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24/01/2014 20:43 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:50 -02

A festa de Putin

Reuters

Sede dos Jogos Olímpicos de Inverno, a Rússia quer provar que finalmente ressurgiu como potência mundial. Mas a estância litorânea de Sochi, alvo de insurgentes islâmicos e local de um suposto genocídio, é uma escolha polêmica para palco da disputa.

Valery Inozemtsev sobe por uma trilha no alto da montanha, amassando a lama revolta do desenvolvimento. Passa por um alojamento olímpico, por uma dacha recém-construída para um burocrata e por caminhões que transportam cascalho e vigas. Tudo novo. Inozemtsev vive no outrora pacato vilarejo chamado Krasnaya Polyana, no Cáucaso setentrional russo, há meio século, desde o tempo em que a área não era uma preocupação urgente do Kremlin. "Esse era o melhor lugar da União Soviética", ele suspira. "Natureza virgem. E agora..." Sua voz some de tristeza.

Inozemtsev, 73 anos, continua com suas passadas largas e juvenis a subir a montanha. Chega a um bosque de castanheiras, para e joga para trás sua capa marrom. Passa dois dedos pelo bigodão branco, depois aponta para a faina na encosta da montanha, onde operários da construção civil retalham Krasnaya Polyana e lhe dão a forma de uma grandiosa obra pública do presidente russo Vladimir Putin. "Às vezes, imagino que um terremoto vai destruir tudo isso", diz Inozemtsev.

A Rússia não é mais um império. Mas, como outros países vastos e populosos, ainda almeja ser - e terá essa oportunidade por duas semanas em fevereiro, quando os Jogos Olímpicos de Inverno acontecerão em um local inusitado. Os jogos de Sochi, na costa do mar Negro, serão disputados nas vizinhanças do local de uma guerra recente com a Geórgia, no lugar onde se deu o que muitos chamam de genocídio de um povo (os circassianos) e na órbita da uma insurgência islâmica (no Daguestão, na Chechênia, na Inguchétia e na Cabárdia-Balcária). O clima continua quente. A Rússia ressuscitou uma temível milícia, os cossacos, para ajudar a manter a paz que alguns podem querer perturbar. Acusações de suborno circulam por toda parte, temperaturas elevadas ameaçam impedir que neve o necessário para as competições e ativistas exigem um boicote à legislação antigay aprovada pelo Parlamento russo. Putin reagiu ao proibir manifestações e comícios em Sochi durante os jogos.

Sochi, um balneário nas praias do mar Negro, atraiu os ricos no tempo do czar Nicolau II, depois os líderes soviéticos e funcionários comunistas, com um complexo de resorts erguido para amenizar os males do inverno setentrional. Hoje essas construções estão decrépitas, usadas por uma clientela mais provinciana, nessa que é uma das poucas cidades subtropicais da Rússia. Na verdade, Sochi é a sede dos jogos, mas as competições se realizarão em outro lugar. A patinação será em Adler, 27 quilômetros ao sul, seguindo pela costa. As corridas de esqui acontecerão em Krasnaya Polyana, 47 quilômetros a leste, na cordilheira do Cáucaso.

Quase todas as instalações para os jogos são recém-construídas: os rinques de gelo em Adler, a pista de bobsled e as imitações de vilarejo alpino em Krasnaya Polyana, a linha de trem e a insfraestrutura que ligam e viabilizam todo o evento. Os jogos olímpicos de Sochi custarão mais do que qualquer outro evento esportivo anterior. A estimativa de custo oficial, 50 bilhões de dólares, provavelmente vai estourar.

Pensando bem, não se trata de um negócio. Também não se trata de uma simples celebração esportiva. O evento se destina, acima de tudo, a representar a culminância das realizações de Putin, um líder que muitos russos acreditam ter sido mandado por Deus para guiar a nação onde vivem para longe de suas derrotas e ignomínias. A semente desses jogos implantou-se na mente de Putin há mais de uma década.

UMA ESTRADA DE PISTA simples atravessa o vale formado pelos vários picos de Krasnaya Polyana. Apenas alguns anos atrás, esse era um humilde vilarejo, de poucos milhares de habitantes, com sua inocência guardada pela autenticidade e pelo orgulho dos moradores: um lugar isolado com jargão próprio e avalanches cíclicas. Tudo isso desapareceu com as construções em massa e os 20 mil trabalhadores migrantes que chegaram para remodelar o vilarejo. Em tempos passados, o vale viu a destruição de um povo que foi praticamente esquecido pelo mundo exterior até que os jogos olímpicos ressuscitaram sua memória.

