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28/01/2014 17:55 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

Para Paulo André, CBF não dialoga e Bom Senso ameaça greve

Agência Estado

Paulo André é certamente um jogador diferenciado.

Não apenas pelo seu desempenho em campo pelo Corinthians, time que defende desde 2009 e no qual é titular e nome de confiança no setor defensivo. Paulo André chama a atenção também por sua articulação fora das quatro linhas.

Voz ativa no diálogo sobre as diretrizes do futebol nacional, o líder do Bom Senso F.C., movimento que foi capitaneado por jogadores experientes, disse em entrevista ao Brasil Post que não descarta a possibilidade de uma greve da categoria.

Duas bandeiras são as principais exigidas pelo grupo: o chamado fair-play financeiro, segundo o qual os clubes não podem gastar mais do que ganham, e a criação de um novo calendário, com maior número de jogos para os clubes menores e um número reduzido de partidas para clubes de grande porte. "Todos têm a ganhar com um calendário adequado", diz Paulo André, o zagueiro corintiano que tornou-se porta-voz dos atletas. "Nós queremos melhorar o espetáculo do futebol para todos, jogadores, clubes, televisão, patrocinadores."

Entre toda a movimentação atual do Bom Senso em um ano de Copa do Mundo, Paulo André conversou com o Brasil Post sobre o andamento da negociação com a CBF e a possibilidade de greve. Também falou sobre as negociações com José Maria Marin, presidente da Confederação Brasileira de Futebol, e sobre a inimizade com o ex-jogador e agora cartola, Vampeta. Leia a íntegra da entrevista.

Brasil Post: Essa é uma situação que tende a ficar mais comum: ex-jogadores se tornarão dirigentes de clubes pequenos. Como você avalia as declarações do Vampeta? Como o Bom Senso F.C. tentará atrair os novos dirigentes para as propostas?

Paulo André: Essas declarações do Vampeta demonstram o desconhecimento dele com a realidade do futebol brasileiro e também com a proposta do Bom Senso F.C. A gente torce para que cada vez mais o ex-atleta se capacite, busque conhecimento e informação para que ele possa se preparar para um mercado que é de baixa qualidade e se torne um bom gestor de clube e consiga reanimar o futebol brasileiro.

Vampeta tocou em um ponto curioso: os atletas que encabeçam o Bom Senso F.C. são experientes. Como vocês pretendem trazer os atletas mais jovens para a discussão?

O Bom Senso F.C. tem a adesão de muitos atletas, muitos deles bastante jovens. Não temos só jogadores experientes dentro de dois mil participantes. Agora, quem pode falar e consegue sustentar as ideias e argumentos e aguentar a pressão da mídia são os jogadores mais experientes. Por isso acabam se expondo alguns jogadores de clubes maiores, que conseguem enfrentar toda a exposição que vem junto com a nossa proposta. Temos hoje representantes em todos os clubes das Séries A e B e mais de 1200 atletas nos clubes do interior. O importante é crescer para que todos percebam que é uma luta legítima, com demandas urgentes -- não só para os atletas, mas para toda a infraestrutura do futebol. É importante que todos entendam que nós não estamos contra os clubes, mas sim a favor deles.

Os clubes menores recebem bastante atenção do Bom Senso F.C., especialmente pelo fato de eles ficarem sem calendário após o término dos estaduais, jogando poucas partidas. O calendário contínuo e balanceado para todos os clubes é uma das bandeiras levantadas pelo Bom Senso. Como vocês pretendem negociar isso com a CBF?

Nós temos uma proposta que está pronta e temos uma reunião em fevereiro com alguns jogadores para definir como vamos encaminhar as próximas etapas do que estamos pedindo. Propostas existem várias, todas melhores que o cenário atual. Queremos um calendário que organiza maior número de jogos para equipes menores e reduza o número de jogos de equipes maiores, para haver um equilíbrio e zelarmos pela saúde dos atletas. Qualquer coisa que vá nessa direção ganha nosso apoio. A questão é que a CBF não tem opção e não tem argumentação para ir contra isso e não oferece uma solução.

Diante disso, a possibilidade de uma greve ainda existe?

Não está descartada, pelo contrário, está cada dia mais presente se a CBF não quiser negociar com uma parte muito importante do espetáculo do futebol, que são os atletas.

Em dezembro do ano passado vocês enviaram uma carta para o presidente da CBF, José Maria Marin. Como tem sido a relação de Marin com o Bom Senso F.C.?

