "Vai ficar mais famoso se aparecer na Band", respondeu o outro. Aquela seria uma das primeiras lições de marketing da tarde. Os "rolezinhos", encontros de jovens da periferia em shoppings paulistanos, acontecem desde o ano passado, mas o evento só tomou proporções maiores depois que eles começaram a ser convocados por Facebook.

Seus organizadores? A maior parte, jovens MCs ou adolescentes que sonham em um dia trabalhar com música. Kaique Vicente Oliveira, 18, também conhecido como MC Novinho ZL, é um deles. "Chego a ganhar até 4 mil reais por baile, quando é fora de São Paulo", disse. E o que é o rolezinho? "É uma forma da gente se encontrar, se conhecer e divulgar nosso trabalho", explica o garoto.

Fica claro o marketing promocional desses mestres de cerimônia. Os jovens são organizados, buscam as câmeras dos jornalistas e reiteram a todo momento o caráter cultural do evento. Poucos afirmam que é um protesto. Duda Mel Delambers, outro dos organizadores, defendeu o rolezinho como protesto "contra a liminar do shopping JK", que conseguiu na justiça o direito de proibir a entrada de menores em seu estabelecimento. "Tem gente protestando, mas eles vêm pelas causas e nós pelo espaço", completa o jovem de 22 anos. São turmas diferentes, as dos que protestam e as dos que querem fazer música.

(vídeo divulgação de Kaique, também conhecido como MC Novinho ZL)

Os encontros seguem linha parecida. Primeiro, a concentração em frente ao shopping. Lá rola a maior parte da "azaração" entre a garotada de 13 a 22 anos. Depois, os MCs convocam todos para dar uma volta no estabelecimento, tomar sorvete no McDonalds e, bem, dar um “rolê”. Poucos acabam entrando, a maior parte prefere ficar do lado de fora fumando (nada de drogas), bebendo (nada de álcool, toddynho parece ser a bebida mais popular) e conversando.

LEIA MAIS: 'Rolezinho pode, mas não aqui', diz associação de shoppings

Quem entra no shopping é o pessoal ligado à música - ou ligado aos músicos. E aí começa a “voltinha para zoar um pouquinho" pelos corredores: com música, funk ostentação e momentos de improviso. Os comerciantes param para ver, alguns criticam, mas a maior parte só deixa as crianças passarem com seus versos e suas cantadas.

Nos últimos rolezinhos, a segurança do shopping já estava preparada. Funcionários à paisana, sempre três ou quatro, seguiam os funkeiros e assinalavam aos lojistas que não havia necessidade de fechar as portas. Os organizadores também participam da vigilância: “a gente orienta a, se a gente pegar, expulsar, vai apontar. Tem gente que vem para roubar e estão queimando a nossa imagem, se infiltram no meio da gente”, conta Duda Mel.

No rolezinho do shopping Tatuapé do dia 18 de janeiro, em dois momentos houve início de tumulto (assista ao vídeo no YouTube). Um jovem acusou outro de tentativa de roubo e uma briga se iniciava quando os próprios organizadores convocaram os seguranças do shopping para separar os envolvidos. "A gente procura separar. Em todo lugar tem quem vem pra causar, mas não é o que queremos aqui", explica Duda.

(perfil de um dos jovens frequentadores de rolezinhos: quase dez mil seguidores)

Depois de quase uma hora perambulando pelo estabelecimento, os organizadores saem. As meninas, de shorts curtos e camisetas coladas, participam para conhecer seus ídolos e para conhecer toda a comunidade que foi criada na internet. Alguns desses jovens têm milhares de seguidores no Facebook e costumam postar cantadas, fotos sem camisa e versos de funk. As meninas curtem ("se curtem é porque querem pegar", explica um dos garotos) e comentam.

Mais um tempo de azaração e entrevistas à imprensa e o rolezinho "mia", esvazia. Alguns rolês já atraíram centenas e até milhares de pessoas, o que a Associação Brasileira de Shopping Centers afirma, em entrevista ao Brasil Post, que é insustentável. Para lidar com a situação em São Paulo, o prefeito Fernando Haddad apontou o secretário Netinho de Paula, da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, para negociar com os garotos. A proposta é organizar um enorme “rolezão pela paz” nas ruas de São Paulo, com arrecadação de alimentos e doações para moradores de rua. Por enquanto, tudo fora dos shoppings.