Perto de uma estrada vicinal em uma tarde de inverno, Astermir Dzhantimirov está em casa, esperando seu chefe dizer aonde ele deve ir trabalhar. Dzhantimirov é funcionário de uma companhia de gás da cidade, a Gorgaz, e faz instalações e consertos de canalizações. Mas ele não é mais conhecido por sua profissão, nem pelo nariz proeminente, nem por seus modos extrovertidos. Apesar do sufixo de seu sobrenome, Dzhantimirov de russo tem apenas a cidadania - e não é isso que o destaca dos numerosos trabalhadores que inundaram o vale nos últimos anos. Ele é circassiano, e seu grupo étnico quase foi eliminado da região há 150 anos, quando o exército do czar atacou os montanheses. Ele mora com a mulher e os três filhos no segundo andar de uma casa pequena. Os vários aposentos interligados, bem arrumados, estão quietos, com a família cuidando das tarefas domésticas.

Dzhantimirov conta como aprendeu as antigas histórias circassianas quando a família se reunia em funerais na região de Cherkessk, ao norte, do outro lado das montanhas. "Eram ocasiões em que eu empinava as orelhas", ele diz. As tias e os tios contaram que os exércitos do czar chegaram no começo dos anos 1800 e que a Guerra do Cáucaso prosseguiu esporadicamente por décadas e os caucasianos perderam sua terra e muito mais.

Quando a Rússia ganhou o Cáucaso, os czares e seus generais conheciam bem pouco sobre a região e as numerosas tribos e línguas encontradas nas entranhas rochosas da cordilheira. Os cossacos de Kuban, guerreiros nômades, patrulheiros da orla sul da Rússia, tinham juízo e não penetravam nas encostas forradas de pinheiros, em que outros tinham entrado sem jamais voltar. O soldado ou o andarilho russo que se perdessem por lá geralmente acabavam no cativeiro, trocados de tribo em tribo por cabras, ervas e outros cativos. Os russos conquistaram essas terras estratégicas, cumprindo o que consideravam ser seu destino expansionista, porque venceram em batalha o sultão e o xá. Logo perceberam, porém, que seria preciso um esforço especial para torná-las russas.

Os circassianos e outros povos locais combateram os russos em uma campanha de guerrilhas enérgica, mas impossível de vencer. Os russos sentiam uma atração especial pelo Cáucaso: a animação dos combates na fronteira, o romance proibido com mulheres das tribos circassianas, o vertiginoso convite à exploração emocional naquele lugar onde um aristocrata de São Petersburgo podia esquecer as regras que o enquadravam e se tornar um novo homem. Com o tempo, essas montanhas se transformaram em reduto de poetas e escritores, de Mikhail Lermontov e Leon Tolstói. Por fim, a capacidade militar russa revelou ser abrangente e ambiciosa demais para os guerreiros montanheses, que se recusavam a aceitar a oferta do czar de viver na Sibéria ou emigrar para o Império Otomano.

Os circassianos lutaram sua derradeira batalha no pequeno desfiladeiro hoje chamado Krasnaya Polyana, ou "clareira vermelha", um nome que alguns atribuem erroneamente ao sangue derramado na guerra. Renderam-se em 1864, foram expulsos e milhares de refugiados morreram a caminho de Sochi. Os sobreviventes foram mandados para várias partes do Império Otomano. Alguns pereceram a bordo de navios turcos e foram jogados no mar Negro.

Desde o anúncio de que Sochi sediaria os jogos, os revezes dos circassianos foram resgatados da história para virar manchete no mundo todo. Ativistas da diáspora tentaram chamar a atenção para o que consideram um genocídio. Houve manifestações em cidades estrangeiras: Istambul, Nova York, Amã, Vancouver.

"Não fomos à Rússia fazer guerra. Eles vieram lutar conosco. Vivemos aqui há muitas décadas", argumenta Dzhantimirov. "A guerra começou por causa dessas lindas terras." Dzhantimirov não é um ativista. Votou em Putin na eleição de 2012. "Vivemos na Rússia há anos e anos", ele diz. "Vivemos lado a lado, respeitamos uns aos outros e permaneceremos na Rússia. Mas a história é a história, e não há mal nenhum em contá-la."

SENTADO EM SUA ESCRIVANINHA, Pyort Fedin não esconde sua frustração. Hoje um mero proprietário de terra, em vez do empreendedor alpino que já foi, ele conta como o poder do governo o levou a atual situação. No início anos 1990, Fedin fez o que todo russo esperto estava fazendo: abriu um negócio. Era o começo da livre empresa, do que se tornaria a Rússia capitalista contemporânea, um lugar de tentativas e erros, de sucessos animadores e fracassos em série. Tempo de seguir em frente, pois não havia como voltar para a vida de antes.

