OPINIÃO

Brilho e glamour na ONU, mas menos de um centavo por xícara para as Metas de Desenvolvimento Sustentável

12/10/2015 21:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

2015-10-07-1444245660-6824414-SARAFORCHANGE.jpg

Sara é italiano. Ele gosta de café. Sara quer mudar o mundo. photo @CAFEFORCHANGE Diego Mazzarese

Chefes de Estado, presidentes, primeiros-ministros e ministros das relações exteriores de 194 países se reuniram na sede das Nações Unidas, em Nova York, para se comprometer com as Metas de Desenvolvimento Sustentável, ou MDS. Mas enquanto eles e seus diplomatas e embaixadores e milhares de jornalistas tomavam café ou chá na ONU, nas missões diplomáticas e em hoteis de luxo, a cadeia de valor das bebidas em suas xícaras era, e é, uma prova irrefutável do que precisamos mudar no mundo para atingir as MDS.

Precisamos de um sistema de Valores Compartilhados REAL no comércio internacional, não de brilho e glamour na ONU ou de auê na mídia.

Hoje, menos de um centavo de dólar por xícara de café ou chá consumida na ONU - em Nova York, Viena ou Genebra, bem como em todos os outros países desenvolvidos - ajuda a erradicar a pobreza nas comunidades rurais onde o café e o chá são plantados.

Ainda assim, políticos dos países desenvolvidos dizem estar comprometidos com a erradicação da pobreza. Os países desenvolvidos conceberam o café e o chá "FairTrade", "Sustentável" e de "Origem Ética", mas em todas essas "soluções sustentáveis", menos de um centavo de dólar ajuda a erradicar a pobreza. (A quantidade de café verde necessária para produzir meio quilo de café torrado é comprada dos produtores por menos 1,30 dólar, muitas vezes por menos de 1,10 dólar.

Cada pacote de meio quilo de café torrado rende entre 60 e 75 xícaras de café. Quando subtraídos os custos de produção do café do produtor, ele/ela recebem menos de um centavo de dólar de benefício.)

O prêmio financeiro para os produtores no que eles chamam de café "FairTrade" é menos de 0,003 dólar por xícara - menos de um terço de um centavo de dólar - e ainda assim eles se vangloriam e até mesmo fazem publicidade, dizendo como vão salvar o mundo e ajudar a alcançar as MDS com esse valor compartilhado minúsculo.

Enquanto isso, o valor agregado, os lucros e os impostos gerados pelas indústrias do café e do chá chegam a dezenas de bilhões de dólares ao ano nos países desenvolvidos.

Mesmo que se fale pouco do assunto na mídia, há uma enorme discrepância entre o que os políticos de Estados Unidos, Canadá, Europa e outros países do G7 dizem e o que eles realmente fazem - e tomam.

Na minha opinião, a cúpula da ONU sobre as metas sustentáveis e todos os políticos dos países desenvolvidos foram reprovados na prova do valor compartilhado do café e do chá.

É absolutamente inaceitável menos de um centavo de dólar nas xícaras de café tomadas por: Ban Ki Moon, na ONU; os Obama, na Casa Branca; Merkel no Bundeskanzleramt; Cameron no número 10 da rua Downing; Hollande no Palácio Eliseu; Renzi no Palazzo Madama; Rajoy em La Moncloa; Tusk, Juncker e Schultz em Bruxelas; Abe em Tóquio; e os reis em seus palácios, assim como todos os outros ministros e parlamentares dos países desenvolvidos.

O valor do consumo global da indústria de café supera 175 bilhões de dólares por ano. Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o montante da ajuda para desenvolvimento líquida dos membros da DAC foi de 135,2 bilhões de dólares em 2014 .

O valor do consumo anual das indústrias do café e do chá, juntas, é quase duas vezes superior à ajuda para desenvolvimento por parte dos membros do DAC. Infelizmente, o chá e o café consumidos no Château de la Muette, a sede da OCDE e onde se encontram os membros do DAC, em Paris, também contribuem menos de um centavo de dólar por xícara para ajudar a atingir as MDS. O mesmo vale para o café e o chá bebidos no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional, em Washington.

Como ex-jornalista, devo dizer que a maioria dos meus ex-colegas também não está fazendo sua parte.

Além de não investigar as "soluções sustentáveis" e os fatos e os números que realmente importam para acabar com a pobreza, o café e o chá consumidos pela maioria dos jornalistas nos países desenvolvidos também contribuem menos de um centavo de dólar por xícara para a erradicação da pobreza nos locais em que são produzidos.

Isso é verdade das bebidas servidas nas sedes de: The Financial Times, The Guardian, The New York Times, The Wall Street Journal, The Washington Post, Los Angeles Times, Miami Herald, Huffington Post, USA Today, The Economist, Sueddeutsche Zeitung, Frankfurter Allgemeine, Handelsblatt, Spiegel, Stern, Bild, ZDF, ARD, Le Monde, Le Parisien, Paris Match, El País, El Mundo, TVE, Corriere della Sera, la Repubblica, RAI, CNN, BBC, FOX, ABC, CBS, NBC, Sky, Reuters, AP, Bloomberg, EFE, ANSA, AFP, DPA, Dow Jones, Kyodo News, Asahi Shimbun, NZZ, La Tribune de Geneve etc. Menciono só alguns dos meios mais proeminentes nos países desenvolvidos, mas quase todos devem mudar o valor compartilhado em seu café e seu chá para parar de participar da perpetuação da pobreza.

Se realmente quisermos MUDAR O MUNDO, precisamos consumir café, chá e todo o resto em parceria com quem produz - entendendo que, se os produtores não forem compensados adequadamente, somos responsáveis por sua pobreza e seu sofrimento. Estamos violando seus Direitos Humanos. Não podemos depender de políticos e corporações para MUDAR O MUNDO, eles lucram com a nossa indiferença.

Estou criando o CAFÉ FOR CHANGE, CHAI FOR CHANGE (café pela mudança, chá pela mudança) e 10CentsPerCup (http://www.huffingtonpost.com/-fernando-moralesde-la-cruz/@10CentsPerCup), um sistema de valor compartilhado REAL baseado em compensação transparente para ajudar a erradicar a pobreza em regiões produtoras de chá e café.

Minha equipe e eu acreditamos que há milhões de consumidores que querem MUDAR O MUNDO com ações, não só palavras. Por favor, junte-se a nós em www.CAFEFORCHANGE.org.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: