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29/01/2014 08:27 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

'Rolezinho pode, mas não aqui', diz presidente da associação de shoppings

EschCollection via Getty Images

Centenas (às vezes milhares) de jovens marcam, por Facebook, um encontro em algum local da cidade para se conhecer, conversar e tocar música. Poderia ser um flashmob, ou quase isso, mas é o rolezinho, fenômeno que cresceu neste ano e já causou polêmica, especialmente em São Paulo.

Jovens da periferia marcam o "rolê" em shoppings e improvisam trechos de funk pelos corredores dos centros de comércio. Para o presidente da Associação Brasileira de Shoppings Centers (Abrasce), Luiz Fernando Pinto Veiga, os estabelecimentos não estão preparados para receber o contingente de adolescentes que se organizam pelas redes sociais. Em entrevista ao Brasil Post, ele disse que os shoppings são “ilhas de satisfação dentro da cidade”, um local onde as pessoas vão em busca de “conforto, segurança e tranquilidade”.

Veiga explica por que os rolezinhos deveriam sair dos shoppings e rebate as acusações de que a proibição dos eventos é racista. Leia a íntegra da entrevista.

Brasil Post: Como o senhor vê as acusações de que os shoppings estão sendo racistas ao proibir a realização dos rolezinhos?

Luiz Fernando Pinto Veiga: Falar bobagem é um direito que todo mundo tem. Agora, na realidade, o que a gente vê não tem nada disso. Nunca na história de 50 anos de shopping center alguém foi barrado porque era negro, velho, criança, isso ou aquilo. Ao contrário: o garoto de hoje que provavelmente tem posses menores vai ser o consumidor de amanhã. O shopping quer conquistar esse garoto, não existe nenhum tipo de restrição, desde que funcione dentro do shopping com disciplina e educação.

Mas no caso da comemoração que os calouros da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP) fazem anualmente no shopping Eldorado, há tumulto e multidões (assista ao vídeo abaixo), mas nunca houve punição correspondente.

Há vários anos fazem, então isso significa que o shopping aceita isso numa boa. É só mais uma demonstração de que não há restrições.

Nesse caso os meninos são brancos, de classe média alta, passaram na FEA-USP...

Eu juro que deve ter algum negro na turma.

Quase nenhum se comparado aos grupos que vemos nos rolezinhos.

É claro, mas é porque eles são minoria. É a mesma coisa que você falar que os partidos políticos têm de botar mulher como candidata. E não aparece mulher, entende? Enfim, eles são minoria, mas eles estão lá dentro igual aos outros. Agora, quem decide o que fazer ou não não é a Abrasce, é o próprio Eldorado.

Vocês monitoram as redes sociais para saber dos rolezinhos?

Estamos monitorando, sim. O que eu quero deixar claro é que não é só a associação que faz esse monitoramento. Cada shopping separadamente também faz. A mim não cabe tomar as providências porque quem decide dentro do shopping é o próprio shopping. Não há nenhum problema de recebê-los desde que de forma ordenada.

O que é uma forma ordenada?

Você frequenta shopping, não frequenta? Shopping center é a solução da cidade. A cidade é muito ingrata, é muito violenta. É assalto, é calor, é mobilidade zero. E o shopping center dá uma sensação de conforto, de segurança, de tranquilidade. É uma ilha de satisfação dentro da cidade hoje no Brasil.

Mas os meninos dos rolezinhos também querem se aproveitar dele.

Querem e sempre aproveitaram, mas de maneira ordenada. Quando falo ordenado, nenhum shopping center está preparado para receber duas mil pessoas ao mesmo tempo. E como você vai adivinhar quantos dos que confirmaram presença vão? Você tem que se prevenir.

Como funciona essa "prevenção"?

Colocando a segurança mais efetiva para evitar qualquer mal estar dentro do shopping. Você pode chegar a fechar até, mas ninguém quer isso. É prejuízo para todo mundo, para o lojista, para o vendedor, para as balconistas que vivem de comissão, para os frequentadores, inclusive os meninos do rolezinho. Porque quando você tem um número exagerado de pessoas, e isso não é mal contra a garotada, não... É que garotada tem sangue quente, está sempre agitando. E dentro de um shopping pode causar tumultos para os frequentadores e até para eles próprios.

Os organizadores dos rolezinhos estão, junto com o secretário Netinho de Paula, organizando um “rolezão da paz”. O que o senhor pensa disso?

Não estou sabendo disso, mas provavelmente não vai ser dentro dos shoppings porque o shopping não está preparado para isso, ainda que seja uma relação a favor do evento. Eu acho positivo e acho legal que o rolezão aconteça porque significa um reconhecimento de que a gente não tem nada contra eles. Muito pelo contrário. Quero todo mundo dentro do shopping desde que disciplinadamente, sem promover nenhum tipo de anarquia, sem nenhum tipo de ilícito. Eu estou sabendo por você, mas gosto da ideia. Mas não dentro do shopping.