Fedin e seus sócios fizeram o levantamento dos picos de Krasnaya Polyana. Derrubaram os pinheiros e no lugar ergueram torres de metal. O eixo motor de um navio no mar movia o teleférico dos esquis. Mas poucos apareciam para esquiar na bem cuidada pista de Fedin. Quem podia se dar o luxo dessas práticas burguesas preferia a chique estância de Courchevel, na França, e não a provinciana Krasnaya Polyana.

A situação começou a mudar um dia em 2000, quando o novo presidente, Vladimir Putin, pegou o elevador de Fedin até o topo da montanha e desceu com competência por todo o caminho. Conforme os russos viam do que aquele novo líder era capaz, conforme ele confrontava seus inimigos e cerrava fileiras com seus aliados, conforme a Rússia se consolidava, Putin voltou à encosta de Fedin várias vezes. Dima, filho de Fedin, ensinava ministros, assessores e oligarcas a fazer uma curva fechada, a parar e a cair com elegância. Os emergentes não perdiam a chance de conviver com o homem que estava se transformando no tipo de governante que eles reconheciam na longa historia da Rússia.

Fedin sobreviveu às inclemências da economia russa, enquanto seus sócios saíram do negócio, vendendo sua parte. E, quando a dinheirama do boom petrolífero filtrou-se pela sociedade russa, seu resort se tornou lucrativo. Mas só os ingênuos se regozijam com o sucesso na Rússia. As coisas que alguém constrói chamam a atenção daqueles que podem se apoderar delas.

Em 2008, um avião da Gazprom chegou de Moscou. Fedin recorda que os homens da maior companhia da Rússia, a estatal monopolista do gás, o convidaram para dar uma volta. Enquanto o avião da Gazprom seguia para o norte e sobrevoava Rostov, Voronezh e Tula, os homens disseram a Fedin em uma linguagem velada que qualquer um entenderia: "Nós o respeitamos". Então ofereceram uma quantia para comprar seu negócio. Fedin sabia que não podia fazer nada. No prismático prédio escuro da Gazprom em Moscou, ele assinou os papéis postos à sua frente. "Vejo em seu rosto que está triste", disse-lhe o homem dos contratos. "Não é o dinheiro que lhe interessa." Fedin recebeu uma quantia justa, ele diz, mas o negócio que ele construíra não era mais seu. "Dinheiro é só papel", ele replicou, assinando o contrato. (Um porta-voz da Gazprom declarou em um e-mail que a companhia "foi adquirida em condições comerciais".)

Da janela de seu escritório, Fedin avista seu antigo resort. "É tortura ver o que estão fazendo", diz. Ele fala sobre deslizamentos de terra, poluição, suborno e ambição política.

Antes que o demitido chefe da comissão olímpica de salto de esqui descobrisse níveis elevados de mercúrio em seu sangue (devido a causas misteriosas), antes que o mar tempestuoso arrasasse o multimilionário porto cargueiro de Sochi, antes que o grupo minoritário protestasse contra a realização dos jogos no local de um suposto genocídio, antes que um helicóptero que transportava material de construção despencasse em uma reserva ecológica, antes que o rio Mzymta transbordasse, antes que a legislação antigay provocasse a ira internacional - antes de tudo isso, os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi pareciam uma ideia mais promissora. O presidente russo viajou para a Cidade da Guatemala em julho de 2007. Falou no inglês dos adversários para o Comitê Olímpico Internacional (COI), impressionando os presentes, surpresos por ele deixar de lado o emaranhado das consoantes russas. Um testemunho da atração pelo poder é o fato de que até muitos dos não-governados por Putin parecem deslumbrados em sua presença.

Entretanto, quando o COI escolheu Sochi para sediar os jogos, concedendo à Rússia o direito de receber gente do mundo todo, essa decisão paradoxalmente aumentou a desconfiança do Estado contra os estrangeiros e suas motivações.

O PATRULHEIRO COSSACo passa em companhia de dois policiais defronte às poucas lojas do vilarejo de Krasnaya Polyana. Em trajes de inverno, o cossaco sobressai: culotes cinza, botas de cavalgar de cano alto, suspensórios de couro marrom cruzados por cima de um sobretudo militar. Parece que ele vem de outra época.