Não existe relação. Não há diálogo. Não é como se estivéssemos negociando algo que favorece a "A" ou "B" em razão de "C" ou "D". Nós levantamos algumas questões fundamentais e queremos uma resposta. Por que é assim? Por que não é possível fazer de maneira diferente? Nós queremos ajudar a melhorar e a construir. Agora, se não conseguem explicar porque é assim e porque não é possível fazer de outra maneira, fica difícil de acreditar que há diálogo por parte da CBF.

Você acha que o fato de a CBF não querer dialogar com vocês está ligado à relação com os patrocinadores de TV?

Não, acho que isso é um ranço histórico da entidade que não está acostumada a dialogar com os atletas. Os atletas nunca se posicionaram a respeito do cenário do futebol e quando isso acontece acaba sendo um choque de realidade em que as pessoas muitas vezes não sabem se posicionar. Como o trato da entidade foi sempre muito mais político do que técnico, há uma total falta de conhecimento e estrutura para fazer o futebol evoluir. É nesse ponto em que a gente se desencontra: o Bom Senso estuda futebol, conhece o futebol na prática e apresenta medidas, saídas e soluções para que ele melhore.

Teremos uma Copa do Mundo nesse ano. No último ano, durante a Copa das Confederações tivemos algumas manifestações populares que eram contra a execução da Copa no Brasil. A Copa já demonstrou uma série de problemas em relação à infraestrutura. Você entende que por isso é o momento ideal para que o Bom Senso traga ainda mais a opinião pública para o seu lado?

Entendo que o país tem muitos outros problemas além do futebol, mais importantes e prioritários. Acho que cada setor da sociedade deve procurar as melhores formas de se manifestar para garantir melhorias para si e para o país. Os jogadores entendem mais de futebol e por isso reclamam de futebol. Acho que a Copa é, como um todo, uma oportunidade de o país se manifestar, evoluir e se desenvolver, demonstrar que não está satisfeito com algumas coisas.

Desde que foi criado, como tem sido a adesão dos torcedores ao Bom Senso F.C.?

Desde a sua criação, há quatro meses atrás nós já demonstramos que o movimento é sério e organizado e reivindica temas importantes. A cada dia que passa, mais gente apoia e menos gente critica. Muitos dos que criticam não param para ler a respeito, para conhecer a nossa causa.

O Brasil tem hoje, entre os deputados, uma voz muito forte que também é um ex-futebolista. Vocês veem Romário como um aliado para que as causas do Bom Senso ganhem amplitude e sejam solidificadas em termos de projeto de lei?

Acho que não só o Romário, mas todos os deputados e políticos de Brasília. Já foram marcadas duas audiências com o Bom Senso F.C., para falar do calendário brasileiro. O futebol é uma paixão nacional e acaba envolvendo milhões de pessoas. E é por isso que contamos não só com Romário, mas com outros deputados para tornarmos o esporte melhor.

Muitas pessoas podem olhar o Bom Senso F.C. como um trampolim político para você. Como você reage a esse tipo de pensamento? Você pretende ter uma carreira política depois do futebol?

Não reajo à nada, eu estou fazendo o que eu acho que é certo. O Bom Senso é apartidário, só não pode ser apolítico por motivos óbvios. Espero que o Bom Senso continue existindo depois que eu parar de jogar futebol. Ainda não sabemos como funcionará, é tudo muito novo. Nunca pensei em ser político e tenho bastante tempo de futebol para poder pensar no que vou fazer depois.

O Bom Senso tem planos de discutir a situação dos atletas da base?

O futebol brasileiro apresenta uma centena de problemas, a questão do tratamento de atletas da base é mais um deles. O Bom Senso tem duas grandes bandeiras, a questão do calendário e do fair-play financeiro, além de uma terceira que envolve o torcedor, que prega a não-violência nos estádios. A gente acredita que pressionando a CBF nós vamos melhorar a capacidade dos atletas e a condição do futebol.

Você jogou um tempo na Europa. Acredita que o futebol europeu está à frente nesse tipo de discussão?

Acho que eles estão muito à frente na Europa, tanto no calendário quanto no fair-play financeiro. É claro que eles possuem outros valores por lá e também um estilo de jogo completamente diferente do nosso. O que podemos extrair deles é um pouco da organização, mas adaptada ao nosso estilo e à nossa cultura. Não é possível pegar o modelo europeu e aplicá-lo de maneira forçada no Brasil, isso não existe. Agora, que o futebol praticado no Brasil é abaixo da crítica, é uma verdade. É preciso de uma reforma para desenvolver e valorizar o futebol aqui. É preciso também de vontade política, sem isso nada vai acontecer.