COMPORTAMENTO
24/01/2014 22:06 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

Veja por que a ideia do "casamento tradicional" é uma completa besteira

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Enquanto vários países batalham para legalizar o casamento gay, os adversários da iniciativa pela igualdade continuam afirmando que o casamento em si permaneceu uma instituição estática, que seria destruída se fosse redefinida. Mas existe um grande erro nessa lógica. Porque, embora o casamento tenha existido como elemento central da vida em quase todas as culturas globais na história registrada, sua definição mudou várias vezes.

Antes dos sistemas jurídicos e das economias internacionais, as classes nobres e governantes usavam casamentos, em vez de tratados, para criar laços diplomáticos e comerciais. "Você estabelecia relações pacíficas, relações comerciais, obrigações mútuas com outras pessoas casando-se com elas", escreve Stephanie Coontz, autora de Marriage: A History (Uma História do Casamento, em tradução livre). Até recentemente - no âmbito geral, pelo menos - o casamento foi definido quase exclusivamente por essas parcerias vantajosas, quando as pessoas começaram a questioná-las abertamente.

Assim, para qualquer pessoa que afirme que o casamento gay desafia o legado supostamente antigo e imutável do casamento "tradicional", veja a seguir algumas das maneiras como o casamento foi redefinido ao longo do tempo.

Grécia antiga: Casamento é para fazer bebês.

Como a maioria dos antigos corpos governantes, Atenas não definia legalmente o casamento para seus cidadãos. Produzir descendentes era praticamente o único motivo para se casar -- como disse um homem, "Temos as hetaerae (cortesãs) para o prazer, as concubinas para os cuidados diários de nossos corpos e as esposas para terem filhos legítimos e cuidar de nossas casas" -- porque o Estado controlava o fluxo da riqueza por meio da herança. Era tão importante manter a propriedade na família, escreve Coontz, que uma garota cujo pai morresse sem deixar um herdeiro homem poderia ser obrigada a se casar com seu parente mais próximo, mesmo que ela tivesse de se divorciar do atual marido.

O casamento não era sequer considerado a união mais ideal, pelo menos segundo a elite da sociedade. Essa honra ia para -- rufem os tambores, por favor -- as parcerias homossexuais, já que não se esperava que homens e mulheres casados fornecessem uma realização emocional recíproca.

Povos indígenas: A vida é dura, case-se com quem for preciso.

Em algumas culturas, os homens assumem várias esposas para que possam se ajudar mutuamente no trabalho necessário para sustentar a família. As mulheres de Botsuana tinham um ditado: "Sem outras esposas, o trabalho de uma mulher nunca termina", escreve Coontz. No duro ambiente natural da Austrália, os aborígines arranjavam casamentos para seus filhos com base no acesso estratégico à terra, de modo que o clã tivesse comida e água para onde quer que viajasse.

Algumas tribos indígenas americanas tinham grande respeito pelos indivíduos de "dois espíritos", ou aqueles que podiam fazer o trabalho de homens e de mulheres. Uma pessoa de dois espíritos podia se casar com outra do mesmo sexo, desde que todas as tarefas necessárias na manutenção da casa fossem realizadas com facilidade, tornando o casamento mais uma preocupação laboral que de gênero.

China antiga: Por que restringir o casamento aos vivos?

Os filósofos confucionistas afirmavam que os laços familiares mais fortes existiam entre pais e filhos, ou entre irmãos, escreve Coontz. Os laços conjugais eram secundários, de modo que um filho podia ser surrado por defender a opinião de sua esposa (que tinha de conviver com a família do marido) e não a de seu pai.

Uma das tradições matrimoniais mais estranhas de qualquer sociedade é sem dúvida a prática chinesa dos "casamentos fantasmas". Para impedir que parentes mortos solteiros ficassem solitários no pós-vida, parentes os casavam -- com outros finados. Eles eram unidos em um ritual junto ao túmulo, e os novos parentes mantinham-se em contato depois. Apesar de estar proibido na China hoje, os casamentos fantasmas ainda acontecem.