Cossacos fundaram Krasnodar, hoje capital da região que engloba Sochi, depois de receberem a permissão de Catarina, a Grande no século 18. Os cossacos da cidade se distinguiam como cossacos de Kuban por causa do rio Kuban, que corre para o noroeste, a partir do monte Elbrus, e deságua no mar de Azov. Era deles a violenta e difícil missão de defender a orla russa contra invasores que seguiam para o norte, vindos das terras do Islã. Os cossacos de Kuban agiam à margem da lei e seguiam suas próprias regras.

Depois que os comunistas tomaram o poder, a instituição dos cossacos foi abolida, e por muitas décadas essa seita de cavaleiros foi reprimida. Mas, na época em que Putin começou a esquiar nas montanhas de Fedin, os cossacos de Kuban tinham voltado a se reunir. Não apenas haviam sobrevivido mas também constituíam agora uma força política tão substancial que o governo reconheceu a sensatez de acolher seu imaginário pátrio. "Sempre fomos patriotas", diz Yevgeny Razumov, em seu uniforme preto de cossaco, salpicado de gotas de chuva, do lado de fora do prédio de tijolos vermelhos da delegacia de polícia de Krasnaya Polyana. "E continuamos aqui."

Os cossacos estão de volta às ruas: suplementam a ronda policial a pé, separam brigas, ocasionalmente começam algumas, salientam os que não são etnicamente russos, ostentam autoridade, revivem antigos ritos. Há 25 cossacos em patrulha em Krasnaya Polyana, outros 25 em Sochi e 15 em cada aeroporto e estação ferroviária. No total, são 1,5 mil na região de Krasnodar.

Alexander Tkachev, governador da região de Krasnodar, é cossaco e, de vez em quando, enverga seu uniforme típico. Chefe autoritário, ele lamenta o crescimento da população muçulmana local. Em um discurso dando as boas-vindas aos cossacos de volta ao serviço, Tkachev disse que a vizinha região de Stavropol tradicionalmente atuou como um "filtro" étnico para o resto da Rússia, assimilando seus migrantes caucasianos, mas, com o aumento das populações minoritárias, ele receia que isso não seja mais possível. Relembrando o antigo papel dos cossacos e a condição oficiosa da seita, Tkachev insinua: "O que você não pode fazer, um cossaco pode".

Críticos dizem que os cossacos são uma força reacionária. Mas a crítica não é responsável pela segurança das pessoas em grandes eventos. A insurgência islâmica no Cáucaso setentrional persiste há 25 anos, mostrando que a subjugação dessas terras pela Rússia continua difícil.

Ir de carro até a confluência dos rios Achipse e Mzymta em Krasnaya Polyana revela mais uma camada de dúvida em torno da escolha desse local para os jogos. Quem vai pela estrada vê escavadoras, caminhões e migrantes de capacete e atravessa um túnel onde pingos cinzentos caem no parabrisa do carro. No fim da estrada, dois guardas de fronteira controlam uma barreira. Amigavelmente, eles explicam que o acesso é proibido. Apontam para a montanha e dizem: "A Abecásia fica ali, a 3 quilômetros". Trata-se de um território que se separou da Geórgia nos anos 1990. Depois que a Rússia venceu a guerra contra a Geórgia, em 2008, reconheceu a soberania da Abecásia. Apenas Nicarágua, Venezuela, Nauru e Tuvalu também admitem a independência da região, uma lista que poderia provocar risos - só que a Abecásia não é uma piada.

Em maio de 2012, o Serviço de Segurança Federal (FSB) descobriu vários esconderijos de armas nesse território, do outro lado da montanha, tão próximo às obras dos Jogos Olímpicos de Inverno. Explosivos, lançadores de granada, mísseis de ombro. O FSB prendeu três suspeitos, alegando que pertenciam a um grupo terrorista chamado Emirado do Cáucaso. Em julho de 2013, o líder do Emirado, Doku Umarov, exortou seus seguidores a impedir que os jogos se realizassem. Para os que fazem do Cáucaso setentrional uma das regiões mais voláteis do mundo, tumultuar a disputa equivaleria a conquistar a medalha de ouro.

Praticamente a cada 15 dias, forças especiais russas e militantes muçulmanos travam embates sangrentos no Daguestão, na Chechênia, na Inguchétia e na Cabárdia-Balcária. Cada um desses lugares fica a um dia de carro de Adler e Krasnaya Polyana, palcos dos jogos, onde não seria difícil juntar-se ao exército de migrantes que está construindo a infraestrutura olímpica.

Em Krasnaya Polyana, os operários se aglomeram na rua entre um turno e outro e engolem Coca-Cola morna em um barracão de janelas ensebadas. Inserem notas de rublo em uma máquina para pôr crédito nos celulares, que usam para mandar mensagens até o Quirguistão e o Uzbequistão, contando à esposa como ganham o dinheiro que mandam para os filhos. Um grupo segue por uma trilha lamacenta, chega à rua Defensores do Cáucaso e fica à espera do ônibus que os levará de volta ao clangor de metal raspado e ao fedor de solda derretida.

De repente, um sedan Volvo perde o controle na estrada. Dá uma guinada, invade a pista oposta, pula para cima da calçada, atinge um homem e derruba um poste de luz. Forma-se a multidão. O homem jaz onde caiu, de costas, imóvel. Alguém cobre o corpo com um casaco, deixando de fora uma mão calejada e ensanguentada. Chega um carro de polícia, três cossacos descem. Puxam o motorista pela janela do Volvo. Ele tem cabelos pretos. É magro. Pelos olhos, dá para ver que está fora de órbita, bêbado. Os cossacos gritam com ele, xingam-no, dizem que ele matou um homem e merece morrer. Viram-no de borco e o seguram com o rosto colado na terra. Socam seus rins. O homem urra de dor. Rende-se. Os cossacos o algemam. Depositam o detido no banco de trás da viatura. Depois que os cossacos se vão, a multidão se dispersa, como se nada tivesse acontecido. O corpo permanece na estrada. Por fim, o pessoal do serviço de emergência aparece para levá-lo ao necrotério.

O QUE VAI SOBRAR? Essa é uma pergunta que muitos moradores gostariam de ver respondida - os que chamam Krasnaya Polyana de minha terra e não põem a mão nos lucros lamacentos que transformaram sua paisagem familiar. Os Jogos Olímpicos de Inverno tornaram-se um prisma através do qual a Rússia amplifica sua mensagem ao mundo enquanto desconsidera as agressões à humanidade, ao meio ambiente e à lei que se fazem necessárias para oferecer o espetáculo que todos esperam ver.

Uma tênue linha separa o pragmatismo do cinismo, e na Rússia sempre se anda em cima dela. Essa é parte da atração especial do país. Na adega do hotel Quatro Picos, em Krasnaya Polyana, Igor Zubkov desarrolha uma garrafa de merlot. Ele e um sócio são os donos do hotel, e também do vinho, 5 mil garrafas de tinto e branco produzidos com uvas de Anapa, uma cidade ao norte, na costa do mar Negro. Zubkov, de copo na mão, comenta: "O governo diz que os russos gastam 4 bilhões de dólares por ano para viajar ao exterior no inverno. Por que esbanjar 4 bilhões por ano em uma temporada de inverno de três meses? Por que não mantemos esse dinheiro aqui, entre nós?"

O poder estatal transformou Krasnaya Polyana de um vilarejo pacato em um balneário com acomodações e infraestrutura para acolher muitos milhares de pessoas em sua migração anual de inverno. Zubkov fica sério, mas depois ri. "Portanto, gastemos 300 bilhões para construir nosso próprio balneário", diz. "São 75 anos de gastos." Como para a maioria dos russos, com Zubkhov é difícil saber quando ele está brincando e quando fala sério. E, como para a maioria dos russos, a amizade com Zubkov se faz depressa e pode durar para sempre.

O tempo de Putin, que poderia se beneficiar com uma mudança da lei para permanecer no cargo até 2024, talvez pareça maior.

Uma partida do Campeonato Mundial de Hóquei Júnior vai ser disputada no novo rinque olímpico em Adler. É uma competição de adolescentes, Rússia contra Estados Unidos, e a escolha de adversários é ideal para transmitir a mensagem amistosa que esses jogos se destinam a transmitir. Aproxima-se a hora do jogo. A multidão se agita, os patinadores deslizam pela superfície vítrea da pista. Então aparece no gelo uma figura meio conhecida.

Os alto-falantes anunciam: Vladimir Putin. Começa a tocar o Hino Nacional da Rússia. Quando a música atinge seu primeiro crescendo, uma coisa interessante acontece com Putin, um líder de autocontrole sobre-humano. A música se intensifica, e uma onda de energia perpassa seu rosto. Sua expressão se contorce para formar um sorriso. Ele trouxe os Jogos Olímpicos de Inverno para o mar Negro. Ele concebeu tudo isso, e agora é realidade. A expressão de satisfação domina sua face, mas o presidente russo se recompõe. Permanece firme. Refaz a carranca.