Antigo Egito: Casamento em busca de linhagens puríssimas.

Os governantes do império fragmentado de Alexandre o Grande usavam o casamento como um instrumento político, escreve Coontz, assumindo mais de uma esposa com o fim de estabelecer alianças com outros reis. Diferentemente das coesposas de Botsuana, porém, as coesposas helenísticas geralmente se odiavam, já que cada uma era considerada uma ameaça à ascensão das outras ao poder. Os filhos tramavam com suas mães contra as madrastas. Irmãos tramavam contra irmãos. Para produzir herdeiros que pudessem eliminar qualquer dúvida de legitimidade, também ocorriam alguns casamentos entre irmãos.

As classes inferiores, sem muita riqueza em jogo, tinham um pouco mais de liberdade para escolher um parceiro. Mas os casamentos ainda eram considerados principalmente contratos comerciais, já que a vida solteira independente era quase impossível com todo o trabalho necessário para arar os campos e cuidar da casa. Os escravos, que não tinham de fazer suas próprias casas, eram proibidos de se casar.

Roma antiga: Vamos usar as esposas como moeda política.

O objetivo de um casamento humano, assim como em muitas outras culturas, era produzir filhos legítimos. Os homens eram mais considerados gerentes das famílias romanas do que propriamente seus membros, escreve Coontz. Além da autorização oficial para casamentos com estrangeiros, porém, o Estado não interferia em quem se casava com quem. Os estadistas chegavam a oferecer suas esposas para formar alianças com outros governantes - o senador Marco Pórcio Catão fez exatamente isso quando se divorciou de sua mulher, Márcia, e arranjou seu casamento com seu amigo Hortêncio. Imagine como Márcia se sentiu.

Cristãos primitivos: Sexo conjugal é um mal necessário.

"Muitos cristãos primitivos", escreve Coontz, "acreditavam que o casamento minava o rigoroso autocontrole necessário para alcançar a salvação espiritual." O celibato, portanto, era preferível ao casamento, mas o sexo era tolerado para fins de procriação -- desde que você não se casasse com seu primo-irmão ou de segundo grau, madrasta, meio-irmã, a viúva do seu tio ou irmão, ou qualquer pessoa dentro de sete graus de distância. (Boa sorte para compreender isso.)

Europa medieval: A vida continua dura e o casamento faz sentido comercial.

Para os ricos, o casamento era mais uma vez um arranjo político entre duas famílias que desejavam cimentar seus laços e fundir propriedades. As rainhas arranjavam casamentos para seus filhos, parentes e damas de honra para criar redes de apoio internacionais para si mesmas. Nos séculos 12 e 13, as pessoas acreditavam que "o amor não pode exercer seus poderes entre duas pessoas casadas uma com a outra", escreveu a condessa de Champanhe. Os relacionamentos adúlteros, por outro lado, eram o apogeu do romance.

Para a Igreja Católica, o casamento consistia simplesmente em um homem, uma mulher, consentimento mútuo, consumação e - muito importante - a aprovação dos pais. Os pais tinham tanto controle sobre as negociações do casamento que em 1413 dois pais de Derbyshire (região da atual Grã-Bretanha) assinaram um contrato em que o nome da noiva foi deixado em branco porque um pai não havia decidido qual das filhas desejava casar.

Os plebeus usavam o casamento como uma maneira de organizar terrenos, que eram distribuídos em faixas aleatórias. O ideal era ter diversas faixas vizinhas, de modo que você podia esperar que sua filha se casasse com o filho do vizinho. Comerciantes e artesãos do mesmo ramo muitas vezes se casavam entre si para compartilhar os suprimentos.

Século 16: Agora o casamento é um sacramento.

Em 1563, a Igreja Católica decretou que o casamento era um ritual sagrado a ser realizado em uma igreja. Eles conversaram sobre isto alguns séculos antes, diz Coontz, mas teria tornado muitos casamentos inválidos, porque ninguém se casava na igreja.

Enquanto isso, os protestantes declararam o direito dos clérigos a se casar, advertindo que não deviam amar demais as esposas. Muitas pessoas ainda ficavam confusas com o conceito do afeto no casamento - um colono da Virgínia escreveu que uma amiga era "mais carinhosa com seu marido talvez do que a polidez da época permite". (Em sua defesa, as demonstrações públicas de afeto são péssimas.) Em toda a Europa pré-industrial, entretanto, o casamento "é melhor descrito como um repertório de sistemas adaptáveis do que como um padrão", escreveu o historiador E. A. Wrigley.

Iluminismo: Amor também pode ser importante no casamento.

Os pensadores dos salões começaram a ruminar sobre o casamento e decidiram que parceiros apáticos eram uma coisa triste. Os dois pombinhos deviam ter liberdade para escolher sua união, eles pensavam, em vez de os pais tomarem as decisões em seu nome, aumentando a importância do companheirismo e da cooperação. O casamento começou a se tornar o tipo de parceria privada que conhecemos hoje.

Os críticos, é claro, afirmavam que essa igualdade entre parceiros significava a destruição do casamento como a civilização o conhecia, porque minava a autoridade masculina que unia as famílias. Mulheres tolas!

Era vitoriana: Boas esposas pertencem ao "culto da pureza".

Quando a rainha Vitória caminhou pela nave da catedral vestida de renda branca virginal, ajudou a mudar a percepção das mulheres como o gênero "mais lascivo" para um inocente e assexuado. O casamento ideal ocorria entre um homem e uma mulher com fortes valores morais. Quando o sexo em si começou a ser considerado indecente para senhoras finas, que eram fortemente encorajadas a reprimir os sentimentos de desejo, os homens acharam menos estressante ligar-se a prostitutas, simplesmente.

Início do século 20: Pessoas casadas devem ter bom sexo.

Os jovens que se rebelaram contra seus tediosos antecessores da era vitoriana o fizeram ostentando sua juventude e seu ardor. Por isso, além de se casar por amor, os casais ideais na virada do século passado também tinham vidas sexuais satisfatórias. No final da década de 1920, escreve Coontz, a intimidade entre duas pessoas casadas havia se tornado ainda mais importante do que os laços com os pais. Enquanto isso, os críticos escreviam colunas nos jornais intituladas "O casamento faliu?" e previam que o crescente enfoque no sexo levaria ao fim da instituição em menos de 50 anos.

1950: Famílias nucleares são melhores.

A era que precedeu a Segunda Guerra Mundial viu uma "febre de casamentos" que resultou em uma obsessão pela família nuclear depois da guerra. Os casamentos consistiam geralmente em um provedor homem, uma mãe que ficava em casa e dois filhos -- e as uniões duravam mais, em média, do que nunca antes. Ainda havia leis, entretanto, proibindo pessoas brancas de se casarem com negras, mongóis, indianas, indígenas, japonesas, chinesas ou filipinas. Mas pacientes de tuberculose e pessoas com distúrbios mentais receberam autorização legal para se casar depois de 1950.

Final do século 20: O casamento é um direito humano.

Grupos feministas lutaram para reduzir a pressão sobre as mulheres para que encontrassem um homem e se assentassem, ajudando a firmar a ideia do casamento como uma parceria entre iguais. O estupro marital foi proibido. Os estados americanos começaram a repelir leis que impediam alguns casamentos -- os casamentos inter-raciais foram legalizados em 1967 e o casamento de detentos, em 1987 -- conforme a ideia de um casamento perfeito se tornava cada vez mais um empreendimento comercial de bilhões de dólares.

Em 2001, a Holanda tornou-se o primeiro de um número crescente de países a conceder a parceiros do mesmo sexo o direito de se casar.